Relembrando o saci


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Embora o povo brasileiro, notadamente do Sul e Sudeste, ignore muito a riqueza de nosso folclore tradicional, a figura do Saci não é igualada em profundidade nas histórias e na crendice popular. É também o exemplo mais flagrante de evocação mitográfica, passando de “ser diabólico”, conforme o classificou Euclides da Cunha em Os Sertões, para a figura de um tipo jocoso e folgazão, misto de ingenuidade e malícia, travesso e impertinente, cujo maior prazer é pregar peças e sustos nos mortais.
 
Hoje, sua imagem está mais ou menos estilizada na figura do pretinho unípede, que fuma cachimbo, usa um barrete vermelho e se diverte dando nó na crina dos cavalos recolhidos ao estábulo ou soltos no campo; bem como em dar voltas em torno daqueles que se metem nas matas do Brasil, apitando e soltando gargalhadas, porque pode tornar-se invisível.
 
No princípio era bicho e morava no mato; depois, quase gente e se aproximou da cidade. Na época de Monteiro Lobato, em meados do século passado, parecia ser gente mesmo, pois até falava com as pessoas a quem pregava suas brincadeiras, como foi daquele caso de dona Evarista, contado por Monteiro Lobato, no inquérito que levantou a respeito nos idos 1917: Dona Evarista morava numa casinha de barro, já velha e buraquenta, em lugar bastante infestado de sacis. Certa noite ouviu a cachorrada prorromper em uivos lamentosos. Assustou-se, pulou da cama e foi à cozinha, cuja porta abriu para o quintal. E lá estarreceu de assombro: um saci arreganhado erguia-se de pé, na soleira da porta, dizendo-lhe com diabólica pacholice: “Boa-noite, dona Evarista...” (M.Lobato, Ideias de Jeca Tatu, 7 ed., Livraria Brasiliense, 1956, p.166).
 
Em Sant’Ana do Machado, no Estado de São Paulo, o Saci já apareceu até como poeta repentista. Diante da casa de dona Maria Rosa, apareceu e improvisou esta quadra: Como vai, siá dona Rona, por que está tão jururu? Parece galinha choca quando briga com o peru. (M.Lobato, op.cit., p.204). Versos que confirmam a malícia e o caráter ferino de seu humor.
 
E assim por todo o interior do Brasil. Do Rio de Janeiro para o sul, não faz outra coisa senão atormentar com piadas e brincadeiras de mau gosto os que não conseguem espantá-lo. No sertão, igualmente: apaga as fogueiras no campo; destelha as casas por ocasião das ventanias; derruba a louça da cozinha; espanta os animais no pasto; dá nó no pelo dos bichos e faz muito cavaleiro dos bons cair da montaria, por ter, às escondidas, desatado os arreios. Gosta de apitar ao redor dos pescadores, dando-lhes voltas em torno, tão rápido que se torna invisível, e ri-se às gargalhadas dos malfazejos que pratica. Neste ponto, imita o Curupira da Amazônia. Mas isto não é nada comparado com o que faz aos folcloristas que lhe procuram decifrar as origens e os enigmas de sua vida e atributos.
 
A começar pelo nome: Saci-pererê, Saciperê, Saci-taperê, Martim-cererê, Matim-taperê, Matitaperê, Sem-fim...
 
Luis da Câmara Cascudo, discutindo a lenda do Saci em seu livro Geografia dos Mitos Brasileiros, além das características que já vimos, aponta mais: o hábito de fumar cachimbo, ser desprovido de pelo, deitar fumaça pela boca ou pelos olhos e apresentar baixa estatura. Em alguns casos apresenta-se com um olho só. Em outros, tem os pés ao reverso, ou seja, o calcanhar para frente e os artelhos para trás. Como o Curupira que, em muitas versões, quando anda deixa o rastro ao contrário.
 
Eis aí alguns elementos preliminares para estudo dos elementos convergentes do mito: o moleque das casas grandes, pretinho, retinto, traquinas, ardiloso, maleva, que desperta, porém, mais simpatia que aversão. Interessante isto! 
 
É preciso lembrar, ainda, que nos depoimentos e “causos” recolhidos sobre o Saci, em São Paulo, o mesmo aparece provocando remoinhos; o que faz rodopiando em torno de si mesmo. Para fazê-lo parar, basta jogar-lhe em cima uma peneira de cipós trançados em cruz. Acaba o encanto na hora. O esconjuro encontra similar no mito do Curupira, na Amazônia.
 
O barrete vermelho do Saci presta-se a considerações diversas. Alguns séculos antes de Cristo, nas saturnais romanas, encontramos os “piléus” carapuça de cor vermelha que simbolizava a liberdade. O piléus era também o emblema do escravo liberto, segundo os costumes da antiguidade latina. Sendo assim, outro elemento, e este milenar, converge para o mito brasileiro, oferecendo por cima uma explicação: embora negro, o saci, pelo barrete vermelho que ostenta, era livre na época pós-escravidão, e continuou livre séculos adiante. Por isso se vinga igualmente dos brancos, infernizando-lhes a vida. Em muitas lendas contadas do Saci, diz-se que aquele que conseguir agarrar o chapeuzinho dele obterá tudo quanto desejar. Para recuperar o barrete, o Saci promete e cumpre o que lhe for exigido. Compreende-se: o barrete, interpretado como documento comprovador de sua condição de livre, não tem preço como a própria liberdade.
 
Não é formidável?
 
É uma pena que as obras de Monteiro Lobato não sejam mais aplicadas à leitura por nossas crianças do ensino fundamental. Imaginem a quantas andaria o imaginário desses alunos se houvesse em suas grades curriculares o Folclore e a Mitologia Brasileira!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos

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