O paliteiro da tataravó Clara perdeu, há muito, sua função precípua. Ficou exposto no armário de objetos preciosos de recordação, entre outros objetos de linhagem feminina transformados em ícones familiares. Era da tataravó Clara, foi para a bisavó Ritinha, a avó Clara os recebeu e os passou para a filha Lúcia. Como no passado, quando em algum momento foram entregues para outra geração mais nova, aguardavam a oportunidade de servirem de elo entre os tempos inimagináveis do passado e estes, que achamos tão modernos. Maria Fernanda, da sexta geração pós tataravó Clara, pediu objeto antigo de família para montar exposição escolar. De início, não entendeu a utilização da estranha peça. Abriu a tampa, viu os palitos. Ao mover o passarinho e, com o bico dele fisgar a peça de madeira, brilharam-lhe os olhos, a boca se abriu em surpresa: “Dá pra mim, vó?” No correr do tempo, a peça tem mais de cento e dez anos, onze vezes a idade da sua dona atual.
(Lúcia H. M. Brigagão)
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