Um movimento de jogadores de futebol - conhecido como Bom Senso Futebol Clube - está ameaçando a rodada de hoje do Campeonato Paulista da Série A-1, o Paulistão. Comenta-se, desde o final da semana passada - o assunto foi destacado em praticamente todas as mesas redondas e programas esportivos de domingo - que os jogadores profissionais pretendem radicalizar: não entrar em campo na rodada de hoje, em forma de greve, reivindicando melhor organização do futebol brasileiro, principalmente no que diz respeito ao calendário.
Os problemas do chamado esporte bretão tupiniquim vêm de longe, quando os clubes eram dirigidos de forma amadora e as federações estaduais e nacional também. Naquela época, cinco décadas atrás, muita gente ganhou dinheiro em cima de clubes e de jogadores de futebol. O maior exemplo foi Garrincha, um dos maiores craques do futebol mundial e principal responsável pelo bicampeonato mundial da seleção brasileira no Chile, em 1962. Cercado de aproveitadores e espertalhões, assinava contratos em branco e aceitava jogar à base de injeções no joelho. A ignorância, somada ao alcoolismo, acabou com sua carreira em menos de 10 anos. Morreu pobre, doente e sem ter o devido reconhecimento de sua importância para o futebol.
Embora hoje os jogadores do chamado primeiro escalão, que disputam as principais séries do futebol no País, tenham maior reconhecimento monetário de suas qualidades e capacidades, ainda sofrem com um calendário confuso e, o que é pior, fazendo jogos até três vezes por semana, ao contrário do que acontece em outros centros, como a Europa. Diante desta confusão, todos perdem: jogadores, torcedores e as próprias equipes -- maioria delas deve milhões ao Fisco e à Previdência tendo que renegociar as dívidas para continuar existindo.
As federações insistem na manutenção de campeonatos inflados, com mais clubes do que deveria, submetendo os atletas a viagens e jogos constantes. Assim não há físico que suporte. E a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) mostra ter ouvidos moucos para as reivindicações dos atletas que fazem o espetáculo. No ano passado, ainda durante o Campeonato Brasileiro, algumas equipes fizeram protestos dentro de campo, o que levou a CBF a aceitar receber os líderes do Bom Senso e permitir férias de um mês ao final da temporada. Agora, depois da invasão de centenas de torcedores ao centro de treinamento do Corinthians, ameaçando atletas e dirigentes, o susto levou a esta decisão inédita.
Os jogadores ainda se rebelam contra as chamadas torcidas organizadas que chegaram a ser proibidas nos estádios paulistas. Elas recebem ingressos, ajuda de custo dos times e acabam barbarizando dentro e fora dos estádios. Nos últimos meses, a do Corinthians protagonizou episódios lamentáveis. No sábado, invadiu as dependências do próprio clube. O que o dirigente brasileiro ainda não entendeu é que o futebol precisa ser tratado com profissionalismo e encarado como espetáculo. A preservação dos artistas que fazem o show é imprescindível e o jogador brasileiro não pode mais se sujeitar ao acordado nos gabinetes dos dirigentes que possa causar prejuízos à sua integridade física ou à vida pessoal.
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