Faz tempo que aconteceu. O Kingdom Center e a Faisaliah Tower nem existiam na imaginação dos arquitetos. Eu enfrentava com desconforto meu quinto verão em Ryiad, 45 graus à sombra. Tudo parecia deteriorar. Mas algo incomodava mais que o calor e as tempestades de areia: os wahhabistas que intensificavam seu domínio sobre a Arábia Saudita. Por toda parte, alertas: “Você não pode fazer nada que o profeta Maomé e seus companheiros não tenham feito”. Ir ao cemitério, por exemplo.
Foi no começo de um desses dias tórridos que ela me apareceu no seu niqab escuro que só deixava à mostra os olhos. Nunca saberei exatamente como chegou. Desconfio de que tenha sido por eu ser romano e ela, imigrante da Eritreia, filha de pais italianos. Estrangeiros tateiam contatos. Acreditou que eu poderia ajudá-la, é isso. Entende?
Custou a se recompor do choro quando, assustado e olhando a rua, vi que estava deserta e a convidei a entrar. Apresentou-se- “Fatimah, senhor”; e informou que vinha de hospital vizinho ao Estádio Rei Fahad; que o marido havia morrido em acidente na plataforma de petróleo há dois meses e lhe deixara o filho, três anos, morto há poucas horas. “Teve febre, o menino; foi tudo muito rápido.” Perplexo, acompanhava seu relato ininterrupto e não entendia a razão de ela estar me contando aquilo. Foi então que retirou do bolso, entre as pregas da roupa que a cobria por inteiro, o rosário que me mostrou.
Fez-se uma fresta em meu espírito. Ela pertencia ao “povo dos livros”, como diziam os muçulmanos sobre judeus e cristãos. Como eu, deveria esconder o credo; o reconhecimento significaria prisão. Por muito menos, na minha chegada ao país, quase tinha sido detido. À espera de ônibus que me levasse ao hotel, comia um sanduíche herdado do serviço de bordo quando me vi cercado por olhares raivosos, fechando-se em cerco sobre mim. Um inglês do meu voo me alertou:
_ Estão no mês do Ramadã, é proibido comer durante o dia e em público, jogue isso no lixo!
Aos poucos aprendi os códigos. Olhos e ouvidos estavam por toda parte, ciosos por fazer cumprir a sharia, o compêndio do Alcorão.
Depois de voltar o terço ao seu esconderijo, Fatimah começou a explicar. Queria enterrar o filhinho, que permanecia na câmara fria do hospital. Tinham descoberto cruz minúscula em correntinha que ela esquecera no pescoço dele, na pressa com que a febre a conduzira ao hospital. Não poderia sepultá-lo em terra árabe. Os ulemás proibiam porque estava lá, no Hadith de Maomé: “não depositarás em terra islâmica corpo de infiel.” Pelo menos diziam que estava escrito assim.
A mulher voltava a chorar e seu silêncio me doía. Pedi umas horas para pensar. Procurei um amigo, o único que tinha feito em Riyhad durante aquele tempo em que trabalhava no país. Fui à rua Olaya, onde o encontrei.
_ Salam! Marhaba! - me disse ele sorrindo também com os olhos.
_Salam, Fadil!, respondi.
Olhei-o recortado contra a luz intensa do meio-dia escaldante. Tinha uma mente aberta, talvez por ser filho de imigrantes. Não compactuava com as barbaridades dos clérigos que, muito mais que o rei, dominavam o povo. Achava absurdo que Bashshar, seu vizinho, tivesse sido processado por reunir vinte pessoas da família para comemorar o aniversário do filho. Chamei-o à parte e lhe contei a tragédia de Fatimah. Ele ficou pensativo, andou de um lado para outro, as mãos postas como em prece. Mostrava-se compassivo. Depois de uns vinte minutos me falou baixinho:
— Vamos enterrar o menino.
— Onde?
— No souk al jamal. Mas tem de ser à noite.
Ele era negociante de camelos. Tinha um pequeno mercado de animais em Diriyah. O sol se punha quando Fatimah voltou à minha casa. Disse-lhe o que poderia ser feito. Buscou o corpinho e o trouxe enrolado em panos. Entrou no jeep, eu a camuflei sob uma lona. Depois pegamos Fadil e seguimos. Acho que passava da meia-noite quando começamos a cavar. Naquele ermo, só se ouvia o leve bater da pá no chão fofo. Em uma hora estava pronta. Fatimah beijou a face já escura do filho, disse algumas palavras num idioma que eu desconhecia e o deitou na cova. Repusemos a areia, espalhamos pedras. Nenhuma pá de cal. Branca, só a lua imensa sobre o deserto nos observava a fazer o sinal da cruz.
Voltamos calados. Na rua Olaya desceu meu amigo; perto do palácio Al Masmak, Fatimah; eu segui para a parte leste da cidade.
No mês seguinte deixei para sempre o país, levando na bagagem esta história de que nunca vou me esquecer, por mais que viva. Foi depois desses fatos que comecei a ler os gregos. E descobri que tinha conhecido uma Antígona em Ryiad.
Sônia Machiavelli, professora, jornalista, escritora
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