Um fiasco anunciado


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Fatos registrados nos últimos dias devem ter acendido a luz amarela nos organizadores da Copa do Mundo programada para os meses de junho e julho no Brasil. Depois do apagão dos trens urbanos no Rio de Janeiro, uma das sedes do mundial, na semana passada, uma reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, mostrou a realidade no transporte metropolitano em São Paulo e na capital fluminense. Junte-se tudo isso à manifestação contra o evento em capitais do País — que terminou com um jovem baleado e baderna generalizada em São Paulo —, além do atraso nas obras de infraestrutura, de mobilidade urbana e nos aeroportos, e pode-se ver aí a crônica de um fiasco anunciado.
 
Sem condições de promover as mínimas condições de vida a seus próprios cidadãos, a esta altura o Brasil dificilmente terá condições de mudar o quadro atual. Trens e ônibus lotados são uma realidade em praticamente todas as cidades brasileiras, metrópoles ou não. Trabalhadores sofrem horas para atingir os seus locais de trabalho diariamente e até hoje não se buscou uma forma de mudar a situação. Na Copa, mesmo que o País transforme em feriado o dia dos jogos, a locomoção de milhões de torcedores nas sedes das partidas será complicada. Isso sem citar a segurança.
 
Como muitos já apontaram, apenas a construção de estádios no padrão Fifa não vai garantir que a organização do Mundial será um sucesso. Afinal, ainda há arenas com obras atrasadas e que deverão ser entregues apenas às vésperas do evento. Mesmo os estádios já prontos e inaugurados ainda não contam com as obras de infraestrutura e de mobilidade urbana prometidas. A maioria dos entornos ainda não foi viabilizada.
 
Para piorar a situação, os gastos estão extrapolando todos os orçamentos iniciais. O Ministério do Esporte do governo Lula prometia uma Copa totalmente privada, sem uso de dinheiro público nas arenas. Entre as doze sedes do Mundial, porém, só três (São Paulo, Curitiba e Porto Alegre) são empreendimentos particulares -- e mesmo essas obras dependem de financiamento de bancos estatais e generosos incentivos públicos. O custo dos estádios para a Copa do Mundo já supera em mais de três vezes o valor informado pela CBF à Fifa quando o Brasil apresentou seu projeto para sediar o Mundial. No início, as arenas deveriam custar US$ 1,1 bilhão, cerca de R$ 2,6 bilhões. A última estimativa oficial, porém, dá conta de que o valor chegará a R$ 8,9 bilhões.
 
Esperar que o ‘jeitinho brasileiro’ dê conta dos entraves e dificuldades nesta altura é uma irresponsabilidade. Hoje, já se sabe, dificilmente os lucros advindos da Copa do Mundo serão capazes de amortizar a fortuna gasta e que deveria estar sendo destinada a setores que precisam de investimento, como Saúde, Educação e Transporte públicos. Sediar o Mundial é uma honra e alegria para o brasileiro, em razão da importância do futebol no País. Mas, pelo visto, não se espere por excelência em todos os sentidos, algo que o Brasil não tem como prover nem no dia a dia dos seus trabalhadores.
 
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