Aécio Neves da Cunha, 53, herdou do avô Tancredo o gosto pela política. Foi governador de Minas Gerais duas vezes e deputado federal por quatro mandatos. Atual senador, assumiu a presidência nacional do PSDB em maio. É o nome mais cotado do partido para disputar as eleições presidenciais de 2014.
Sexta-feira, Aécio veio a Franca participar de um encontro com tucanos da região. Antes, ele falou com o Comércio durante visita à sede do GCN e também na entrevista coletiva no auditório do hotel que sediou o evento.
Qual o motivo da visita a Franca?
É um prazer enorme estar aqui mais uma vez. Somos vizinhos. Aqui é quase uma “não fronteira”. Os mineiros convivem muito com esta região, com Franca em especial. Vivemos as mesmas angústias e, muitas vezes, também o mesmo otimismo. Neste momento, temos problemas comuns. Seja no setor calçadista aqui em Franca - temos também um polo importante em Minas Gerais, em Nova Serrana, e que passa por extrema dificuldade com a concorrência predatória de produtos asiáticos, com a pouca ação do governo no comércio internacional, de estímulo à entrada de produtos brasileiros em outras partes do mundo. E também na cafeicultura vivemos a mesma dificuldade neste momento. Mas ao falar em café, eu quero falar do agronegócio. Nós temos que parar de demonizar quem produz. O que nós temos é estimular que o produtor rural cada vez mais ganhe produtividade.
Estamos aqui numa caminhada que busca interpretar o sentimento dos brasileiros para a construção de um novo projeto. É uma oportunidade de conversar e ouvir muito. O Brasil precisa de uma nova agenda, onde ética e eficiência possam caminhar juntas.
Quando o PSDB definirá o seu nome para a campanha?
Estou aqui como presidente nacional do PSDB e a candidatura vai surgir na hora certa. Hoje, nossa preocupação é construir o discurso. Deixar claro para as pessoas que queremos municípios e Estados mais fortes. Sou mineiro, aqui do lado, e como vocês sabem, o mineiro não coloca o carro na frente dos bois. Acredito que teremos uma decisão no início do ano, que vai unificar o partido.
Tenho um respeito enorme pelo José Serra. Se este for o sentimento do partido, que deve haver uma renovação, não é contra o Serra, é a favor de um novo momento para o PSDB. Tenho absoluta convicção que, se a decisão do partido for na minha direção, ele estará junto e terá um papel muito importante.
O que a região pode esperar de um possível governo do PSDB?
Generosidade e solidariedade. A base da nossa proposta está na refundação da federação. Nunca assistimos em toda a história republicana do Brasil a uma concentração tão absurda de receita nas mãos da União em detrimento dos Estados e municípios, em situação quase pré-falimentar.
O governo do PSDB agirá, em primeiro lugar, com ética, com transparência. Em segundo lugar, terá uma responsabilidade muito maior na condução da economia. Para nós, é tolerância zero com a inflação, até porque acabamos com ela anos atrás. Do ponto de vista da gestão do Estado, não consideramos o setor privado como um inimigo a ser combatido, queremos como um parceiro para fazer investimentos em infraestrutura, nas rodovias e ferrovias, hidrovias, portos, porque isso é necessário para que a nossa economia possa crescer. Na área social, nós, do PSDB, não nos contentamos com a administração diária da pobreza, como parece satisfazer o PT. Queremos a superação. Pobreza para nós não pode ser vista apenas como privação da renda, mas também a privação de serviços, saneamento, educação, saúde... A privação de oportunidade é algo que também leva à pobreza extrema.
Temos uma estrada enorme a percorrer, o PSDB fará sua parte, que é apresentar uma proposta muito diferente desta que está aí, para o Brasil voltar a sorrir.
O PT só acerta quando vem no rastro do PSDB. Vamos deixar de lado esse software pirata e trazer de novo o software original de quem tem convicções, de quem acredita efetivamente no que está fazendo.
A prisão dos mensaleiros poderá ajudar o PSDB na tentativa de retomar a presidência da República?
Mais do que favorecer o PSDB nas eleições, eu acho que foi um momento importante para a democracia. Eu sempre dizia, desde o início deste processo, que eu não apontava o dedo para ninguém, que condenava este ou absolvia aquele. O que eu dizia é que precisava que o julgamento ocorresse com base nos autos e aqueles, sobre os quais existiam provas irrefutáveis, deveriam ser condenados. O que esperávamos era a conclusão do processo, que passa a acontecer agora. Acho que os brasileiros percebem que aquela sensação de impunidade, a qual convivemos tanto tempo, diminui um pouco. Felizmente, a Justiça fez a sua parte. Não podemos aceitar este discurso anacrônico do PT, de que houve um julgamento político. Não houve. Foi feito um julgamento com base nos autos. Não temos hoje, felizmente, no Brasil, nenhum preso político. Temos, na verdade, políticos presos que devem cumprir suas penas como devem cumprir todos os outros que foram ou vierem a ser condenados. É uma etapa, um degrau a mais que a democracia brasileira alcança e nós precisamos disto: avançar sempre. Do ponto de vista da campanha, pessoalmente, acho que vai vencer quem tiver as melhores propostas e permitir ao Brasil dar um salto de qualidade, seja nos indicadores econômicos, mas também nos avanços sociais, que estão estagnados. O PSDB tem essa responsabilidade. Estou muito otimista e acredito que durante a campanha vamos mostrar a verdade, de forma clara, olho no olho, que o Brasil precisa iniciar um novo ciclo, onde o adversário não seja tratado como inimigo, como faz o PT. Temos de acabar com esta bobagem de dividir o País entre nós e eles. O PT acha que apenas os aliados querem bem o Brasil. Aqueles que o criticam, que apontam os maus feitos, são inimigos do Brasil, os pessimistas. Nada disso: temos que construir uma pátria, efetivamente, para todos, onde o Estado não seja aparelhado, não seja ocupado pelos companheiros, mas por quem conheça suas funções e permita ao Brasil dar um novo salto.
Como o senhor vê a tentativa da Câmara Federal de evitar a cassação dos deputados condenados?
Triste. Na minha avaliação, deveria haver apenas a notificação pela Câmara dos Deputados aos parlamentares que foram julgados, que foram condenados. Como ocorre na grande maioria dos países civilizados do mundo. A própria Itália, na última semana, deu uma demonstração disso: o todo poderoso ex-premiê Berlusconi foi condenado há mais de dois anos, e a regra no Congresso, no Senado italiano é de que, condenado há mais de dois anos, ele fique impedido de cumprir o mandato. Infelizmente, essa não foi a interpretação da mesa da Câmara dos Deputados. Eu nunca torci - isso não me traz alegria - para um adversário político ser condenado e estar preso. Mas a decisão do Judiciário condenando aqueles sobre quem havia provas contundentes, e até absolvendo outros, faz bem para a democracia.
O que o senhor tem a dizer em relação à suposta formação de cartel em licitações do metrô de São Paulo?
Queremos, em primeiro lugar, que todas as investigações prossigam, as apurações sejam feitas em profundidade e qualquer pessoa que comprovadamente tiver cometido alguma ilicitude, algum ato ilegal, tem que ser punido exemplarmente. Seja próximo ao PSDB, seja próximo a outros partidos. O que não podemos aceitar é a manipulação. É a utilização de instituições de Estado para o combate político. Todos lutamos muito para que a democracia chegasse no Brasil. E temos que assegurá-la. Esse uso político de determinadas instituições não faz bem à própria democracia. O que dissemos, e volto a dizer hoje aqui em Franca, é que existem, nesse episódio, momentos mal contados, ou etapas que não foram esclarecidas. E é preciso que o ministro da Justiça traga esses esclarecimentos, com absoluta serenidade. O que aconteceu? Existia um documento, cuja cópia não corresponde ao original, ninguém mais assume a sua autoria e nomes de pessoas sérias foram jogados ao mar, à lama. E não podemos permitir que isso ocorra. Se houver uma denúncia séria, ela tem que ser investigada. Não apenas em relação ao PSDB, mas a membros de qualquer partido ou até sem partido. É isso que sempre pregamos. Mas quando fomos alertados que havia uma certa manipulação do caso, cobramos explicações do ministro e vamos aguardar que, no Congresso Nacional - no Senado na terça e na Câmara na quarta - ele possa, com serenidade, com absoluta transparência, esclarecer o que efetivamente ocorreu.
O seu avô, Tancredo Neves, morreu antes de tomar posse como presidente. O senhor acredita que 30 depois a história colocará um Neves na Presidência?
Nunca foi meu projeto de vida. Sei que tenho uma responsabilidade como presidente do maior partido de oposição. Se o partido achar que esse deve ser o meu papel, disputar a eleição presidencial, o que posso dizer é que estarei pronto para isso. Eu vou cumprir o meu papel. Meu velho avô Tancredo costumava dizer que presidência é destino. O dele, infelizmente, não se cumpriu. Mas ele nos permitiu o reencontro com a democracia, a partir da sua grande liderança. Cabe a nós, à nossa geração e a outras que virão, fazer com que a democracia seja instrumento de melhoria de condições para outras pessoas, com melhor educação, melhor saúde, mais oportunidades e melhores oportunidades de trabalho. Vamos fazer a nossa parte e esperar para ver o que o destino nos reserva.
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