A situação do velório do Jardim Paulistano II mostra bem como algumas coisas são feitas pelo poder público no Brasil: decide-se pela construção, faz-se a licitação e deixa-se a obra pronta para um funcionamento que não ocorre. Tudo isso sem um planejamento sequer. Há mais de dois anos o velório deveria estar funcionando, mas neste período não acolheu famílias para a última despedida a entes queridos. Administrado pela Associação de Moradores do Parque ‘Vicente Leporace’, o local tornou-se um verdadeiro ‘elefante branco’, custando cerca de R$ 1,5 mil por mês para não cumprir com as finalidades para as quais foi construído. Sem se levar em conta os valores investidos na construção, desde a inauguração a Prefeitura já gastou cerca de R$ 42 mil. Para nada.
Sem realizar estudos técnicos mostrando a viabilidade da obra, os gestores públicos buscam apenas apresentá-la em seus portfólios de realizações. É um dinheiro jogado fora que dificilmente será recuperado. O velório, já se sabe desde antes da inauguração, está em espaço totalmente inadequado, não só pela localização, mas também em razão da realidade social de seu entorno. A escuridão e a violência assustam e afastam interessados em utilizar aquele espaço. Há mais de seis meses a administração promete uma solução, planejando uma audiência pública para ouvir os moradores quanto ao destino do prédio. Mas até agora não houve qualquer movimentação nesse sentido.
Segundo os próprios moradores, a região é perigosa e inviabiliza velar um ente querido no local durante a madrugada. Os populares ouvidos pela reportagem do Comércio nas redondezas do velório disseram que a região é carente de diversos serviços e defendem que o lugar deveria ser um espaço para atender às necessidades dos moradores. O bairro reclama creche e delegacia, mas até agora parece que as reivindicações não encontraram eco junto à Prefeitura Municipal, que já teve tempo de sobra para tornar o prédio útil.
Exemplos deste tipo repetem-se em praticamente todos os municípios do Brasil. E, o que é pior, ninguém é punido por tamanha irresponsabilidade. Estamos em pleno século XXI, com avanços tecnológicos, principalmente, que permitem aos gestores públicos atuarem de maneira mais próxima dos seus eleitores. A internet, hoje presente na maioria dos lares brasileiros, é capaz de levar o administrador ou o legislador para dentro da casa dos munícipes, permitindo-lhes ouvir reivindicações, pedidos e até críticas. Tudo isso contribuiria para que as decisões deixassem de flertar com a autocracia.
A Prefeitura Municipal, com o episódio, deixa claro que continua passando ao largo dos anseios populares. Os novos tempos não admitem mais que os administradores públicos fiquem encastelados nos gabinetes. A participação popular deveria pautar todas as decisões, principalmente as que afetam os destinos de uma grande região como o Jardim Paulistano II. Com tanta carência daquela população, vê-se claramente que os moradores têm demandas mais urgentes do que um velório. A inatividade do espaço é uma prova cabal disso.
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