Tempo


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Noite estrelada, calor típico de cidade com clima tropical de altitude fresco.
 
Chegando ao trabalho me deparei com a cena típica de grandes episódios sangrentos: uma roda de gente curiosa, uns fotografando, uns rindo, uns chorando e outros estranhamente indiferentes. No centro das atenções uma cadelinha Basset marrom, que em outros dias pude acompanhar aos saltos-alegres, sempre ao meio -fio. 
 
Recém- atropelada por um homem que, não se sabe: percebeu a morte sob suas rodas, enfim... Era “só” um cachorro.
 
Não para mim. Desfiz a rodinha e peguei o ser que ainda vivia, joguei no meu carro e saí desabalada em carreira, correndo riscos maiores que o de perder o emprego. Naquele momento só interessava meu sono tranqüilo.
 
Busquei ajuda, mas várias portas se fecharam com o prenúncio da morte iminente. 
 
Não pude desistir, não enquanto ela respirasse.
 
Pertinho da Unifran ela deu o último suspiro. Creio que sem entender o baque: sorte a dela, às vezes entender dói.
 
Chorei muito, quase uma hora. A impotência machuca o coração: benditos sejam os profissionais da saúde que suportam sem adoecer.
 
Aceitei a morte, compreendê-la assim se torna natural conforme as separações vão ocorrendo em nossas vidas. A verdade está na superfície das coisas.
 
Minha tarefa agora era: não botar um ser que existiu num saco preto/lixeira. Essa idéia me dava náuseas.
 
Muito obrigada, Jhoninho, foi na porta de um bar que eu peguei você ,“o cara”, deixando seu prazer de lado para me auxiliar no enterro; lhe confesso: esperava ajuda de outras pessoas. A árvore sob a qual o esqueletinho canino habita só nós sabemos.
 
Voltei ao trabalho, olhos vermelhos, coração moído, contei com a generosidade dos meus quinze orientandos. Estávamos em 2007, turma de Orientação Profissional- Escola Hélio Palermo: moçada bonita, cheia de estilo e “marra”, planos e vida. Mas teve uma especial, sem desmerecer os outros catorze.
 
Passado o susto, voltando ao trabalho, eis que recebo das mãos dessa pessoa uma bonequinha em biscuit, menininha de cabelos longos, segurando um cachorrinho feliz.
 
Contive a emoção, agradeci.
 
Por anos tive curiosidade em saber se fiz bem meu trabalho, se aquela moçadinha tinha entrado na “facul”, se eles haviam se tornado o que desejavam, se haviam feitos escolhas saudáveis para suas vidas.
 
Nada melhor que o tempo para responder às questões da nossa insegurança.
 
Passados exatos cinco anos, reencontrei a “menina”, hoje enfermeira do SAMU. 
 
Valeu, Michele, você salvou a minha “vida” em alguns aspectos... E respondeu a uma pergunta que há anos me atormentava. Hoje, durmo tranqüila.
 
 
Janaina Leão, psicóloga

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