Uma grande colcha, tecida com fios de lua e de sol e bordada em cristais de água doce e salgada; um extenso véu, suspenso entre tormentosos abismos e azuis “de brigadeiro”, assim foi o ano velho, assim será o novo ano, assim foram e serão todos os anos, sempre. Como diria o Poeta: “O ano passado não passou,/ continua incessantemente.”
O que nos leva, então, nos dezembros, a traçar novos planos, conceber novos sonhos, estabelecer novas rotas e metas? O que nos impele a idear outras colchas e véus, com os mesmos fios de lua e de sol, com os mesmos líquidos cristais, na tentativa de iniciar uma história a cada janeiro? O que nos move a perseguir outra(s) estrela(s), como se, a essa época, os ângulos e giros da Terra se alterassem; como se novas cartografias astrais, físicas e náuticas, surgissem, desenhando outros mapas (preferencialmente benfazejos) que influíssem diretamente em nosso tenso e frágil mundo de desesperos e esperanças?
O homem parece depender de marcos temporais restituidores de estabilidade, amuletos cronológicos de sobrevida em equilíbrio. A cada espaço da escalada, a pausa no abrigo, as congratulações, as revisões de alvos já estabelecidos, de roteiros já traçados, e então o reinício da jornada, na mesma trilha, sob o mesmo céu, com seus “sabidos tons de amanhecer,/ de sol pleno, de descambar”; os mesmos “gestos e falas”, os mesmos medos, as mesmas expectativas. “Uma vez mais se constrói/ a aérea casa da esperança”, à beira da vida e de seu desamparo. De novo “a flauta, sem nada mais que puro som/ envolverá o sonho da canção” em manhã tão incerta quanto muitas outras manhãs, abertas em carne viva ou submersas em frios véus.
Contudo, mesmo não acreditando que “por decreto da esperança/ a partir de janeiro as coisas mudem”, vale - sempre valerá - tentar reconstruir, a partir de cada janeiro (há que se escolher, afinal, um intervalo de tempo para isso), abrigos no espaço - tantas vezes monótono - desta escalada: marcos restauradores de vida; vale plantar neles canteiros de novas sementes (as “sementinhas do vir-a-ser”), regá-las com doses de otimismo, celebrá-las com champanha e despertá-las com espocares de mil luzes. Como disse a amiga Sônia Machiavelli em sua última aula de delícias, no Comércio, “cabe a nós nos apropriarmos dos dias, conferindo a eles nossa capacidade de resistir e criar”. Portanto, vale acordar o Ano Novo que em nós “cochila e espera desde sempre”.
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
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