Já tínhamos experimentado a soupe aux truffes noires no restaurante de Paul Bocuse, em Lion: um caldo de sabor intenso, em pequeno bowl coberto por capa de massa folhada crocante, que perfuramos com colher para libertar o perfume das trufas. Havíamos degustado ostras em Cancale, cidadezinha da Normandia famosa por oferecer as melhores do mundo: numeradas de 0 a 10, e expostas à frente dos restaurantes em arranjos artísticos, junto a outros frutos do mar, constituíam um desafio ao paladar dos apreciadores. Ainda trazíamos na memória os antepastos do Jamie Oliver em Londres, a incrível pizza do Monicello em Firenze e as doçuras sofisticadas da Fauchon em Paris, quando chegamos em Veneza e procuramos pelo Harry’s Bar, na San Marco, 1323. Queríamos encerrar nossa viagem tomando um Bellini no seu lugar de criação.
O coquetel que conferiu fama ao restaurante, junto a frequentadores célebres como Ernest Hemingway, Charles Chaplin, Arturo Toscanini, Wiston Churchill, Pablo Picasso, Truman Capote e outros, foi invenção de Giuseppe Cipriani, bartender e fundador do que se tornaria um império formado pelos Harry’s Bar de Londres, Hong Kong, Nova York, Los Angeles, Miami e Las Vegas. Também por muitos outros endereços de hotéis, restaurantes, resorts e serviços de eventos ao redor do mundo.
A matriz veneziana conserva o mesmo espaço térreo inaugurado em 1931: são apenas 54 m². Mas cresceu para cima, ganhando um andar de onde se divisa belo ângulo de Veneza. Foi ali que nos sentamos- meus filhos, as noras, o neto e eu. Cinco Bellinis e um suco de laranja também servido na flutte, para não desagradar João - pedimos.
Por que Bellini? Há até hoje alguma controvérsia na resposta. Veneza tem dois Bellinis, célebres pintores renascentistas. Jacopo (1400-1470) e Giovanni (1436-1516). Pai e filho, mestre e aluno, uma linda história de aprendizagem com inovação. Os venezianos amam igualmente os dois. Mas os críticos conferem mais importância ao filho. Giovani foi precursor das técnicas de pintura a óleo, abandonando cedo a têmpera. E foi essa mudança que lhe possibilitou explorar a luz e criar transparências em sua obra, tornada referência para outros nomes importantes da pintura italiana que passaram por sua oficina. Entre tantos, o grande Ticiano. É essa luminosidade do coquetel, muito provavelmente, que influenciou Cipriani na escolha do nome para uma mistura simples, que deu muito certo. Apenas prosecco e purê de pêssegos, mais nada, embora alguns acrescentem açúcar quando a fruta não está bem doce. Como pêssegos frescos só havia no verão, a bebida ficou refém da estação. Com o passar do tempo, outros bares fizeram adaptação usando suco ou pêssego em calda em outras estações. O resultado fica comprometido.
Mas porque em dezembro há pêssegos maduros por toda parte aqui no Brasil, lembrei-me hoje de sugerir o coquetel para saudar 2014. O ano termina, Réveillon bate à porta, celebrar a virada é coisa boa. Escolha pêssegos maduros, gele um prosecco e prepare para os seus este coquetel delicioso e lindo. Rale as frutas pra obter um purê, conforme ensinou Cipriani. Passe por peneira. Coloque o suco obtido nas taças e complete com o espumante bem gelado. Deguste sem moderação, saudando o ano que vai nascer.
INGREDIENTES
6 pêssegos maduros
1 garrafa de prosecco
Obs- A receita original estabelece ¾ oz de suco de pêssego e 3 oz de espumante; oz é medida anglo-saxã e equivale a 30 ml. Fiz a adaptação para nossa realidade.
porção: 6 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.