Um talento e uma missão: retocar as obras de Candido Portinari


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A especialista em restauração de obras de arte, Florence Maria White de Vera, se instalou em Batatais com ateliê montado na igreja para a importante tarefa de restaurar obras sacras do pintor. Trabalhos irão até setembro de 2014
A especialista em restauração de obras de arte, Florence Maria White de Vera, se instalou em Batatais com ateliê montado na igreja para a importante tarefa de restaurar obras sacras do pintor. Trabalhos irão até setembro de 2014

Ela tem talento, conhecimento histórico e know how para criar, mas a sua energia e o trabalho estão voltados para uma missão bem especial: manter vivas obras de outro artista, o pintor Candido Portinari, instaladas na igreja Matriz do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, em Batatais. Caberá à paulistana Florence Maria White de Vera, 68, especialista em restauração de obras de arte, a tarefa de reparar os estragos causados por insetos e infiltrações nas obras de um dos maiores artistas brasileiros.

Dona do ateliê De Vera Artes, um dos mais desenvolvidos do País na arte da restauração, Florence tem no currículo a recuperação de outras obras de Portinari, foi restauradora do MAC (Museu de Arte Contemporânea) da USP (Universidade de São Paulo) e registrou seu talento em mais de 600 imagens sacras no Museu Pierre Chalita em Maceió (AL). Além de museus, sua arte está em acervos particulares, órgãos governamentais e igrejas. Já passaram por suas mãos obras dos mais importantes artistas do mundo, como Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral e Pablo Picasso.

Até setembro do próximo ano, um ateliê montado em um salão no segundo piso da igreja será o seu endereço profissional pelo menos 15 dias por mês. Dois caminhões de ferramentas e equipamentos já foram descarregados no local. “Tudo foi montado aqui especialmente para as dimensões da obra. Cavaletes, escadas, compressores, tudo.”

A estrutura toda é para deixar com aparência de intactas as obras de Portinari. O conjunto, instalado entre 1953 e 1955, inclui 28 telas - 14 delas retratando as estações da Via Sacra. A igreja Matriz é especialmente conhecida por abrigar as obras do artista e o acervo do local foi, em parte, responsável pela transformação da cidade em Estância Turística, em 1994. Até que o trabalho de restauro começasse de fato, foram cinco anos de discussões entre a igreja e o poder público e duas ações das Promotorias do Estado e da União.

A Justiça determinou providências do poder público, a Prefeitura de Batatais viabilizou a verba de R$ 374 mil junto ao governo do Estado e o imbróglio chegou ao fim.

Com isso, as cinco primeiras telas que passarão pelo restauro - as que formam o painel “Jesus e os apóstolos” que adorna o altar- mor - já estão sobre a bancada de trabalho de Florence desde o início deste mês.

Ela e três auxiliares trabalharão com portas abertas e os interessados em ver o processo de restauração podem agendar visitas para terças e quintas-feiras, das 14 às 16 horas, ou quartas e sextas, das 9 às 11 horas. O telefone da igreja é o (16) 3761-2489.

Qual a sua formação e a trajetória até se tornar restauradora de obras de arte?
Meu primeiro curso universitário foi história. Durante muitos anos dei aulas de história. Quando surgiu o primeiro curso de restauração em São Paulo, em 1983, o fiz. Era muito dedicada à história da arte, e a restauração me cativou. Logo comecei a trabalhar nessa área. Depois fiz um concurso e fui trabalhar no MAC (Museu de Arte Contemporânea), me aposentei por tempo de serviço e passei a me dedicar exclusivamente à restauração.

Quais as principais obras que já passaram por restauro em suas mãos?
Muitas obras, obras antigas, algumas até da época do Renascimento, obras de artistas brasileiros importantes. Podemos citar todos, porque trabalhando no MAC o acervo é enorme. Depois que me aposentei mantenho um ateliê que atende instituições, museus, clientes particulares. Para citar alguns: Candido Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, (José) Pancetti, (Alberto da Veiga) Guignard, Pablo Picasso - muitos passaram pelo nosso ateliê.

E você tem admiração especial por algum deles?
Gosto de diferentes artistas brasileiros e estrangeiros, mas não tenho um preferido. Gosto muito de pintura naif, dos mais diferentes estilos, obras contemporâneas, obras mais clássicas, obras cusquenhas, é uma variedade muito grande de pinturas.

Qual o maior prazer de lidar com obras de arte de valor muitas vezes incalculável, exercendo seu talento, mas de forma adaptada a um estilo pré-definido?
Quando a obra chega às minhas mãos é porque sofreu dano e a restauração vai interferir diretamente na matéria da obra. Então, a satisfação maior é poder recuperar o que está danificado e fazer com que essa obra tenha uma prolongação de vida.

Falando especificamente de Candido Portinari, o que mais a encanta ou chama a atenção nas obras deles?
Portinari é um pintor brasileiro de primeiríssima linha. Os temas que ele aborda são magníficos. Ele pintou o povo brasileiro, pintou a paisagem brasileira. O encantamento é também pela técnica do artista, a pintura dele é extremamente valorizada pelo mérito que tem de ser um pintor que expressa tão bem a nossa gente, paisagens, nossas cores.

O que há de especial nas obras expostas em Batatais?
De especial e inconfundível é o fato de ele ter um conjunto de pinturas monumental religiosas. Foram feitas especificamente para essa igreja, todas com temas religiosos, uma via sacra inteira, completa, e isso é o que caracteriza este conjunto de obras. Já li muita coisa a respeito, mas a informação que tenho - mas não assino embaixo - é que é o maior conjunto de obras sacras dele. Esta é a grande característica das pinturas que estão aqui.

Quais os principais cuidados que se deve ter para não alterar as características originais de obras tão raras?
A restauração tem como norma que todos os procedimentos, metodologias e técnicas empregadas sejam reversíveis. Em segundo lugar, temos materiais específicos para esta finalidade. Procuramos trabalhar com os melhores materiais disponíveis e buscamos nos atualizar sempre com relação ao que existe de materiais e metodologias de trabalho. Cada obra vai exigir um tipo de interferência, não há um procedimento padrão para todas. Cada uma tem as suas características e as suas necessidades e, dentro do nosso conhecimento, vamos interferindo de forma extremamente particular para não descaracterizar o artista. Quando se faz uma restauração, em primeiríssimo lugar tem que pensar sempre em manter o original da obra na integridade. Ou seja, limpeza não pode afetar a pintura, os adesivos aplicados não podem interferir no brilho, enfim, uma série de cuidados.

Fala-se tanto no “azul-Portinari” e outras cores quase exclusivas. Quando há reparos nestes pontos especiais, como se chega ao tom?
Não podemos usar o mesmo material que o artista usou. Então, mesmo que ele tenha pintado com tinta óleo, não vou poder usar a tinta que ele usou, o tipo de tinta que ele usou. Os nossos materiais são pigmentos que diluímos em resinas e, com estudo de cor, vamos chegar o mais próximo possível do tom que ele usou para preencher a lacuna quando necessário. O azul-Portinari é bem citado, ele é muito cuidadoso nos azuis que usa. Mas nós temos uma gama de pigmentos que você vai adequando até chegar o mais próximo possível do tom dele para que a obra restaurada não fique em desarmonia. Tudo o que fizer, em algum momento, se for necessário, tem que ser reversível, tem que ser tirado com facilidade para não interferir na cor original. Dentre os materiais que usamos temos pigmentos, que têm que ser de boa qualidade, estáveis. São materiais importados, não temos este tipo de pigmentos tão exigentes no País. Importamos as resinas que nós misturamos também. Preparamos a paleta de cor para aplicar no local que for necessário.

O que é mais complexo de se restaurar, os estragos feitos por cupins ou as infiltrações?
O altar-mor, por exemplo, estava em uma altura que nós havíamos olhado bem pela frente e pelo verso, mas não tínhamos pegado na matéria quando projetamos a restauração. Também sabíamos e já tínhamos detectado a presença de cupins na Sagrada Família. Mas a intensidade de cada problema ocorrido só podemos ver com a obra na mão. Nestes que já estão aqui conosco (telas do conjunto Jesus e os apóstolos) não há escorridos de umidade, mas em outros existe. Embora o conjunto esteja todo dentro da mesma igreja, são problemas diferentes que atacam cada obra. Ambos os problemas são sérios e pode ter certeza que alguns são bem mais complicados. A infiltração pode rebaixar a intensidade da cor. São manchas visíveis a olho nu, e temos que recuperar a cor. Quando o ataque é de cupim, você tem que fazer os remendos ou reforços de bordas.

Qual o plano dos trabalhos?
Vamos ficar aqui até setembro de 2014. Foram várias instâncias para planejar todo esse trabalho. Tivemos que apresentar um cronograma já descrevendo quais são as obras a serem tratadas em cada bloco. Começamos com cinco e elas só vão voltar para o lugar (altar-mor) no final de janeiro.

Como vai funcionar o “ateliê de portas abertas”. As visitas não atrapalham o andamento dos trabalhos?
Fazemos questão de mostrar o nosso trabalho e que a população seja informada a respeito do andamento disso. É importante para a gente que acompanhem. É importante para a cidade acompanhar. Estabelecemos horários. Vai haver um agendamento feito pela própria igreja e nós seremos informados quando vierem as pessoas. Vamos limitar o espaço de circulação, estamos preparando um material no power point para ir passando e vamos mostrar o que está em andamento no momento.

Você já conhecia a cidade e as obras. É possível fazer uma avaliação da importância delas para a comunidade local?
É de fundamental importância a presença de um conjunto de obras tão grande aqui, para a igreja, para a Prefeitura, para os habitantes. É interessante que venham pesquisadores e visitantes de fora, pois é um conjunto magnífico de grandiosíssima importância, sem dúvida.

É possível apontar um valor estimado das obras de Portinari instaladas na Matriz?
Já escutei tantos valores. Como o valor da obra não interfere no orçamento da restauração, não lidamos com eles. Avaliamos o que vamos gastar de material e o tempo necessário para o trabalho. Não procuramos saber o valor das obras, mas já escutei tudo, qualquer coisa (risos). Como são obras que estão dentro da igreja e não saem daqui, esse valor só seria calculado no caso de uma seguradora ter que levá-las para outro local. Não sei, é muito e não dá para calcular.

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