O calvário enfrentado pela jovem Luara Prieto Ribeiro, de 25 anos, chegou ao fim na madrugada desta quinta-feira. Ela morreu no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) da Santa Casa de Franca. Luara sofria desde o dia 15 de dezembro com uma infecção urinária. Passou oito vezes por atendimento no Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”. Foi internada por duas vezes na Santa Casa de Franca, onde passou por duas cirurgias. Não resistiu. Para sua família, sua morte é o retrato do descaso no atendimento público de Saúde.
Silson Ribeiro, 49, pai da jovem, esteve ontem no Plantão Policial para registrar boletim de ocorrência por suspeita de erro médico. Ele contou à polícia que o drama de Luara começou em 15 de dezembro. Sentindo fortes dores abdominais, ela foi levada para o PS, onde passou por consulta e exame de urina, o qual identificou uma infecção no trato urinário. Foi medicada com antibióticos e analgésicos e liberada.
Apesar dos medicamentos, o estado de saúde de Luara não melhorou. Ainda com muitas dores, ela procurou novamente o PS no dia 20 de dezembro. Em sua página no Facebook, ela contou que o médico havia suspendido o uso de antibióticos. “Ele mandou ela parar com os remédios. Receitou água e um medicamento de gripe”, disse o pai.
Sem o antibiótico, a febre de Luara aumentou e as dores também. No dia seguinte, ela voltou ao PS. “Mais uma vez, a examinaram. Deram um analgésico e só.” Com a evolução do quadro de dor, Luara voltou ao PS pela quarta vez na noite do dia 23. Foi quando disseram que ela precisava ser internada. A jovem foi encaminhada para a Santa Casa. “Ela passou o Natal no hospital, mas não reclamou porque pelo menos as dores tinham diminuído”, disse o pai.
Três dias depois, apesar de Luara ainda reclamar de dores e apresentar febre, a Santa Casa deu alta à jovem e pediu que continuasse o tratamento em casa. “Ela não melhorava. Eles não explicavam por quê. Como podem mandar alguém ainda doente para casa?”, questiona Silson.
Em casa, as dores eram constantes. A barriga de Luara começou a inchar. Ela passou a ter vômitos. “Voltamos ao pronto-socorro no Ano Novo. Os médicos fizeram novos exames e ela foi novamente internada com um quadro grave de infecção.”
Na Santa Casa, a jovem foi atendida por cinco médicos diferentes sem que, segundo seu pai, um diagnóstico preciso fosse apresentado. Por fim, com um abcesso (espécie de ferida com pus) na região dos rins, os médicos resolveram fazer uma drenagem por videolaparoscopia. Mas a infecção só progredia. “No dia seguinte, resolveram abrir a barriga dela. A operação durou mais de sete horas e ninguém me dava informações.”
Ao deixar o centro cirúrgico, Luara sofreu uma parada cardíaca. Ficou dois minutos desacordada e precisou ser ressuscitada. “Foi direto para o CTI. A partir daí, só piorou. Eles ainda queriam operá-la novamente. Mas ela acabou falecendo”, contou o pai.
Luara não tinha histórico de problemas de saúde. Segundo a família e os amigos, era uma mulher saudável e não tinha o hábito de beber ou fumar. “Minha filha era linda. O que aconteceu não tem explicação.” Para o pai, houve erro médico. “Estou revoltadíssimo.”
Por conta da queixa na polícia, o corpo de Luara foi levado para o Serviço de Verificação de Óbito, onde passou por exame necrológico. Seu enterro aconteceu no início da noite de ontem, cercado de emoção e revolta.
Investigação
A secretária municipal de Saúde, Rosane Moscardini, disse ontem que deve apurar as circunstâncias em que a morte de Luara aconteceu. Para isso, determinou a abertura de uma sindicância. Também solicitou a abertura de investigação por parte do Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) e da Comissão de Ética Médica da Santa Casa.
Na tarde de ontem, a secretária disse que não faltou atendimento à paciente. “Todas as vezes em que ela precisou, foi atendida. Agora vamos estudar se as decisões e medidas adotadas no seu tratamento foram as mais adequadas ou se houve equívocos.”
Todos os envolvidos devem ser convocados a prestar depoimentos. Os prontuários de Luara também passarão por revisão. “Uma jovem de 25 anos morreu e precisamos encontrar respostas. Ainda é cedo para emitirmos qualquer juízo, mas vamos apurar cada conduta”, disse Rosane. A expectativa é que os trabalhos de investigação estejam concluídos em 30 dias.
A Santa Casa de Franca não comentou detalhes sobre o atendimento. Por nota, informou apenas que está apurando o que houve. Esta não é a primeira vez que o hospital deixa de se pronunciar em casos de suspeita de erros médicos ou problemas no atendimento prestado. Só de outubro do ano passado para cá, já são cinco os casos em que o hospital preferiu o silêncio a dar explicações.
colaborou Marco Silva, repórter da rádio Difusora
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