O grupo Cruzeiro do Sul justifica a demissão de 189 funcionários da Unifran (Universidade de Franca) como uma mera integração de operações, mas o fato é que a decisão deixou marcas profundas. Os funcionários afirmaram que não foram informados previamente sobre a dispensa. Para os que tem longos anos de serviços prestados à instituição, o peso da demissão foi ainda maior. Eles se dizem indignados.
Um deles é o ex-diretor de publicações da Unifran, o professor Everton de Paula, que tem 39 anos de casa. “Às 10h30 de terça-feira, dia 10, me reuni com a reitora (Ester Regina Vitale), que me disse que estava me dispensando naquele momento. Ela me pediu para assinar um documento, intitulado “aviso prévio do empregador”. Mas não se tratava de um aviso prévio, porque perguntei se eu tinha 30 dias (de trabalho para cumprir), e ela disse que eu estava demitido ‘a partir de já’”, disse Everton.
Mas, para o professor, esse não foi o fim da história: ao voltar à sua sala para retirar documentos pessoais de seu computador, percebeu que o equipamento estava bloqueado. Ele também alega que não pôde acionar o setor de TI, pois o seu telefone não funcionava mais. “Já passei da idade de sentir raiva e, no lugar dela, fica a indignação, porque não me foi passado o critério (da demissão), não só da minha, mas a de meus companheiros. A Cruzeiro do Sul desrespeitou de uma forma profunda 39 anos de casa. Por todo esse serviço, eles me deram uma cesta de Natal e uma caneta.”
Segundo Everton, o setor de publicações foi desmantelado, o que vai impedir a publicação tanto de trabalhos da própria Unifran quanto de outros de fora. “Pressuponho, mas sem provas, que o ensino vai perder qualidade, e que (a Cruzeiro do Sul) é instituição muito mais comercial do que educacional. A prioridade é comércio, é lucro. No entanto, desejo à Cruzeiro do Sul sucesso no futuro, para o bem do ensino superior de Franca e região.” Everton fez questão de deixar expresso o seu agradecimento aos ex-mantenedores da Unifran, na pessoa do chanceler Clóvis Ludovice. “Tenho a certeza de sair da universidade com um histórico de construção do conhecimento no ensino, na pesquisa e na extensão”.
A ex-supervisora de Iniciação Científica da Unifran, Maria Teresa Segantin Ludovice, que é mulher do chanceler da Unifran, Clóvis Ludovice, trabalhava na universidade há 12 anos e também entrou na lista dos quase 200 demitidos. Ela também está indignada. “Fomos tratados como bandidos, porque você é colocado em uma sala, te entregam um papel e você está dispensado”, disse (leia entrevista nesta página).
Conformadas
Há, também, entre os demitidos, quem encare a situação de maneira mais positiva. A secretária-geral acadêmica Ana Rita de Andrade Pucci, por exemplo, trabalhou na Unifran por quase 31 anos e prefere pensar que o seu ciclo de trabalho terminou. “Saio com o sentimento de dever cumprido. Agora, é uma nova etapa que se abre para outras pessoas, com outras ideias e objetivos”, disse.
Mais de três décadas também foi o tempo em que Maria Aparecida Encinas, a dona Nininha, passou trabalhando para a Unifran como copeira e, nos últimos quatro anos, como auxiliar de cozinha do curso de gastronomia. “Estou sentindo muito (a demissão), fiquei em choque na hora, mas chegou um ponto que a gente precisa se conformar”, disse. Agora, aos 73 anos, dona Nininha que quer se dedicar a passeios e disse que, também, vai cuidar dos netos.
Calados
O grupo Cruzeiro do Sul pouco falou sobre as demissões e sempre por meio da assessoria de imprensa. Em nota oficial divulgada na última terça-feira, 10, afirmou que, a partir de janeiro do ano que vem, vai integrar as operações das áreas técnico-administrativas e de educação a distância da Unifran às outras universidades do grupo. Com isso, 189 profissionais - 100 funcionários técnico-administrativos e 89 tutores de ensino a distância - foram demitidos.
Novamente questionada se as demissões e fechamentos dos setores poderão atrapalhar a rotina da Unifran, a assessoria da Cruzeiro foi sucinta - disse apenas que “os alunos não serão prejudicados”.
A reportagem do Comércio tentou ouvir diretores e a reitora da Unifran, Ester Regina Vitale, mas foi orientada a contatar a assessoria de imprensa, que afirmou que o grupo só iria se comunicar por meio da nota à imprensa já enviada anteriormente. Em entrevista ao jornal em junho deste ano, o diretor da Cruzeiro do Sul, Fábio Ferreira Figueiredo, afirmou que o grupo não pretendia fazer demissões “a curto e médio prazo”. “Isso nem seria lógico. Não há razão para mudanças radicais”, disse o diretor na ocasião. A reportagem tentou entrar contato com Fábio (via assessoria), mas ele não quis se pronunciar.
Sindicato
A tesoureira do Sintee (Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino e Educação de Franca), Regina Fernandes, explicou que já estava dialogando com a Cruzeiro do Sul desde setembro deste ano. “Os funcionários sabiam (da demissão), não oficialmente, mas eles esperavam a reestruturação. As demissões foram de caráter técnico, não pessoal”, disse.
Regina acrescentou que todas as verbas rescisórias (como férias e indenizações) deverão ser depositadas na próxima quinta-feira, 19. As homologações das rescisões acontecem entre os dias 8 a 10 de janeiro.
Ela informou ainda que o número de dispensas gira em torno de 200 pessoas, sendo que dez delas são do Colégio Alto Padrão, também uma propriedade do grupo Cruzeiro do Sul. “Colocamos à disposição nosso departamento jurídico para toda e qualquer situação que a pessoa quiser reclamar”, disse a tesoureira.
Compra
A compra da Unifran pelo Grupo Cruzeiro do Sul foi anunciada em maio e a instituição assumiu a universidade em junho. Especula-se que a negociação, que durou três anos, tenha girado em torno de R$ 120 milhões.
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