Ele aprendeu a rezar o rosário com a família, ainda criança. Aos dez anos fez a primeira comunhão e pouco tempo depois recebeu o sacramento do crisma. Onze anos mais tarde, entrou para o seminário em Aparecida (SP) e, aos 29 anos, o agora Dom Paulo Roberto Beloto já era padre em Tupi Paulista.
De família de origem simples, antes do sacerdócio, trabalhou na colheita do café, foi marceneiro e escriturário e não imaginava que um dia chegaria a ocupar a cadeira de bispo da Diocese de Franca, que abrange 19 municípios e uma população de 600 mil habitantes.
Com 56 anos completados em abril, Dom Paulo, como prefere ser chamado, assume neste domingo, dia 15, o comando da diocese após um ano de Sé Vacante, desde que Dom Pedro Luiz Stringhini foi transferido para a Diocese de Mogi das Cruzes. A posse será às 9 horas na Catedral Nossa Senhora da Conceição. Ele será o quarto bispo desde a criação da Diocese de Franca em 1971 e quer, com suas particularidades, dar sequência ao trabalho iniciado por seus antecessores.
Paulista de Adamantina, Dom Paulo vem transferido da Diocese de Formosa, em Goiás, onde permaneceu por quase oito anos, e manifestou o desejo de conhecer aos poucos cada paróquia, comunidade e movimento da Igreja de Franca. “Procurarei acolher o que encontrar.”
Nesta entrevista exclusiva ao Comércio, Dom Paulo declarou que não aprova o casamento gay e disse que casos de padres que comentem abusos sexuais devem ser corrigidos. Conheça abaixo um pouco do novo bispo de Franca e como será sua chegada.
O senhor foi padre por 20 anos até ser nomeado bispo de Formosa (GO). Imaginava um dia que isso aconteceria?
Ao ser nomeado bispo da Diocese de Formosa, exercia a função de diretor espiritual no Instituto Teológico Rainha dos Apóstolos e era vigário paroquial na Paróquia Santa Rita, em Marília. Os dois anos como diretor espiritual foram excelentes, pois me possibilitaram uma vida espiritual e de oração mais intensa. Estava bem como padre, por que pensar em ser bispo? A nomeação como bispo foi uma reviravolta em minha vida. Aos poucos, a gente se acostuma com o cargo. É bom dizer que estou em paz e feliz nesse ministério. Mas no começo foi um desafio. Digo até que foi mais difícil me acostumar a ser bispo do que me adaptar em Formosa, pois fui bem acolhido pelo povo da diocese.
Como foi a mudança do interior do Estado de São Paulo para o Estado de Goiás?
Como disse, não demorei para me adaptar. É claro, há cruzes. Jesus não nos ilude quando nos chama: é preciso tomar a cruz a cada dia. Mas quantas graças recebi estando em Formosa, além de ter realizado inúmeros trabalhos. Destaco: as visitas pastorais em todas as paróquias; as celebrações de crismas e festas dos padroeiros e festa do Divino Espírito Santo, tradição forte em Goiás; a ordenação de 17 padres; a criação de seis paróquias; o acompanhamento à catequese; a criação da Pastoral Carcerária; a realização de encontros com os presbíteros; a implantação do Plano Diocesano de Pastoral; a construção de nova sede da Cúria; a implantação do curso de Teologia para leigos; a elaboração de alguns subsídios pastorais; a fundação de uma experiência monástica, de caráter diocesano; a criação do Setor Juventude; a celebração dos 30 anos de criação da diocese e a abertura de uma comunidade religiosa feminina. É claro, todas essas realizações não seriam possíveis sem a participação dos padres, religiosas e lideranças.
Qual o principal desafio em deixar uma diocese após quase oito anos de trabalho?
Somos humanos e temos sentimentos, graças a Deus. Por isso, criamos vínculos, amizades verdadeiras, compromissos. É normal muitos ficarem tristes com a perda. Superar essa experiência é um desafio para quem sai e para quem fica. Tenho rezado, repetindo muitas vezes “que nenhum bem eu posso achar fora de Deus”. Basta a sua graça. Aqui está o meu consolo e que procuro partilhar com as pessoas. Por isso, acolhi a decisão da Igreja com alegria e generosidade. Quero viver a liberdade dos filhos de Deus.
É verdade que o senhor tentou evitar a transferência? Por quê?
Não tentei evitar a transferência, mas disse que não seria o momento oportuno uma possível transferência, deixando novamente a sede vacante. A vacância anterior foi um pouco longa. A Igreja é conduzida pelo Espírito e acredito nas suas decisões e discernimento. Por isso me coloquei em obediência e à disposição. E não me arrependo. Estou vindo com alegria e generosidade.
O que espera encontrar na Diocese de Franca? Quais as diferenças que o senhor vê entre as duas dioceses?
O que encontrar, procurarei acolher. Não crio expectativas. Também não é bom comparar. Acolho o que o Senhor e a Igreja me colocaram sob o meu governo, com alegria e generosidade. Fui bispo em Formosa, como outros bispos de nossa Igreja. Não há destaque, nem procuro prestígios. A Diocese de Formosa tem ainda um caráter missionário, devido às distâncias. Muitas paróquias ficam há mais de 200 quilômetros da sede. A mais distante está há 370 quilômetros.
Na Diocese de Franca há muitas comunidades e movimentos e um trabalho forte com a juventude. Que tipo de trabalho o bispo pretende desenvolver na diocese?
Primeiramente, pretendo conhecer essa nova família diocesana. É bom acolher o caminho percorrido, valorizar o trabalho dos meus predecessores bispos, dos padres, consagrados e leigos. Um caminho sábio é seguir as orientações da Igreja no Brasil.
A Diocese de Franca também é lembrada por alguns episódios negativos. Como padres que engravidaram fiéis e casos como o do padre José Afonso Dé, condenado por abusar de adolescentes. Como o senhor analisa situações como essas?
Terei oportunidade de conhecer pessoalmente os padres, com o tempo. Mas já recebi informações boas do clero de Franca. Um presbitério bem formado, que tem forte espiritualidade, equilibrado, que vive a comunhão e a fraternidade é uma riqueza para uma diocese e para a Igreja. Se há alguns desvios, devem ser corrigidos, sem faltar a misericórdia.
O senhor é mais próximo de que corrente ou movimento dentro da Igreja Católica?
Procuro ser mais próximo de Jesus Cristo e do seu Evangelho, como todo bom cristão deveria ser. Esta é a nossa meta. Procuro seguir as orientações do papa Francisco e de nossa Conferência Episcopal, que nos oferecem grande ajuda. No momento, a CNBB propõe o estudo do texto Comunidade de comunidades: uma nova paróquia, com indicações pertinentes para a nossa pastoral e evangelização. O bispo é o pastor e tem orientações claras, mas aberto para acolher as diferentes experiências. Quando era padre trabalhei em paróquias onde funcionavam pastorais e comunidades, e paróquias com esta realidade, mas também com muitos movimentos de leigos. Os movimentos de leigos constituem uma riqueza em nossa Igreja. Precisam ser acolhidos e acompanhados. O bispo e os padres são os grandes animadores de uma diocese e paróquias: são ministros da comunhão.
Qual opinião do senhor sobre homossexualidade e casamento gay?
Meu posicionamento é o da Igreja, que como mãe acolhe os seus filhos, mas também os orienta no caminho da verdadeira realização e felicidade. Quando o papa Francisco esteve no Brasil, respondendo a uma jornalista brasileira no voo de retorno a Roma, comentava sobre o ‘lobby gay’. Dizia o papa: ‘nenhum lobby é bom... Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?’ Não há casamento gay, como a Igreja entende o casamento como sacramento, ele só é possível pela união de um homem e uma mulher, que se amam de verdade, são livres na decisão e consentimento; são abertos à vida. A Igreja respeita e considera as pessoas que sentem atração sexual pelo mesmo sexo. Mas não se pode comparar a união estável de pessoas do mesmo sexo à família ou casamento.
O senhor é tido como um bispo simples. Como lida ou pretende lidar com a vaidade de alguns padres?
O que a Igreja orienta - aliás o Evangelho de Jesus Cristo - é que um discípulo, principalmente um ministro ordenado, seja desapegado das coisas terrenas. A Igreja recomenda aos presbíteros diocesanos que abracem a pobreza voluntária, como um estilo de vida que é próprio de quem segue a Jesus Cristo na vocação sacerdotal. É uma pobreza em função da consagração, da caridade pastoral e do apostolado. O presbítero diocesano pode possuir qualquer classe de bens. A Igreja recomenda o necessário para a sua sustentação, para que tenha uma vida honesta e digna. Mas é importante o discernimento e o cuidado com os exageros.
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