Dom Beloto: ‘Acolhi a decisão da Igreja com alegria e generosidade’


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Posse do quarto bispo da Diocese de Franca, que abrange 600 mil habitantes, será na manhã deste domingo, na Catedral. Dom Paulo Roberto Beloto foi nomeado em outubro pelo papa Francisco
Posse do quarto bispo da Diocese de Franca, que abrange 600 mil habitantes, será na manhã deste domingo, na Catedral. Dom Paulo Roberto Beloto foi nomeado em outubro pelo papa Francisco

Ele aprendeu a rezar o rosário com a família, ainda criança. Aos dez anos fez a primeira comunhão e pouco tempo depois recebeu o sacramento do crisma. Onze anos mais tarde, entrou para o seminário em Aparecida (SP) e, aos 29 anos, o agora Dom Paulo Roberto Beloto já era padre em Tupi Paulista.

De família de origem simples, antes do sacerdócio, trabalhou na colheita do café, foi marceneiro e escriturário e não imaginava que um dia chegaria a ocupar a cadeira de bispo da Diocese de Franca, que abrange 19 municípios e uma população de 600 mil habitantes.

Com 56 anos completados em abril, Dom Paulo, como prefere ser chamado, assume neste domingo, dia 15, o comando da diocese após um ano de Sé Vacante, desde que Dom Pedro Luiz Stringhini foi transferido para a Diocese de Mogi das Cruzes. A posse será às 9 horas na Catedral Nossa Senhora da Conceição. Ele será o quarto bispo desde a criação da Diocese de Franca em 1971 e quer, com suas particularidades, dar sequência ao trabalho iniciado por seus antecessores.

Paulista de Adamantina, Dom Paulo vem transferido da Diocese de Formosa, em Goiás, onde permaneceu por quase oito anos, e manifestou o desejo de conhecer aos poucos cada paróquia, comunidade e movimento da Igreja de Franca. “Procurarei acolher o que encontrar.”

Nesta entrevista exclusiva ao Comércio, Dom Paulo declarou que não aprova o casamento gay e disse que casos de padres que comentem abusos sexuais devem ser corrigidos. Conheça abaixo um pouco do novo bispo de Franca e como será sua chegada.

O senhor foi padre por 20 anos até ser nomeado bispo de Formosa (GO). Imaginava um dia que isso aconteceria?
Ao ser nomeado bispo da Diocese de Formosa, exercia a função de diretor espiritual no Instituto Teológico Rainha dos Apóstolos e era vigário paroquial na Paróquia Santa Rita, em Marília. Os dois anos como diretor espiritual foram excelentes, pois me possibilitaram uma vida espiritual e de oração mais intensa. Estava bem como padre, por que pensar em ser bispo? A nomeação como bispo foi uma reviravolta em minha vida. Aos poucos, a gente se acostuma com o cargo. É bom dizer que estou em paz e feliz nesse ministério. Mas no começo foi um desafio. Digo até que foi mais difícil me acostumar a ser bispo do que me adaptar em Formosa, pois fui bem acolhido pelo povo da diocese.

Como foi a mudança do interior do Estado de São Paulo para o Estado de Goiás?
Como disse, não demorei para me adaptar. É claro, há cruzes. Jesus não nos ilude quando nos chama: é preciso tomar a cruz a cada dia. Mas quantas graças recebi estando em Formosa, além de ter realizado inúmeros trabalhos. Destaco: as visitas pastorais em todas as paróquias; as celebrações de crismas e festas dos padroeiros e festa do Divino Espírito Santo, tradição forte em Goiás; a ordenação de 17 padres; a criação de seis paróquias; o acompanhamento à catequese; a criação da Pastoral Carcerária; a realização de encontros com os presbíteros; a implantação do Plano Diocesano de Pastoral; a construção de nova sede da Cúria; a implantação do curso de Teologia para leigos; a elaboração de alguns subsídios pastorais; a fundação de uma experiência monástica, de caráter diocesano; a criação do Setor Juventude; a celebração dos 30 anos de criação da diocese e a abertura de uma comunidade religiosa feminina. É claro, todas essas realizações não seriam possíveis sem a participação dos padres, religiosas e lideranças.

Qual o principal desafio em deixar uma diocese após quase oito anos de trabalho?
Somos humanos e temos sentimentos, graças a Deus. Por isso, criamos vínculos, amizades verdadeiras, compromissos. É normal muitos ficarem tristes com a perda. Superar essa experiência é um desafio para quem sai e para quem fica. Tenho rezado, repetindo muitas vezes “que nenhum bem eu posso achar fora de Deus”. Basta a sua graça. Aqui está o meu consolo e que procuro partilhar com as pessoas. Por isso, acolhi a decisão da Igreja com alegria e generosidade. Quero viver a liberdade dos filhos de Deus.

É verdade que o senhor tentou evitar a transferência? Por quê?
Não tentei evitar a transferência, mas disse que não seria o momento oportuno uma possível transferência, deixando novamente a sede vacante. A vacância anterior foi um pouco longa. A Igreja é conduzida pelo Espírito e acredito nas suas decisões e discernimento. Por isso me coloquei em obediência e à disposição. E não me arrependo. Estou vindo com alegria e generosidade.

O que espera encontrar na Diocese de Franca? Quais as diferenças que o senhor vê entre as duas dioceses?
O que encontrar, procurarei acolher. Não crio expectativas. Também não é bom comparar. Acolho o que o Senhor e a Igreja me colocaram sob o meu governo, com alegria e generosidade. Fui bispo em Formosa, como outros bispos de nossa Igreja. Não há destaque, nem procuro prestígios. A Diocese de Formosa tem ainda um caráter missionário, devido às distâncias. Muitas paróquias ficam há mais de 200 quilômetros da sede. A mais distante está há 370 quilômetros.

Na Diocese de Franca há muitas comunidades e movimentos e um trabalho forte com a juventude. Que tipo de trabalho o bispo pretende desenvolver na diocese?
Primeiramente, pretendo conhecer essa nova família diocesana. É bom acolher o caminho percorrido, valorizar o trabalho dos meus predecessores bispos, dos padres, consagrados e leigos. Um caminho sábio é seguir as orientações da Igreja no Brasil.

A Diocese de Franca também é lembrada por alguns episódios negativos. Como padres que engravidaram fiéis e casos como o do padre José Afonso Dé, condenado por abusar de adolescentes. Como o senhor analisa situações como essas?
Terei oportunidade de conhecer pessoalmente os padres, com o tempo. Mas já recebi informações boas do clero de Franca. Um presbitério bem formado, que tem forte espiritualidade, equilibrado, que vive a comunhão e a fraternidade é uma riqueza para uma diocese e para a Igreja. Se há alguns desvios, devem ser corrigidos, sem faltar a misericórdia.

O senhor é mais próximo de que corrente ou movimento dentro da Igreja Católica?
Procuro ser mais próximo de Jesus Cristo e do seu Evangelho, como todo bom cristão deveria ser. Esta é a nossa meta. Procuro seguir as orientações do papa Francisco e de nossa Conferência Episcopal, que nos oferecem grande ajuda. No momento, a CNBB propõe o estudo do texto Comunidade de comunidades: uma nova paróquia, com indicações pertinentes para a nossa pastoral e evangelização. O bispo é o pastor e tem orientações claras, mas aberto para acolher as diferentes experiências. Quando era padre trabalhei em paróquias onde funcionavam pastorais e comunidades, e paróquias com esta realidade, mas também com muitos movimentos de leigos. Os movimentos de leigos constituem uma riqueza em nossa Igreja. Precisam ser acolhidos e acompanhados. O bispo e os padres são os grandes animadores de uma diocese e paróquias: são ministros da comunhão.

Qual opinião do senhor sobre homossexualidade e casamento gay?
Meu posicionamento é o da Igreja, que como mãe acolhe os seus filhos, mas também os orienta no caminho da verdadeira realização e felicidade. Quando o papa Francisco esteve no Brasil, respondendo a uma jornalista brasileira no voo de retorno a Roma, comentava sobre o ‘lobby gay’. Dizia o papa: ‘nenhum lobby é bom... Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?’ Não há casamento gay, como a Igreja entende o casamento como sacramento, ele só é possível pela união de um homem e uma mulher, que se amam de verdade, são livres na decisão e consentimento; são abertos à vida. A Igreja respeita e considera as pessoas que sentem atração sexual pelo mesmo sexo. Mas não se pode comparar a união estável de pessoas do mesmo sexo à família ou casamento.

O senhor é tido como um bispo simples. Como lida ou pretende lidar com a vaidade de alguns padres?
O que a Igreja orienta - aliás o Evangelho de Jesus Cristo - é que um discípulo, principalmente um ministro ordenado, seja desapegado das coisas terrenas. A Igreja recomenda aos presbíteros diocesanos que abracem a pobreza voluntária, como um estilo de vida que é próprio de quem segue a Jesus Cristo na vocação sacerdotal. É uma pobreza em função da consagração, da caridade pastoral e do apostolado. O presbítero diocesano pode possuir qualquer classe de bens. A Igreja recomenda o necessário para a sua sustentação, para que tenha uma vida honesta e digna. Mas é importante o discernimento e o cuidado com os exageros.

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