Abrir todas as janelas, se sol, se chuva, se céu cinzento e grávido. Sempre um vento, brisa ou vendaval, varre o ar parado e morno da noite encerrada em quatro paredes. Abrir, abrir-se hoje é princípio de notícia.
A luz no céu, na casa, nos móveis, no chão, no teto, nos espelhos, na fisionomia. Bom dia! O sorriso hortelã, os degraus do acordar modulado: hoje é hoje, luz dos princípios.
Os cheiros cambiam, terra molhada, poluição dos carros, café fresquinho, pão quentinho, madrugada indo embora, orvalho também deixa cheiro, rodízio de impressões, hoje-hoje-hoje: grau zero de auroralma.
Os sons de avolumam, carros zunem, conversas de pássaros, vassouradas riscando o ar de pó, de acontecimento. Quem desistiu de continuar, hoje-hoje-hoje-hoje? Os destinados a viver, na branca página, silente expectativa, ousam venturas.
Carícias morosas, ritmadas, abraços primeiros, como se estranhos os que se amaram ontem, como se possíveis amores os que se odiaram ontem, tudo se move lentamente, mas se move, hoje-hoje-hoje-hoje-hoje!
Breves palavras, oi, ó, ei, nó, expressões daquilo que permanece, mas que poderia ter desaparecido: ninguém foi sentinela. Nada se perdeu na ausência de vigia. Tudo continua e nada igual hoje-hoje-hoje-hoje-hoje-hoje...
E o dia nasceu sem pedir licença, e nascerá para cegos, surdos, mudos, paralíticos, ressentidos, odientos, invejosos, para todos, afinal, deficientes na capacidade de se reinventarem, e que vivem do passado, sem esperança de futuro. Condenados à morte eterna da mesmice.
O dia nascerá para os corajosos, para os inquietos. Para os destemidos é permitido soltar a âncora e navegar...ainda hoje, e depois... sete vezes hoje. Navegar por navegar, no coração da sensação caleidoscópica, sem amarras. Ação, luz, cheiro, som, gestos, palavra.
Apesar de ontem, apesar de amanhã.
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
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