Depois da cerca arrombada...


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A liberdade para manifestar pensamento e externar insatisfação é um dos princípios fundamentais da democracia. Cidadão livre pode protestar contra fatos e ideias, pode fazer reivindicações de forma irrestrita. Desde que esteja nos limites da lei que obriga o respeito ao outro. Em junho do ano passado o brasileiro ‘descobriu’ uma forma de exigir mudanças e deixar claro o seu descontentamento. Depois de um início conturbado, porque tanto autoridades quando agentes de segurança não estavam preparados para tamanha mobilização popular, a dimensão dos protestos por elementos alheios à motivação democrática fez aflorar os black blocs, elementos mascarados que pregam (e praticam) a violência pura e simples. É o terrível mal gratuito, indiscrimado, sem reservas. 
 
Contando com o beneplácito de quem deveria ter aberto um debate amplo em busca de soluções não apenas para as reivindicações, a ação destes baderneiros continuou impune, além de angariar uma defesa injustificável. A violência, parta de onde partir, só serve para tumultuar o caráter legítimo das manifestações populares e direcionadas que se façam no Brasil. A incapacidade, a imobilidade, a falta de jeito das autoridades responsáveis pela ordem acabaram sendo elementos facilitadores da morte do cinegrafista da Band, Santiago Andrade, que causou uma movimentação intensa entre anteontem e ontem.
 
A possibilidade de que pudesse acontecer uma tragédia do tipo já se desenhava há meses. Jornalistas foram alvo de 126 atos de agressão desde o início da onda de manifestações populares por todo o País, em junho do ano passado. O balanço foi apresentado ontem, por representantes das empresas de comunicação brasileiras ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em reunião realizada em Brasília. No encontro, os empresários do setor demonstraram preocupação com o despreparo da atuação policial durante as manifestações. Também defenderam a federalização de crimes cometidos durante os protestos e também em situações de assassinatos de jornalistas por motivos como narcotráfico, agiotagem ou disputas políticas.
 
Autoridades buscam colocar o cadeado apenas depois que a cerca foi arrombada. Algo que poderia ter sido evitado caso houvesse preocupação com as ações violentas desde o início. Quem usa este recurso, sejam manifestantes ou agentes de segurança, precisa ser indiciado, julgado e punido com rigor. Esconder-se atrás de máscaras ou fardas para cometer atos de violência é um verdadeiro ataque à democracia, aos próprios manifestantes bem intencionados e aos profissionais que trabalham na cobertura. Espera-se, agora, que a morte de Santiago Andrade não seja apenas lamentada e nem sirva somente como mote de discursos com viés politico-eleitoral. Algo precisa ser feito antes que voltemos a nos deparar com outra tragédia. Que a morte do cinegrafista sirva a todos, autoridades e cidadãos, para que se possa repensar a visão paternalista e complacente que se tem para com os verdadeiros marginais, a quem interessa apenas a violência, a baderna e a destruição. 
 
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