Comer picanha


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Escrevi recentemente sobre onda de escritores de tendência liberal, conservadora, progressista-arrependida e outros que, na contramão do pensamento esquerdista que domina a sociedade, traz diversidade. Tomei bordoadas, a maioria de gente que não consegue conviver com quem pensa diferente. Além do discurso ensaiado que rotula não-progressistas de semeadores do ódio e fascistas, o adjetivo “exagerado” apareceu com frequência. Sempre que menciono autor não-progressistas, aparece alguém dizendo que o detesta e que exagera nos argumentos e xingamentos.

Bem, aí é que vem a arte de comer picanha. Faço afirmação politicamente incorreta que escandalizará e é, quase, confissão de culpa: eu adoro picanha. Foi comendo picanha que aprendi a ler autores “exagerados”, de direita, de centro, de esquerda, de cima e de baixo.

Quando o garçom chega com a picanha, coloco no prato e imediatamente corto fora o excesso de gordura. Tem gente que jura que jogo fora a melhor parte, mas, gordura não desce... Deixo só um pouquinho da tostada, mas corto fora 95%. Fico com o miolo suculento.

Com autores, faço a mesma coisa. Pego a picanha que oferecem e corto excesso de gordura. Relevo exageros e xingamentos, contorno ódios e intolerância e vou ao miolo. Um argumento precioso, ponto de vista original, indicação de autor desconhecido, um site ou blog que me leve a novos conteúdos, um filme, peça de teatro ou música fora das listas dos dez mais... Tudo está lá, no meio da picanha gordurosa. Se eu desistir de comer a picanha por causa da gordura não terei acesso a nada disso.

Por isso trafego tranquilamente em meio a autores de todas as inclinações. Quase sempre descubro algo que vale a pena. Então, recomendo: antes de dizer “não comi e não gostei”, faça a experiência: tire o excesso de gordura. Você pode ter uma surpresa deliciosa. Mas, nem sempre dá certo, Tem uns que, se tirar a gordura, sobra nada.

Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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