‘A gente sofreu, mas nunca pensou em se matar’, afirma cantora


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A dupla Pepê e Neném tenta retomar a carreira depois de uma década sumida. Elas se apresentaram na semana passada
A dupla Pepê e Neném tenta retomar a carreira depois de uma década sumida. Elas se apresentaram na semana passada

Potiguara de Oliveira, 38, a Neném da dupla Pepê & Neném, nasceu pobre em uma família de sete irmãos em Irajá, no Rio de Janeiro. Cedo, precisou se virar para conseguir dinheiro. Junto com a irmã gêmea, resolveu fazer o que mais gostava: cantar. “Pequenas, ainda na pré-escola, a gente já fazia nossos shows.”

No final da década de 90, depois de passar um curto período nas ruas do Rio, as duas irmãs conheceram o estrelato. A música Mania de você, lançada por elas em 1999, ganhou as paradas de sucesso e vendeu mais de um milhão de cópias. Por três anos, a Neném tinha como rotina a participação em programas de TV. Xuxa, Gugu, Faustão, Jô Soares são apenas alguns exemplos. Na mesma velocidade com que ganharam dinheiro, as duas irmãs também o perderam.

Em 2001, iniciaram uma disputa judicial com o empresário que as afastou dos palcos e programas. Sem shows, se viram sozinhas e sem dinheiro. Para poder custear o enterro do irmão que tinham como pai, em 2011, tiveram que recorrer a uma campanha nas redes sociais. O fundo do poço veio um mês depois da morte dele com uma ação de despejo. “A gente ficou mal, mas nunca pensou em se matar.”

Foi nessa época que as irmãs assumiram em rede nacional a homossexualidade. As duas mudaram radicalmente o jeito de se vestir.

Otimistas, as gêmeas nunca desistiram de reconquistar o sucesso. Depois de dez anos praticamente sumida, a dupla luta para retomar a carreira. O que não podia prever era o que aconteceu na última segunda-feira, 6. Em Franca para visitar amigos, Neném foi vítima de um assalto. A cantora e dois amigos foram abordados por três ladrões e quase foram baleados. “Foi por Deus que o revólver não funcionou. Nasci de novo.”

Como começou seu envolvimento com a música?
A gente sempre gostou de cantar. Aos nove anos, já trabalhávamos cantando. Íamos a barzinhos, restaurantes ou cantávamos na rua mesmo com o meu pai para conseguir algum dinheiro. Quando crescemos, nos rebelamos. Aos 16 anos, eu e minha irmã resolvemos fugir de casa. Nosso irmão que cuidava da gente não queria nos deixar cantar. Não queríamos isso. Mudamos para uma rua que ficava a uns cinco quarteirões de casa e não queríamos ser encontradas. Nesta época, não tínhamos muito juízo. Fugimos no inverno e a Pepê acabou pegando uma tuberculose por causa do frio. Lembro de dormir abraçada com ela para esquentá-la. Não sei como não fiquei doente.

E como saíram das ruas para os programas de TV?
Nossa estadia na rua durou muito pouco. Acho que não chegou a dez dias. Um tio nosso ficou sabendo que estávamos morando na rua e ele foi nos buscar para morarmos com ele. A Pepê estava doente. Não tínhamos dinheiro para nada. Estávamos passando fome, sede e frio. Topamos na hora. Na casa do meu tio, a Pepê se recuperou e voltou a cantar nas ruas. Um dia uma senhora chamada Maria Luiza nos ouviu, ficou encantada e resolveu nos ajudar. Ela nos apresentou a um empresário e tudo aconteceu.

E como foi para você um dia estar morando na rua e depois se tornar conhecida?
Para ser sincera, a gente nunca ligou muito para o sucesso. Nos divertíamos. A gente adorava cantar e podia ganhar dinheiro com isso. Tínhamos tudo o que sempre sonhamos. O empresário nos deu uma casa, carro. Viajamos o Brasil fazendo shows e ainda aparecíamos na TV. Mas a gente era muito nova. Ingênuas mesmo. Assinamos um contrato com este empresário sem ler. Não tínhamos assessoria. Ele falou que ia cuidar da gente e a gente acreditou. Gravamos o primeiro CD, que foi um sucesso. Aí, o Fantástico nos procurou para contar nossa história. Após a reportagem, começamos a ser chamadas para ir na Xuxa, Gugu, Faustão. Um sonho mesmo.

Mas esse sucesso não durou muito. Logo vocês pararam de aparecer na televisão...
É. Fomos enganadas. No auge do sucesso, começamos a conversar com as pessoas e a perceber que havia algo errado. Não tínhamos o controle de nada. Não sabíamos quanto realmente ganhávamos. O empresário controlava tudo. Ele fechava os contratos e nos repassava aquilo que dizia ser nossa parte. Tínhamos ele como um pai. Nunca desconfiamos de nada. Até que os contratantes e os músicos mais experientes começaram a nos alertar. Procuramos um advogado para saber o que estava acontecendo e ele nos disse que o contrato que assinamos era abusivo. Pelo contrato, o empresário tinha direito a 60% do nosso cachê e a gente ficava com 40%. Para piorar, em um show, não me lembro em que cidade, o contratante sem querer nos disse que havia pago o dobro do que o empresário tinha dito para nós. Me lembro que ele fez as contas dizendo que deveríamos receber o equivalente a 40% de R$ 35 mil. Sem saber, o contratante veio pagar para nós. Ele nos deu um cheque de R$ 70 mil. Assustamos e o questionamos. Foi quando ele disse que esse era o valor fechado.

E o que vocês fizeram?
Procuramos a gravadora. Mas eles disseram que não poderiam nos ajudar, que esta briga teria de ser minha e da Pepê. O único conselho que deram era para que resolvêssemos tudo sem alarde, sem levar nada para a imprensa. Fizemos justamente o contrário. Foi nosso erro. As pessoas diziam que se a gente queria resolver as coisas logo deveríamos tornar a briga pública. Ingressamos com uma ação na Justiça e falamos com a imprensa. O empresário soube o que estávamos fazendo e ingressou com um pedido de liminar para nos impedir de cantar sem a participação dele. Como não havia garantia de que subiríamos ao palco, já que a liminar poderia ser concedida a qualquer momento, nenhum contratante queria assinar com a gente. Aos poucos, os shows foram sumindo. Como o empresário controlava tudo, também ficamos sem dinheiro. Foi desesperador.

Mas vocês não guardaram dinheiro? Não tinham bens?
Não. Eu e a Pepê nunca nos preocupamos muito com isso. No auge, a gente gastava muito. Nós sempre fomos pobres. Não podíamos comprar nada. De repente, tínhamos acesso as coisas. Comprávamos tudo o que queríamos. Gastávamos com muita besteira. Também ajudamos muito os outros. Se alguém escrevia para a gente pedindo algo, a gente dava. Mandava dinheiro. E depois de todo o alvoroço com os problemas de empresário, ninguém ajudou a gente. Viraram as costas.

E como foi para você perceber que havia perdido tudo?
A gente ficou muito mal. Mas nunca pensou em se matar por causa disso. A gente sempre foi pobre. Ganhamos dinheiro e gostamos de ganhar dinheiro. Quem não gosta? Mas quando a gente perdeu tudo, não existiu aquele lance de ‘nossa, vou me matar’. O que sentíamos é que a gente gostava de cantar e olhava um monte de amigos cantando nos programas de TV e pensava: ‘Podia ser a gente ali. Nosso lugar é ali e não deste lado da TV, sentadas no sofá’. A tristeza era de ficar em casa e ninguém nos procurar. Ninguém vinha atrás. Foi quando percebemos que precisávamos fazer alguma coisa e nós mesmas começamos a ligar e a oferecer nossos shows.

E de onde vocês tiraram forças para recomeçar?
A força veio de nós duas mesmo. A Pepê me apoiou e eu apoiei a Pepê. Se não fosse por ela, já tinha desistido e ela sente exatamente o mesmo. Se não fosse por mim, também já teria largado de cantar. Quando ela começava a chorar, eu dizia: ‘Não fica assim, vamos conseguir vencer isso’. Eu, mesmo sabendo que a nossa situação estava ruim, sempre fui otimista. Via minha irmã chorando, mas nunca chorei perto dela porque sabia que se fizesse isso nós duas afundaríamos.

Em meio a esse turbilhão, vocês ainda perderam seu irmão, que era como um pai...
Foi um dos momentos mais tristes das nossas vidas. Meu irmão era funcionário da Light (empresa de energia elétrica do Rio de Janeiro) e uma tarde enquanto trabalhava em um poste foi eletrocutado. Nós não tínhamos dinheiro para nada, como íamos pagar o enterro? Começamos a ligar para os amigos nas emissoras de TV para pedir ajuda. Foi quando conhecemos a Angélica Capelete (hoje assessora da dupla) e ela nos estendeu a mão. Organizou uma campanha e conseguimos doações para o funeral. Graças a Deus.

Depois de um mês, veio uma ação de despejo. Vocês estavam sem pagar o aluguel...
Foi bravo. Mais uma vez, a Angélica nos ajudou. Gravamos uma reportagem especial para o Programa da Tarde, da Ana Hickmman, contando nossa trajetória. Um patrocinador do programa resolveu nos ajudar. Quitou nossa dívida que era de R$ 20 mil e nos doou roupas para que fazermos shows. A partir daí, ganhamos ânimo e estamos batalhando para recomeçar.

E como veio parar em Franca?
A Angélica é daqui e nos ajudou a assinar um contrato para um novo CD com a gravadora Lança Disk, de Ribeirão Preto. Vim para Franca dia 2 de janeiro visitar amigos e fazer um show (que aconteceu na última quinta-feira). Estamos gravando o novo CD que terá a participação de nossos amigos, como a Sandra Sá, a Xuxa, a Alcione e a Ivete Sangalo. Estamos animadas.

E em meio a essa animação, na última segunda-feira, você foi assaltada aqui em Franca. Como foi isso?
Estávamos indo para um churrasco. Marcamos de encontrar nosso carona em frente ao shopping. Como a casa onde estou com uns amigos fica do outro lado da rodovia, fomos pela passarela. Quando íamos atravessar, vi os três assaltantes. Estávamos eu e mais dois amigos. Percebi que seríamos assaltados e comecei a rogar a Deus. Ficava pensando e rezando mentalmente para que Deus não nos deixasse sozinhos. Não deu outra. Eles estavam armados e vieram para cima da gente. Mas na hora um rapaz estava passando e desconfiou de algo. Graças a Deus, tinha uma patrulha da polícia passando e ele avisou os policiais. Quando a polícia se aproximou, os ladrões mandaram a gente entregar relógios, joias e celulares. Não estava com nada de valor. Eles ainda atiraram duas vezes uma em mim e outra na minha amiga, mas o revólver ‘pipocou’ e eles saíram correndo, mas graças a Deus a polícia conseguiu prendê-los. Foi um enorme susto. Sinto como se tivesse nascido de novo. Para mim, essa tentativa de assalto é mais uma prova de que este ano vai ser bom. Poderia ter morrido, mas estou aqui. É um bom sinal.

E o que você espera para este ano que se inicia?
2014 para mim é o ano da esperança. É o ano para Pepê e Neném voltarem com força mesmo, sem precisar pisar em ninguém, tirar nada de ninguém. Com humildade e com força. Só espero coisas boas nesse ano.

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