Os moradores dos predinhos do Leporace têm convivido com uma preocupação diferente nos últimos dias. Eles têm encontrado frequentemente pombos mortos e excrementos desses animais em suas caixas d’água, que têm frestas, o que facilita a “invasão”. Com a aparição mais frequente de doenças como alergias e o crescimento de casos de diarréia entre os moradores, eles se perguntam se os dois fatos estão relacionados.
Há cerca de um ano, moradores do predinho que fica no nº 1.150 da Abrahão Brickmann, começaram a ficar doentes, principalmente crianças e adolescentes. Um deles era o filho de 15 anos da síndica, Mariza Bonifácio, que era sempre acometido por fortes dores de barriga. Desconfiada de que havia algo errado com a água do prédio, ela contratou um pedreiro para fazer a limpeza das seis caixas d’água de mil litros existentes no prédio. O que ele encontrou ali a chocou. “Tinha muito pombo morto, besouros, tudo quanto é sujeira. Fico preocupada não só com esse prédio, mas com o Leporace inteiro”, disse ela. O pedreiro responsável pela obra, Luiz dos Reis Silva, disse que as caixas estavam tampadas, mas pela largura delas, precisaram ser emendadas. Com o tempo, as emendas foram se deteriorando, criando frestas, o que possibilitou a entrada de bichos. “As caixas precisavam ser trocadas por aqueles modelos de fibra de vidro, mas os moradores não tem dinheiro para isso”, disse a síndica, que completou: “Além desse problema, elas são feitas de amianto, o que é muito perigoso. Do jeito que está, não pode ficar. Precisamos de ajuda”, disse Mariza, se referindo ao fato do amianto ser um material cancerígeno. Sua fabricação e comercialização, inclusive, estão proibidas por Lei em todo o Estado de São Paulo desde 2008.
O problema não é restrito ao prédio onde mora Mariza. Moradores de outros blocos relatam a existência do mesmo problema. “Sempre que a gente limpa a caixa d’água achamos pombos mortos. Como que vamos beber água suja? Hoje, só compro água de galão”, disse o frentista Ariel Feliciano, que tem uma filha de 2 anos que já sofreu com dores de barriga. A reportagem ouviu outras 10 famílias dos predinhos e quatro delas relataram casos de crianças ou jovens que tiveram diarreias ou alergias no último ano.
O chefe da Vigilância em Saúde da cidade, José Conrado Netto, disse que visitou ontem à tarde o prédio onde mora o frentista Ariel e constatou que, das seis caixas d’águas, três estavam com as tampas danificadas. O órgão forneceu três toucas (espécie de telas) para lacrar as caixas. “O morador se comprometeu a fazer a limpeza e a vedação dessas caixas d’água. Faremos essa fiscalização e orientação em todos os outros prédios do complexo”, disse Netto.
A CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) disse, via assessoria de imprensa, que “Os prédios a que a reportagem se refere somam 688 aptos, entregues de fevereiro de 1993 a Dezembro de 1997. Na construção dos prédios foram instaladas e testadas caixas d’água fabricadas de acordo com a legislação vigente à época. Como já se passaram cerca de 20 anos, somente após uma vistoria poderemos afirmar se as caixas d’água ainda são as originais ou se foram eventualmente substituídas pelo condomínio”. A nota diz ainda que é necessário que o “condomínio efetue manutenção periódica nos prédios, incluindo a limpeza, desinfecção e conservação das caixas d’água”, em que pese isso, finaliza dizendo que “a CDHU enviará técnicos na próxima semana para vistoriar os locais e estudar a situação”.
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