Isaac Ribeiro, 45, era aluno do curso de informática na Unifran. Ainda no começo das aulas, concluiu que tinha outra missão a seguir. Decidiu trocar os computadores pela Bíblia. Há 22 anos, tornou-se pastor. Em dezembro de 2013, assumiu a presidência da Assembleia de Deus Ministério Missão. É o responsável por comandar 51 igrejas, 90 pastores e cerca de 10 mil membros. O novo líder da igreja recebeu o Comércio no templo sede para contar sua história e falar dos planos futuros.
Por que o senhor quis se tornar pastor?
Pastorado é vocação. Eu me senti chamado para este ministério com 19 anos. Tinha outros objetivos na vida e, de repente, vi Deus me direcionando. Fazia faculdade de outro curso e saí para fazer teologia. Já era membro da igreja e o evangelho entrou no coração. A responsabilidade, a vocação e a satisfação em fazer a obra de Deus nos levaram a tomar a decisão.
Como é o processo para ser um pastor da Assembleia de Deus?
A Assembleia de Deus é a igreja que mais abre espaço para os membros mostrarem seus valores. Se a liderança perceber que você tem vocação, terá espaço para pregar. A pessoa é preparada, treinada para isto. Temos a nossa escola de educação teológica. Umas das exigências é que os ministros sejam formados teologicamente. Primeiro, você entra como membro e, se tiver vocação, é elevado ao diaconato. Depois, vem o presbitério, o evangelista e o pastor. Fui consagrado pastor em 2 de outubro de 1992.
Muitas denominações evangélicas estão aparecendo por toda a cidade e, nem sempre, os pastores estão habilitados para o ministério. Como o senhor vê esse crescimento?
A própria Constituição brasileira facilita isto. O evangelho é difundido no País inteiro. Toda instituição que cresce muito, sempre tem aqueles insatisfeitos. Aí, começam a surgir novas igrejas. Algumas surgem com pastor não habilitado, nem sempre preparado. É um fato que realmente acontece, mas uma coisa eu sei, por mais despreparado que seja um obreiro, sempre pensei: há o mar, o rio e o ribeiro. Aquela igrejinha pequena é o ribeiro que começa a correr e deságua no rio, que vai desaguar no mar. Ela prega o evangelho e presta um serviço importante.
Há casos em que pastores acabam se envolvendo em crimes, como abuso sexual. Como o senhor vê esta situação?
Com preocupação. Temos feito nossa parte e oferecido estrutura aos nossos pastores. Este é um dos nossos desafios. Estamos concluindo no bairro Santa Cruz um centro pedagógico e social da igreja. Usaremos a estrutura para reciclar os pastores, para ensiná-los. Pretendemos firmar parcerias com universidades para dar este suporte teológico, a formação aos pastores para que a gente possa filtrar e ter menos problemas.
O que os membros da igreja podem esperar do seu mandato como presidente?
Muito trabalho, dedicação e devoção. Nossa expectativa é dar continuidade ao trabalhado do pastor Edinho (Edson de Oliveira), que pastoreou a igreja por 29 anos, expandir e fazer algo que é marca nossa. Pretendo fazer com que a igreja esteja perto do povo. Não basta estar perto, temos que estar acessíveis. Queremos que o povo tenha disponível um pastor para assisti-lo, para orar por ele, para aconselhá-lo e, acima de tudo, para pastorear aquele rebanho. Tenho no coração o desejo de me dedicar ao máximo em todos os aspectos, o espiritual, que acredito ser a primeira proposta da igreja, seja também na divulgação de nossas ações. Nossa igreja não é boa em marketing, somos discretos. Fazemos um trabalho social muito forte nas comunidades, calados, sem divulgação. A igreja é uma parcerona do poder público. Conseguimos tirar muitas pessoas do mundo do crime, das drogas, do álcool e da prostituição.
Qual a importância da igreja para afastar as pessoas do vício das drogas e da criminalidade?
Por mais despreparado que seja um pastor, é melhor você ter uma igreja do que um bar, do que uma boate, com todo o respeito às pessoas que gostam, sei que é um momento de lazer, mas sei também que isto traz muitos problemas para a cidade e para as pessoas. Temos inúmeros jovens que eram drogados, que eram alcoólatras. Uma coisa puxa a outra e leva ao crime. A igreja entra, através da oração, para nortear a vida destas pessoas. Uma pessoa sem Jesus no coração, dificilmente consegue vencer as drogas, o álcool. Famílias foram reconstruídas por causa do poder da palavra e da oração.
A questão da homossexualidade costuma ser uma polêmica nas religiões. Como os evangélicos lidam com o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
Nossa igreja é extremamente voltada para a palavra de Deus. A Bíblia tem algumas reservas, não só contra o homossexualismo, porque a gente só foca o homossexualismo, mas se esquece de outras coisas. O adultério continua sendo um problema. A fornicação, que é o pecado sexual praticado por duas pessoas solteiras, para o mundo é normal, mas para a Bíblia, para a palavra de Deus e para a nossa igreja, há reservas. Não temos problemas com homossexual, porque é uma pessoa como qualquer outra. Respeitamos, temos alguns casos na igreja de pessoas que convivem conosco. Pastoreava uma igreja onde temos vários casos de pessoas que tiveram problema nesta área, eram homossexuais, e hoje estão na igreja. A pessoa humana sempre vai ter o nosso carinho e o nosso respeito. Podemos ajudar e dar o nosso papel espiritual, mas não concordamos com a prática.
A união civil entre pessoas do mesmo sexo não tem o apoio da Assembleia de Deus?
Nós respeitamos as leis do nosso País, achamos que todos os direitos que eles constituíram são corretos. Se vivem juntos, se é um desejo, qualquer pessoa tem o direito de fazer aquilo que bem entende e sabemos respeitar. A Assembleia de Deus não é homofóbica, pelo contrário. Da mesma forma que respeitamos, também exigimos que respeitem a Bíblia. A palavra de Deus é muito clara em relação ao homossexualismo.
Um casal homossexual pode frequentar a igreja?
Pode, mas há dois conceitos dentro da igreja: o membro e o congregado. Para se tornar membro, é preciso se enquadrar na palavra de Deus. Temos pessoas que estão há 10, 15, 20 anos na igreja e que não são membros, são congregados, pois têm alguma coisa que não encaixa dentro da doutrina. O congregado tem o mesmo respeito, só não é membro. Para se batizar, é preciso se enquadrar dentro do que a Bíblia nos ensina.
Em relação ao aborto, qual é a posição da Assembleia?
Somos extremamente contra, em qualquer circunstância. Geralmente, quando se fala de aborto, já fala em casos extremos, como o estupro, por exemplo. Se a pessoa passou por isto, há muita gente querendo ter um filho. Gere este filho e doe ele. Uma criança, por mais que seja fruto de estupro, não tem culpa de ter sido gerada.
A posição também é contrária mesmo quando há risco de morte para a mãe?
Já vi muitos casos, tenho exemplos na minha família, de pessoas que tiveram gravidez de risco e a mãe decidiu seguir com a gestação e a criança nasceu perfeita. A mãe sobreviveu. Quando é uma questão extremamente médica a gente não interfere muito. O que não podemos aceitar é a pessoa ter um filho indesejado e, para resolver uma questão pessoal, vai e mata um ser vivo. A Bíblia diz que antes dos nossos ossos serem formados, Deus já nos via. Toda a nossa carga genética já está lá formada. Por isto que somos contra o aborto.
O senhor acredita que todas as pessoas podem ser recuperadas?
Aí que está a essência do nosso ministério. Quem prega o evangelho jamais pode deixar de acreditar no ser humano. Jamais pode deixar de pregar com confiança, por mais difícil que seja o quadro, que Deus pode mudar. Biblicamente, qualquer pessoa pode ser recuperada, mesmo aquele que, na nossa concepção, merece a pena de morte. Não concordamos com o dito de que “pau que nasce torto, morre torto”. Conheço muitos homens que foram nocivos à sociedade e que foram transformados pelo evangelho. O único pecado que não tem perdão é quando a pessoa entra pelo caminho da blasfêmia contra o Espírito Santo.
Pastor, a sensação que se tem é que com a correria do dia a dia, as pessoas ‘se esquecem’ da religião. Como senhor vê essa situação?
Gostaria de pedir para as pessoas se lembrarem um pouco mais de Deus. O ser humano tem uma tendência de se lembrar de Deus só quando está em dificuldade. Jesus disse “vindes a mim todos vós que estais cansados e eu vos aliviarei”. Jesus quer salvar, quer transformar. O livre arbítrio impede, muitas vezes, que a gente se aproxime de Deus. Use seu livre arbítrio para se aproximar, para estreitar uma relação profunda com Jesus. Conheça Jesus, não apenas no nome, mas também na essência.
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