Maria José Dupré


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Nesta manhã de janeiro de 2014 vem-me à lembrança os quantos amigos e conhecidos das letras que não chegaram até aqui. 
 
Recordando-me deles, tantos e tantos, toma a dianteira a consagrada romancista e autora de livros juvenis Maria José Dupré, que conheci de perto nas reuniões e festas na União Brasileira de Escritores, aqui em São Paulo, na antiga sede da Rua 24 de Maio, 250 - 13º andar. Antes da morte do marido, Leandro Dupré, famoso engenheiro e hoje nome de rua na capital, assinava-se Sra. Leandro Dupré. Seus romances, em particular o Éramos Seis, prefaciado por Monteiro Lobato, alcançavam altos índices de venda. 
 
Era uma senhora distinta, alva, elegante, com aquele porte das pessoas chamadas, então, de bem criadas e de fino trato. Filha de Botucatu, onde nasceu em 1905, bela cidade paulista que deu tantos nomes de valor para as letras nacionais.
 
Na época em que a UBE andava aposentando escritores, fim da década de sessenta e começo da de setenta, o que não era muito difícil, porque então as portarias e leis do INSS não eram tão rígidas e facilitavam que os escritores, com mais de trinta anos nas letras, conseguissem se aposentar na categoria de escritor com cinco salários mínimos, fui procurado pela Maria José Dupré. Queria se aposentar. Tinha tempo de ofício nas letras e comprovação de obras para isto. O caso dela era facílimo. Prontifiquei-me, na qualidade de secretário administrativo da entidade, a aposentá-la imediatamente, juntamente com o poeta Menotti Del Picchia, que já estava com a papelada em andamento. 
 
Andei com a romancista de repartição em repartição do INSS, enfrentando a nossa eterna burocracia. Mas eu já estava um craque no assunto. Conhecia todos os meandros para aposentar um escritor e contava ainda, para isto, com o auxílio do poeta Antônio Carlos Augusto Bonafé, alto funcionário do Instituto. Maria José espantava-se com tudo aquilo, com aquela gente e aquela confusão toda. 
 
Certa tarde de muito calor, lá vou eu com Maria José e Menotti para um dos andares do prédio do INSS, na Av. Nove de Julho, que a maratona corria de uma repartição para outra. 
 
Ali estávamos, o corredor apinhado de gente, vários guichês e muitas filas. Os dois sentaram-se num banco comprido e eu naquele martírio, de guichê em guichê, e avisando aos dois:
 
- Esperem aí que eu chamo só para assinar os papéis. 
 
E sempre que eu passava em frente ao banco, Maria José me oferecia:
 
- Quer uma cerveja, Caio?
 
Um calor dos diabos, um mundo de gente, e ela inocentemente me oferecendo uma cerveja ali na confusão de um dos corredores perdidos do alto de um edifício. Eu voltava a passar, apressado, e ela insistia: 
 
- Quer mesmo uma cerveja, Caio?
 
Não era piada. Ela oferecia de verdade. Ofereceu tantas vezes, nas minhas idas e vindas que o Menotti perdeu a paciência:
 
- Como é que o Caio pode tomar uma cerveja aqui, Maria José? Não vê onde estamos, no alto deste prédio, no meio desta gente toda?
 
Ela não se deu por vencida:
 
- Eu mando buscar. Quer mesmo, Caio? 
 
Menotti balançou a cabeça e eu vi, mais uma vez, que aquela senhora distinta não tinha a menor ideia do que fosse uma repartição pública. Provavelmente, ao longo de sua vida, nunca entrara numa delas. 
 
Não bebi a cerveja e ela se aposentou. 
 
Mas agora, com este calor no 2014 que se inicia, vem-me a vontade de tomar uma cervejinha, quem sabe ainda oferecida por ela, que se foi em 1984, ouvindo suas palavras calmas e generosas:
 
- Quer uma cerveja, Caio?
 
 
Caio Porfirio,  escritor,  crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti

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