Hoje gozamos do privilégio de ver a cozinha brasileira na moda. O que parece ser um movimento recente tem raízes mais antigas. Devemos, e muito, aos famosos salões literários que antecederam a Semana de Arte Moderna no Brasil. Parece engraçado, porque sempre a gastronomia se apresentou como a menor das artes envolvidas naquele fervilhante momento cultural. No entanto, a simples menção ao nome dado ao movimento revela toda a essência gustativa do que se queria dizer: Antropofagia.
Ao que parece, a primeira vez que se quis dar ares de importância e alguma unidade à culinária brasileira foi com o movimento de 1922, porque se pretendia a brasilidade com orgulho. Por isso, quando artistas se reuniam no salão da rua Lopes Chaves, na capital, para discutirem uma arte genuinamente brasileira, o que comiam eram os doces brasileiros, o que bebiam era aquele “alcoolzinho econômico”.
Mais tarde, as reuniões aconteceriam no selecionado salão da Avenida Higienópolis, aos domingos, para um lauto almoço. O cardápio era sempre luso-brasileiro de tradição, que poderia ser sardinhas escabeche, cozido de carne com alho, cebola e cominho, o uso indiscriminado da farinha de mandioca, a utilização do óleo, do azeite e dos doces de ovos. O próprio Mário de Andrade se ressentiu quando os intelectuais foram “expulsos” de lá, ao se verem enrodilhados pelo pôquer, dinheiro e assuntos menores da sociedade.
Encontraram novo ponto, dessa vez na Duque de Caxias, sob os auspícios da senhora Olívia Guedes Penteado. Por lá, a comida era seríssima, os jantares elogiadíssimos e a orientação: afro-brasileira. Feijoada, talvez, mas fartavam-se com a comida baiana. Aqui, foram os temíveis ares dos anos 1930 que minaram o encontro dos intelectuais.
O movimento influenciou artistas nas mais diversas áreas e, sob a ótica da gastronomia, todo o legado é de uma atualidade que faz todos nós parecermos ridículos. E o que teve de mais interessante nessa história? A percepção de que “o aqui” poderia ser bom também. O que teve de mais sensato? O fato de que não se devia desprezar o arcabouço das experiências, sobretudo as apreendidas no exterior. Eles propunham o deglutir, o comer, o digerir. O que teve de curioso? O alargamento do conceito de comer. Poderia se comer absolutamente tudo. A noção de gostoso, de gostosa estava associado ao que dava gosto, independentemente de ser digerido pelo estômago, pelos olhos ou pela mente. Aliás, era tudo estômago. Então, claro, a comida e adjetivos relativos entraram na moda e elevaram a condição de se “nutrir” ao intelecto nacional.
A publicação nº 1 da revista de Antropofagia se resumia assim: “A Revista de Antropofagia não tem orientação ou pensamento de espécie alguma: só tem estômago”. De lá pra cá, a cozinha brasileira caminhou dentro daqueles princípios modernistas, que jamais perderam o frescor.
DICA DA SEMANA
Arroz
Uma comida que é típica do interior paulista, mas pouco comida por aqui é o Arroz de Amendoim. Aliás, essa semente merece mais nossa atenção, pois é: barata, deliciosa e ainda faz bem à saúde. Domesticada por aqui por volta de 2.000 aC!
Para fazer o arroz é simples, para duas xícaras de arroz, 1 e ½ de amendoim torrado. Refogue juntos arroz e amendoim, por cerca de três minutos, só então coloque a água e o sal, como de costume mesmo. Para acompanhar, sugiro um bom frango caipira com aquele caldinho fabuloso. É irresistível.
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