Aprendi inglês e francês antes do castelhano. Olhos voltados para o hemisfério Norte, e não para aqueles que moram ao lado, los hermanos colonizados por outros ibéricos, os espanhóis...
Como unir o continente rachado da América do Sul, o oeste e o leste? Colônias separadas, em 1494, pelo Tratado de Tordesilhas, sob o jugo espanhol e lusitano, e separados ainda mais eficazmente na língua falada pelos colonizadores.
Venho me apaixonando pelo espanhol de modo crescente, talvez me assumindo latino-americana. Ainda não visitei todos os países vizinhos ao imenso continente brasileiro. “Que lástima”, diriam os vizinhos espanhóis.
No oeste sudamericano os povos não são tão iguais assim, pelo menos nas cidades que conheci: Buenos Aires tem ares diferentes dos de Montevidéu, e diferem dos de Santiago. Os uruguaios são doces e tranquilos, disponíveis para os que claudicam na sua língua, prontos a servir de guia fidedigno a qualquer hora e lugar. Foram vários os gestos humanos que saboreei nas cidades de Colônia Del Sacramento, Punta Del Este, e Montevidéu. Era pedir uma informação, no meu português que arremedava o espanhol, para uma fisionomia se abrir em sorrisos e em olhos luzentes, na satisfação de me atender. Homem ou mulher, às vezes marchando em meio à multidão, sisudos, introspectos, e, no repente, muy amables, às vezes deixando suas tarefas para atender um pedido e contestando, quando agradecemos: por favor!
Eles dizem “gracias!”, palavra invejável. O “por favor!”, na musicalidade do seu dizer, me ressoava como: “é meu prazer servi-lo”, “não é necessário agradecer”.
O “gracias!”, pelo dom do favor recebido, radicaliza-se, na orquestração do contato humano, com o “por favor!”, um protesto amoroso, uma exclamação não imperativa, uma forma sucinta de dizer: “isso eu lhe dou, por favor!, é bom de dar, eu me sinto bem ao dar”.
O “por favor!” uruguaio aporta, em mim, um enorme bem e me transmite algo assim: “yo, doador do favor, me dou licença de fazer usted se sentir bem”. E o elo se substancia entre o doador e o pedinte de favor: verbo além do verbo, verbo aquém do verbo, cria o nosostros uníssonos - na troca humana de gentilezas.
Que expressão doce! Familiar, sim, mas ressoando tão diferente no contexto de outro país que não habla a minha língua materna.
Como não pensar que a língua é representativa do espírito de um povo? A língua entoa sentimentos, ela melodia mais do que comunica, diz mais (ou menos) o que diz...
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
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