Não costumo escolher livro pelo título, mas confesso uma coisa: os que me causam curiosidade ficam me tentando muito mais. Foi o caso de Estórias Abensonhadas, de Mia Couto, escritor nascido em Moçambique. Já havia me decidido a comprá-lo quando o ganhei da amiga Bia Ávila, no Natal. Devorei-o em uma noite.
Publicado em 1994, o volume reúne 26 narrativas curtas, onze delas inéditas. A primeira, Nas águas do tempo, dada a semelhança de enredo, remete imediatamente ao antológico A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa. Já a aproximação temática inspirou teses que depois se desdobraram para a linguagem do moçambicano, muito próxima da sintaxe que o mineiro criou para mostrar sua visão de mundo. Em ambos misturam-se o arcaico e o moderno, o épico e o lírico, a poesia e a prosa, a oralidade e a escrita, a epopeia e o romance, a tradição e a modernidade.
Na sua primeira visita ao Brasil, Mia Couto deixou patenteada sua paixão por GR, a quem conheceu em Terceiras Estórias, quando tinha 25 anos. Naquele momento, final dos anos 1980, tendo atravessado o período duro da luta pela independência de Moçambique, viu-se engolfado pelo cruento conflito que foi a guerra civil. Foram quase três décadas de violência ininterrupta, experiência da qual ninguém sai ileso ou imune. Neste cenário, a leitura do maior ficcionista brasileiro foi decisiva para o escritor africano que no contexto pós- guerra, ou seja, a partir de 1990, escreve a maioria dos contos reunidos em Estórias Abensonhadas.
Depois, segunda vez entre nós, na cerimônia em que foi empossado como correspondente da Academia Brasileira de Letras, Mia Couto falaria das convergências significativas entre seus textos e os do mineiro, reconhecendo que a obra deste lhe apresentou modo possível de recriar um universo por meio da linguagem poética, aproximando savana africana e sertão mineiro: “O sertão e a savana são mundos construídos na linguagem. Neles o leitor é, ao mesmo tempo, viagem e viajante. Sendo muito caminháveis, esses territórios não são, contudo, espaços que se atravessam, eles são a própria travessia.”
Isso autoriza a busca de um entendimento dos textos como resultado de processos de composição que mesclam, em diferentes níveis, o legado da via oral e a conquista pelos caminhos da escrita, se misturando em desafio aos leitores, instigados a encontrar maneiras de refletir sobre a realidade embaralhada do mundo heterogêneo.
A savana de Mia Couto é mais que espaço físico, é lar que abriga etnias, credos, línguas, lendas, sonhos, mitos, estórias brotadas de importante convivência entre portugueses e bantos falantes do macua, tsonga, sena, ronga... São também os milhões fincados nas margens de rios como Zambeze e Limpopo ou espalhados por grandes e pequenas cidades. Elemento dessa pluralidade, o grande contingente cristão caminha na sua fé ao lado de expressivo número de muçulmanos a lembrar- como não?- que o nome do país, Moçambique, é árabe.
Diante desse caldo de culturas, entende-se a riqueza do imaginário de Mia Couto a nos apresentar o iluminado cego Estrelinho ; o desamparado aniversariante de Noventa e Três; os casamentos de A praça dos deuses; os dois interessantes casais de Na esteira do parto; a confluência de gêneros em O abraço da serpente ; o realismo mágico de A velha engolida pela pedra ; o sobrenatural de O adivinhador das mortes ; o depoimento lírico em Chuva, a abensonhada; o já citado Nas águas do tempo, que abre o volume e mostra avô e neto em experiência transcendente, marcada por evidente necessidade de não esquecer o passado. E outros dezessete, com as mesmas magnitude, excelência, singularidade.
A conferir unidade ao volume, o sentimento de esperança permeia os contos e já vem anunciado no texto de apresentação do autor, que substitui o usual prefácio: “ Onde restou o homem sobreviveu semente, sonho a engravidar o tempo. Esse sonho se ocultou no mais inacessível de nós, lá onde a violência não podia golpear, lá onde a barbárie não tinha acesso. Em todo este tempo a terra guardou , inteiras, as suas vozes.”
E são essas vozes que emergem no tecido narrativo, as que formam a polifonia capaz de traduzir para o mundo facetas de um país que se reinventa ao mesmo tempo que mantém suas tradições. Assim como a linguagem do escritor, que rearranja o léxico e reorienta a sintaxe para garantir a sobrevivência da comunicação literária em todas as suas camadas de sentido num mundo que, muito além da geografia, está sempre se redesenhando.
O FICCIONISTA
Influência.
“Estávamos em guerra, o mundo desmoronava à nossa volta enquanto ele, com a serenidade dos deuses, nos ensinava a olhar o voo dos pássaros e a beleza dos poentes. Em todos os momentos, a lição do nosso mais velho era a mesma: aprender a ver para além da aparência, aprender a escutar vozes ocultas.”
Este é trecho de carta onde Mia Couto presta homenagem a seu pai, Fernando, pouco depois de sua morte. Poeta, jornalista, uma espécie de agitador cultural, devotou-se por inteiro à literatura, mesmo quando a guerra pela independência parecia inviabilizar qualquer tipo de sonho. Exerceu profunda influência sobre os filhos, e de maneira especial pelo amor às letras, sobre António Emílio Leite Couto, o Mia Couto. Nascido em 1955 na cidade de Beira, uma das maiores do país, ganhou o apelido de “Mia”(variação de Emílio) de seu irmão.
Mia ingressou aos 19 anos na faculdade de Medicina, mas no meio do curso a trocou por jornalismo . Posteriormente fez Biologia. Seus primeiros textos, poemas e prosa curta, foram publicados no Jornal Público, onde ele também trabalhou como jornalista. Os poemas reuniram-se no livro Raiz de Orvalho (1983). Vozes Anoitecidas, conjunto de relatos, saiu em 1986. Na década de 90 publicam-se os seguintes títulos: Cada homem é uma raça, Cronicando, Terra sonâmbula, Estórias Abensonhadas, A Varanda do Frangipani, Contos do nascer da terra, Mar me quer, Vinte e Zinco . Em 2000 vêm a público O último voo do flamingo, O gato e o escuro, Na berma de nenhuma estrada e outros contos, Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra, Contos do nascer da Terra, O país do queixa andar, O fio das missangas, A chuva pasmada, O outro pé da sereia.
Em 1999 Mia Couto recebeu o Prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra. (SM)
Exposição
Título: Estórias Abensonhadas
Autor: Mia Couto
Editora: Cia das Letras
Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora
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