Todo mundo conhece berinjela. Quase todo mundo tropeça na hora de escrever. É com j? É com g? Poderia ser um alívio saber que as duas formas existem na língua portuguesa, se não houvesse certas sutilezas entre o português de Portugal e o do Brasil. Então, aqui é com jota. Lá é com ge. Por muito tempo seguimos nossos colonizadores e nas cartilhas pré-diluvianas a letra “g” era ilustrada com o fruto, para a criança fazer a associação entre forma e fundo. Mário de Andrade, debochado que só ele, chegou até a criar polêmica defendendo o uso do “j”. Foi então que os filólogos entraram em ação a fim de colocar os pingos nos is e definir a questão de uma vez por todas. Aprofundaram-se nos estudos ao fim dos quais se definiram pelo jota em razão de que normalmente se escreve com esta letra os nomes de origem africana, tupi e árabe, como jiló, jiboia e... berinjela! Também pela óbvia razão de que ela nasceu persa e com j- badndjan. Apropriada com sotaque pelos muçulmanos- badinjâna, foi levada para a Península Ibérica onde no espanhol virou berenjena. Olhem aí o jota, viajando nesta história que revela tanto sobre as palavras e os povos. Se os portugueses querem continuar escrevendo com g, que fiquem na deles.
E não é curioso que a berinjela receba o nome de eierfrucht em alemão e eggplant em inglês, significando a mesma coisa em ambas as línguas, ou seja, “fruto em forma de ovo”? Onde o ovo? Acontece que entre a grande variedade de berinjelas existentes no mundo, há aquelas de forma oval e cor esbranquiçada, que foram exatamente as que chegaram primeiro aos povos anglo-germânicos. Eles olharam, compararam, nomearam. Assim se desenrola o processo, muitas vezes. Não importa se na Ásia o legume-fruto se chamasse badndjan, o que fez sentido para outros povos foi o design associado à cor. Só mais uma, que não resisto. As berinjelas pertencem à família botânica das solanáceas, que é a mesma do tomate, do pimentão, de algumas pimentas. Pois solanáceas, em alemão, se diz nachtschattengewachse, que trocando em miúdos significa “plantas que crescem na sombra da noite”. Tão poética a língua de Goethe! Sobre tomates e pimentas nada posso testemunhar, mas a respeito de berinjelas devo dizer que já as cultivei quando meus filhos eram pequenos. E posso garantir que elas crescem mesmo é durante a noite.
Vamos às berinjelas recheadas, que encontrei num livro de culinária espanhola onde são conhecidas como berenjenas rellenas. Escolha as de tamanho grande e que estejam firmes. Corte ao meio, no sentido do comprimento, fazendo pequenas incisões com a ponta de uma faca sobre a polpa. Leve a assar em forma levemente untada por vinte minutos, com a casca voltada para cima. Teste com garfo para ver se estão macias e retire do forno. Espere amornar e retire a polpa, mantendo o formato de barco.
Refogue no azeite a cebola e o tomate, junte a carne, cozinhe por vinte minutos e depois acrescente azeitona e salsa. Mexa bem, junte a polpa da berinjela, volte a mexer e salgue. Recheie as cascas. Bata o ovo, misture o creme de leite e apimente. Despeje este molho sobre a carne. Rale pão torrado, refogue no azeite, misture o parmesão: esta é a molicca que será salpicada sobre as berinjelas antes que sejam levadas ao forno para gratinar
Ingredientes
3 colheres (sopa) de azeite
3 berinjelas grandes
1 xícara (chá) de cebola picada
1 xícara (chá) de tomates picados
½ quilo de carne magra moída
½ xícara (chá) de salsa
½ xícara (chá) de azeitonas verdes
1 xícara (chá) de creme de leite
1 ovo
Sal e pimenta a gosto
Para a molicca
3 pães franceses torrados e ralados
3 colheres (sopa) de azeite
1 xícara de parmesão ralado
porção: 6
dificuldade: média
preço: ecônomica
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.