Certamente um dos livros mais bem produzidos da gastronomia nacional teve seu lançamento feito também na nossa cidade. O Senac, local do evento, se vestiu de festa para receber nossa ilustre conterrânea Ana Luiza Trajano que, feliz, dedicava para nós o seu Cardápios do Brasil. Um belo livro com fotos do competentíssimo fotógrafo Alexandre Schneider, escrito por Gabriela Erbetta - velha conhecida no mundo editorial das revistas, além de ser autora da coleção de 101 coisas que devemos fazer antes de morrer. Some-se a isso o dificílimo trabalho empreendido por Ana Christina Leite, a responsável pela pesquisa e entrevistas com alguns personagens em cada canto desse imenso Brasil. A pretensão do livro, conforme seu título revela, é: mostrar, divulgar, exemplos de cardápios do povo brasileiro - que é tão diverso, quase outro povo, seja de norte a sul, de leste a oeste. Tarefa árdua.
Por isso, a chef optou por pinçar alguns exemplos que revelem o “terroir” de cada região. Para nossa região, caipira por excelência, Ana Luiza escolheu a galinha caipira, uma paixão que merece ser celebrada, não apenas por seu sabor, mas por todas as questões ecológicas envolvidas. A receita traz duas novidades, o uso do óleo de urucum, onde se deverá dourar o frango e a cachaça como ingrediente do caldo, que deverá ser evaporada como se fosse vinho.
O óleo de urucum pode ser comprado pronto, mas pode ser feito em casa. A própria Ana Luiza dá a receita: é só torrar a sementes de urucum num azeite, depois bater no liquidificador e depois se côa. Por aqui, penso que o uso do colorau foi mais comum. Minha mãe o utilizava nas carnes brancas, mas nunca soube se por ela própria ou por influência de meu pai, nordestino.
Outra receita, bacana para nós francanos, é uma sobremesa que leva suspiro, caqui e creme de cachaça. Deve-se fazê-la quando for tempo de caqui! Sem angústia. Deve-se escolher a fruta certa, madura, porém firme. Ana Luiza ensina a caramelizar os gomos de caqui no melado de cana, rapidamente numa frigideira anti-aderente. Ela também ensina a fazer os suspiros, ótimo para quem tem talento para a coisa, quem não, por isso a receita é bacana para nós, pode adquirir por aqui, na padaria Pão Nosso, um dos melhores suspiros do País, palavra de honra, e pode ser encomendado em tamanho grande, servindo de cama para os gomos de caqui. Ana Luiza manda regar tudo com um creme de cachaça.
A chef Ana Luiza, no dia de seu lançamento, estava rodeada por fotógrafos, filmadores. Sorridente e orgulhosa de seu belo trabalho, bonita e arrumada não lembrava a chef de cozinha que é. Fiquei a procurar nela algo que a denunciasse - de longe, nada, apenas saltos altos, cabelo e maquiagem de festa. Mas quando cheguei perto não tive dúvidas: as unhas por fazer, cutículas, e a ausência “milenar” de qualquer esmalte pareciam mostrar que o dólmã é a sua roupa de guerra, as túnicas de festas são para as pequenas tréguas da vida.
DICA DA SEMANA
Cenoura
Muitas vezes percebo um retrogosto desagradável quando cozinhamos uma cenoura que não seja exatamente novinha. Isso acontece com frequência quando fazemos um bife a role, por exemplo.
Para que isso não aconteça é só retirar o miolo dela. Isso mesmo! Parta-a ao meio longitudinalmente e você perceberá uma divisão de cores. O gosto forte vem desse miolo. Com uma faquinha vá cutucando a lateral até retirar esse miolo. Algumas vezes há até uma coloração meio verde nesse miolo. O que sobra tem sabor suave e só de cenoura. É bem melhor.
Quando as cenouras são mais novas esse miolo não sai porque não se desenvolveu ainda, não é bem definido, diferente das mais velhas.
Fica ainda a dica das cenouras orgânicas. Elas, que são menores, não têm o miolo com esse gosto - forte, jamais. Não é preciso retirá-lo.
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