Drible


| Tempo de leitura: 2 min
Por volta de 1960, os meninos e os jovens de famílias pobres trabalhavam. Ao final do mês, entregavam o salário miserável ao pai e à mãe, contribuindo para o sustento da família. Os filhos não davam muita despesa, porque os meninos inventavam seus brinquedos: bola de meia, cavalo-de-pau, espadas, pipas ...Os mais velhos jogavam futebol pelos campos da várzea, e sua aspiração consistia em comprar, um dia, um par de chuteiras Barioni.
 
Quando não estavam participando de campeonatos, os times de futebol jogavam partidas amistosas. Atletas e torcedores - mulheres, adultos e crianças - lotavam a carroceria de caminhão e viajavam até a Fazenda Alegria, até a Fazenda Cachoeira, até Buritizinho, até São José da Bela Vista, até Ribeirão Corrente, até Ibiraci. Ganhando ou perdendo o jogo, era sempre uma festa a ida e a volta.
 
O senhor Vadico, meu pai, não perdia uma viagem.
 
Uma vez a primeira vez o São Paulinho viajou de ônibus. Fomos jogar em Delfinópolis. Cada jogador, cada torcedor pagou sua passagem. A tia Landa, mãe dos jogadores Zezão e Osmar, comandou o grupo de mulheres, tomou conta das crianças que lotaram a velha jardineira. E todos se encantaram mais com a travessia do Rio Grande de balsa do que se tivessem visitado a Grécia.
 
Na cidade mineira, tudo aconteceu segundo o costume da época: o goleiro de Franca foi almoçar na casa do goleiro de Delfinópolis, o ponta-esquerda foi almoçar na casa do ponta-esquerda, e assim por diante. Os torcedores comiam sua matula, sentados em bancos do jardim. Eu fui almoçar na casa do Aires, o zagueiro central do time do América Futebol Clube. Conhecemo-nos, ficamos.
 
O Aires mudou-se para Franca e fixou seu nome na história do futebol amador de nossa cidade. Foi ótimo zagueiro respeitado pela qualidade técnica e pela finura com que tratava os adversários. Quando parou de jogar, defendia a equipe do Miramontes.
 
Essas lembranças me vêm à mente porque me encontrei há pouco com o Gaia, no momento em que atravessava a Praça Barão.
 
- Gaia!
 
- Cruz!
 
Abraçamo-nos, conversamos obviedades.
 
- Tem visto o Aires? Faz muito tempo que não o vejo.
 
- Eu vejo ele quase todo dia. Está bem, muito bem.
 
-E você, ainda dirige o Miramontes?
 
- Não, não. Mudou tudo... Hoje, qualquer perna-de-pau quer ganhar dinheiro pra jogar. Mudou tudo...
 
Dez minutos e muitas lembranças depois, despedimo-nos. Caminho para casa, e meu espírito atravessa rios, qual balsa repleta de craques que se foram, que se vão envoltos nas brumas do esquecimento Brim Coringa, Ciede, Egídio, Wilsinho, Gereba, Cirilo, Mutuca, Pinguim, Padreco...
 
Em casa, apanho a caneta e sujo folhas de papel. 
 
Driblo a vontade de chorar.
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários