Natal, Réveillon e ela a pensar, primeiro em Deus no coração de todas as pessoas. Depois sim; festas, alegria e a espera de dias mais felizes. Foi então que se lembrou de que naquele final de ano ela estava só e nem sabia o porquê; mas não chorou.
Chegou a imaginar a ceia de Natal com a mesa toda enfeitada e rodeada por pessoas queridas: o pai, a mãe, amigos, parecendo até sentir o cheiro gostoso da leitoa em pururuca, o feijão tropeiro, o frango assado, a maionese, a salada de alface, rúcula e tomatão. A sobremesa de dar água na boca: pudim de pão, paçoquinha, rapadura de cidra, goiabada com queijo, uva roxinha, uma delícia! As lembrancinhas, oferecidas com carinho. E nem naquele momento se sentiu só e até um pedaço de panetone dividiu com o Menino Jesus, enquanto ali de joelhos ao pé do singelo presépio rezou e não chorou. Ouviu sim, o repicar do sino chamando para a Missa do Galo, mas cansada dormiu e nem ouviu o galo cantar.
Uma semana depois, o Réveillon, um novo ano que nascia. Pensou na festa bonita, roupa nova, confraternização e ela ainda só, mas não chorou. Frente à televisão assistiu ao show da virada, com queima de fogos, luzes, samba, rock, pagode e pagodeiros. Até riu e dançou, compartilhando alegria com toda aquela gente distante.
Mas foi entre um cochilo e outro que viu o relógio na parede marcando as quatro horas daquele novo dia. Desligou a TV, lavou o rosto e na cozinha preparou o café. Outra fatia de panetone ela dividiu com São Benedito em sua imagem morena, sempre ali presente no cantinho da janela. Como em todas as manhãs, conversou com o santinho:
- Querido amigo e protetor, aqui o seu cafezinho e sua fatia de panetone, com os votos de um feliz Ano Novo para você, para mim e para toda a gente do mundo.
Nem uma vez ela chorou, mas jura que ouviu São Benedito responder “Amém”.
Farisa Moherdaui, professora
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