Medo e amor ‘prendem’ mulheres


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Advogado Acir Matos diz que lei precisa ser cumprida na íntegra
Advogado Acir Matos diz que lei precisa ser cumprida na íntegra

“Duas coisas prendem a mulher ao homem: o sentimento ou o medo”. A afirmação é da psicóloga Helen White, que atua como voluntária na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) atendendo casos de vítimas de violência doméstica.

A psicóloga diz que a maioria das mulheres que continua vivendo com seus agressores têm medo deles, são dependentes financeiramente ou se submetem ao convívio por conta dos filhos. “As mulheres acabam sendo coniventes. Apanham uma vez e acham que vai passar”, disse.

Apesar de os casos registrados pela DDM serem expressivos - mais de 1.400 até a semana passada -, eles não condizem com a realidade, uma vez que muitas mulheres ainda não denunciam as agressões cometidas pelos companheiros. “Elas têm muito medo do agressor ficar ainda mais agressivo”, afirmou Helen.

Aquelas que se cansam de apanhar e se cercam de coragem para expor seu drama pessoal, chegam à delegacia, segundo a descrição da psicóloga, machucadas e reticentes. “É uma mistura muito grande de vergonha, humilhação e falta de amor próprio.”

A condição socioeconômica das vítimas é apontada como um dos fatores determinantes para a reincidência. “Uma mulher mais esclarecida, na maioria das vezes, apanha uma vez e toma providência. Nosso maior público é de pessoas carentes”, disse Helen.

Ela conclui que apesar de a Lei Maria da Penha ser um avanço, no sentido de proteger a mulher e punir o homem agressor, falta estrutura para cuidar da vítima ameaçada, o que cria resistência para que denuncie as agressões.

Triagem
Na sala de espera da DDM, a psicóloga faz uma triagem dos casos. Ela conversa com as mulheres vítimas de violência doméstica e identifica a necessidade de registro de boletim de ocorrência ou, apenas uma conversa com vítima e agressor. O diálogo é direcionado aos casos em que houve apenas ameaça. Segundo ela, geralmente, os homens que ameaçam são aqueles que não aceitam o fim do relacionamento. “Olho nos olhos dele, chamo por nome, explico que trata-se de crime, mas não estou aqui para julgá-lo. E tem surtido efeito. Muitos entendem o que a aplicação da Lei Maria da Penha pode causar na vida deles”, afirmou Helen.

O poder da lei
O advogado Acir de Matos Gomes, especialista na Lei Maria da Penha, que surgiu em setembro de 2006, acompanha casos de mulheres vítimas de violência. Ele cita o caso de um francano que cumpre pena há mais de um ano. O agressor manteve a mulher presa dentro de casa por mais de uma semana. Ela era agredida de manhã e à noite. Incomunicável, não conseguia pedir socorro. Segundo o advogado, um dia, por descuido do marido, a vítima conseguiu gritar, uma vizinha ouviu e chamou a polícia. A mulher e as filhas foram libertadas e o marido preso.

Mesmo de dentro da cadeia o agressor fez ameaças por meio de carta. “É uma tragédia que vai acontecer. Ele vai sair (da prisão), e com certeza, vai cumprir tudo aquilo que prometeu. Porque infelizmente não se consegue aplicar a lei em sua plenitude”, disse Acir.

O advogado, que já escreveu um livro sobre a Lei Maria da Penha, ressalta que o Poder Judiciário precisa analisar as questões referentes à violência doméstica com “um olhar não só de punição”, mas para criar mecanismos que ofereçam tratamento e aparato para ajudar a mulher agredida. “Precisa mudar a concepção das pessoas com relação à violência doméstica, porque senão vai continuar acontecendo. Daqui a pouco, pode virar uma banalidade”, afirmou.

O especialista defende a criação de políticas públicas envolvendo todos os poderes para o efetivo cumprimento da lei “É preciso criar uma concepção assim: violência contra a mulher não é contra ela, mas contra a família e a sociedade. Toda a sociedade precisa se mobilizar para que isso não aconteça.”

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