Luara Prieto Ribeiro, de 25 anos, era uma jovem cheia de vida. Tinha emagrecido. Trocado recentemente de emprego. Era auxiliar de administração e sonhava em se casar. Mesmo internada na Santa Casa de Franca, insistia em fazer planos para o ano que se iniciava. Queria muito da vida. Queria muito viver. Não teve essa chance.
Luara morreu na madrugada do dia 8 de janeiro no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) depois de passar oito vezes pelo Pronto-socorro Municipal e ser duas vezes internadas na Santa Casa, onde fez duas cirurgias. Na última, foram mais de sete horas na mesa de operação. Saiu entubada, sofreu uma parada cardíaca que a deixou inconsciente. Um dia depois morreu.
Para o seu pai, o empresário do ramo de veículos, Silson Ribeiro, de 49 anos, ficou o vazio. Mesmo tendo acompanhado os 15 dias de calvário de sua filha, ele ainda tenta entender como a jovem saudável e sorridente perdeu sua vida. Hoje quase um mês depois, o empresário tem dedicado seus dias à busca por respostas.
Foi em sua casa, em um dos condomínios fechados de Franca, que ele falou sobre o drama que enfrenta e a culpa que sente por ter acreditado no sistema público de saúde de Franca.
Como o senhor recebeu a notícia de que sua filha havia morrido?
Era perto da meia-noite. Estava em casa rezando um terço pedindo a Nossa Senhora Aparecida que intercedesse pela saúde da Luara quando tocou o telefone. Na hora senti, sabia que era a minha filha que tinha morrido e comecei a chorar. Minha namorada tentou me acalmar e atendeu o telefone. Do outro lado da linha, uma mulher disse que era para eu ir para a Santa Casa, que o estado de saúde da Luara tinha piorado. Tinha visitado ela mais cedo, por volta das 22 horas. Ela estava entubada, inconsciente. Lembro de ter pego na mão dela e sentido uma rigidez, uma frieza estranha. Pensei: ‘Minha filha não está bem’. Os médicos disseram que eu tinha de ir embora e vim para casa. Começamos a rezar e logo o telefone tocou. Quando cheguei à Santa Casa, me levaram para um anfiteatro onde estavam os dois médicos que atenderam minha filha. Eles estavam sentados. Perguntei se a minha filha tinha morrido. Eles foram muito frios. Disseram que ela tinha tido uma parada cardíaca. Eu só chorava. Fiquei nervoso, inconformado com a morte dela. Eles até falaram que iam chamar a segurança pra mim, mas eu só perguntava o que eles tinham feito com a minha filha. Eles não me olhavam no olho. Só ficavam com a cabeça baixa e diziam que era normal. Não deixaram nem eu ver o corpo da minha filha.
Uma hora depois que ela morreu, o senhor já estava na delegacia para registrar boletim. O que o levou a procurar a polícia tão rápido?
Depois que recebi a notícia, fiquei perdido. Não deixavam eu ver a minha filha. Implorei e não deixaram, mas não sei porque negaram esse meu pedido, não entendi. Então, fui para a praça em frente à Santa Casa e sentei sozinho em um banco. Fiquei lá nem sei quanto tempo. Estava muito confuso, com uma dor que não me deixava respirar. Só lembro que depois de um tempo foram chegando as pessoas. Pensava nos 15 dias que acompanhei o sofrimento da Luara. Lembrava dos médicos me dizendo que não era nada, que ela ia ficar boa. Lembrava do empurra-empurra que foi o atendimento na Santa Casa, cada dia com um médico e sem resposta nenhuma. Lembrava de eles (os médicos) me dizendo para ficar tranquilo para confiar neles e confiei. Eles não me diziam nada. Operaram minha filha sem saber exatamente o que ela tinha. Eles abriram e mataram ela. Só tinha uma certeza: houve um erro médico, uma negligência. Ela estava bem antes da última operação. Lembro dela rindo antes de entrar para o centro cirúrgico. Ela me beijou. E saiu de lá direto para o CTI, sofreu uma parada cardíaca e um dia depois morreu. Foi quando pensei em fazer um boletim de ocorrência. Perguntei o que a mãe dela achava e ela me apoiou. Fomos em 15 pessoas para o plantão. Na delegacia, o delegado nos atendeu. Ainda não tinha o atestado de óbito. Então ele ligou para Santa Casa. Minha surpresa foi que o hospital disse que a morte tinha sido natural. Tanto que o primeiro boletim feito pela polícia não tem a “morte suspeita”. Insisti que não era natural, pedi para que fosse feita a autópsia, queria saber o que tinha acontecido com a Luara. Minha filha tinha morrido, mas não saí da delegacia.
No velório da Luara, o corpo atrasou para chegar...
Foi por isso. Como o boletim feito no plantão não tinha “morte suspeita”, o IML (Instituto Médico Legal) não queria fazer a autópsia. Tive que esperar o delegado do 1º Distrito abrir a delegacia, conversar com ele para que o boletim fosse alterado para só então levar o documento para o legista. Só assim eles fizeram a autópsia.
Durante todo o tempo em que a Luara passou internada, o que mais o deixou incomodado?
Foi o descaso total com o ser humano, com a família. Todos os dias, ia visitar a minha filha e fazia a mesma pergunta: o que é que ela tem? Ninguém me respondia. Cada dia era um médico diferente que me atendia. Eles foram passando o caso dela um para o outro sem se preocupar em resolver o problema da Luara. Eles estavam perdidos. Fizeram dela como se fosse um nada. Senti que lá a morte é uma coisa corriqueira. Minha filha era só mais uma. Minha filha para eles era um número. Não tiveram um cuidado especial em nenhum momento.
Silson, o senhor é um empresário, tem uma condições financeiras melhores do que boa parte da população. Por que, diante desse descaso, o senhor não a levou para um hospital particular?
(Abaixa a cabeça, fica em silêncio por um tempo) Essa culpa vou levar para o resto da minha vida até morrer. A Luara tinha um plano de saúde da Unimed, mas tinha trocado de emprego recentemente e perdido os direitos de usar o plano. Não sabia. Ela nunca foi de me trazer problemas. Ela morava com a mãe, tínhamos contato, mas sempre que me via, ela não falava dos problemas. Da doença mesmo só soube quando ela foi internada. Ela não me avisou que tinha procurado o pronto-socorro. Fui visitá-la e ela disse que estava bem. Logo recebeu alta, veio aqui em casa com o namorado no mesmo dia. Perguntei se ela precisava de algo, se podia ajudar. Ela me respondeu que estava bem melhor, que não era nada. Era mentira. Ela não me disse. Até viajei para o rancho para passar o Ano Novo. Foi lá que recebi uma mensagem da minha irmã informando que ela tinha sido internada outra vez. Voltei na hora. Fui de bermuda para a Santa Casa. Disse para os médicos que ia tirar ela de lá. Mas eles conversaram comigo, disseram que não havia necessidade, que ela estava sendo bem assistida e ia ficar boa. Acreditei. Confiei. E me arrependo. Se pudesse voltar no tempo, venderia tudo, tudo o tenho para salvar a vida da minha filha (chora). Tenho essa culpa. Penso nisso todos os dias. Nunca imaginei que a minha filha fosse morrer. Era uma infecção urinária, uma coisa tão corriqueira. Os médicos disseram que iam curá-la.
O senhor disse que pretende processar a Santa Casa de Franca e a Prefeitura Municipal por conta da morte da Luara. Como estão estes processos?
Na verdade, o que mais quero são respostas. Quero saber do que a minha filha morreu. Tenho este direito. E para isso vou até o fim. Não vou desistir. Deus vai me dar força. Quanto aos processos propriamente ditos, meu advogado me orientou a esperar a conclusão das investigações da polícia e do Conselho de Medicina. Estou acompanhando tudo. Não quero dinheiro, não quero nada. Quero Justiça. Quero que a morte da minha filha sirva para que o que aconteceu com ela não se repita.
O senhor criou um novo perfil no Facebook com o nome da Luara para ajudar famílias que enfrentam o mesmo drama que o senhor. Por que resolveu fazer isso?
O caso da Luara ganhou uma enorme repercussão. As pessoas me param na rua para contar como também foram vítimas. A minha irmã que teve a ideia e achei que criando um perfil podia conversar com essas pessoas, ajudar de alguma maneira, não sei explicar direito. O fato é que o perfil não tem nem duas semanas e já recebi pelo menos outras 15 denúncias de descaso envolvendo morte de pacientes na Santa Casa. De famílias que não tiveram resposta, que não foram ouvidas. Isso é um absurdo. Não pode continuar.
Como estão os seus dias depois da morte da Luara? O senhor já voltou a trabalhar?
Não. Não consigo trabalhar. Aliás, não consigo pensar em outra coisa. A minha vida hoje é correr atrás de documentos e falar com as pessoas para saber o que aconteceu com a minha filha. São raras as noites em que consigo descansar e dormir. Já procurei um centro espírita para acalmar meu coração, mas essa dor não passa. Não aceito a morte da Luara. Não me conformo (chora novamente).
Nesta semana, a polícia divulgou o resultado da autópsia feita no corpo da Luara. No laudo, consta que dois terços do intestino dela haviam sido retirados cirurgicamente e que não havia sequer indícios de infecção...
Então, não sabia. Eles não me disseram isso. Quando a operação acabou e fui conversar com os médicos, eles disseram que o intestino dela estava colado e que quando foram arrumar acabaram fazendo uma pequena perfuração. Para consertar, teriam tirado um pedacinho do intestino. Disseram que era de no máximo dez centímetros. Mas, para você ver o quanto eles erraram, no laudo da autópsia diz que foram dois terços de todo o intestino (grosso, que mede cerca de 1,5 metro, segundo o InfoEscola). É muita coisa. Além disso, duvido que estivesse mesmo colado porque, antes da cirurgia, a Luara estava indo ao banheiro normalmente.
Na opinião do senhor, com tudo o que o senhor já conseguiu apurar, o que houve com a Luara?
Acho que foi um erro médico. Tenho certeza absoluta disso. Não sei se vou descobrir o culpado porque a classe médica é muito unida e nenhum médico fala do erro do outro. Eles são muito unidos. Estou brigando com uma classe muito unida mesmo. Já ouvi de muita gente que não vou dar conta.
E quando o senhor ouve isso, o que pensa?
Ouvir isso só me dá mais força para lutar (chora). Não consigo simplesmente deixar para lá. Não consigo esquecer. Prometi para a minha filha deitada dentro de um caixão que vou lutar até o fim, que a morte dela não seria em vão. Só vou reencontrar a paz e conseguir tocar a minha vida quando tiver todas as respostas. E tenho certeza de que vou conseguir. Não vou desistir. Sinto culpa. Devia ter arrancado a minha filha de lá. Não devia ter acreditado nos médicos. Mas nunca imaginei que ela fosse morrer. Eles ainda vão matar muita gente ali.
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