O corrupto que, por natureza, é parasita que suga dinheiro público para seu enriquecimento privado, é, ainda, mais detestável do ponto de vista ético e social quando é, também, cínico. ‘Cínico é pessoa desavergonhada, debochada, sem amor, sem pudor, descarado, alguém que não tem senso de respeito’, de acordo com o Larousse. Muitos se enquadram nesse figurino: ‘roubam’ o dinheiro público, vivem de malandragem, corrompem ou são corrompidos, mas, discursam debochadamente, moralismo contra outros criminosos. Corruptos e corruptores são cloacas do Brasil que não deu certo. Esse Brasil atrasado está marcado pelo teocratismo, patriarcalismo, ignorantismo, parasitismo, selvagerismo e cinismo.
Um dos integrantes da máfia dos fiscais na Prefeitura de São Paulo, poucos dias antes de saber que estava sendo investigado, teria postado mensagem no Facebook dizendo-se contrário ao indulto de Natal: ‘Sou contra. Quem também é, compartilha’. Muitos devem ter compartilhado, incluindo-se alguns cínicos despudorados.
O corrupto prospera em razão da cultura da impunidade. Se torna cínico quando ‘sabe o preço de tudo, mas o valor de nada’, como dizia Oscar Wilde. Sabe muito bem o preço da corrupção, mas nada faz para preservar sua honra, sua reputação, sua credibilidade. Degeneração moral absoluta. Estágio avançado de putrefação cultural a ponto de não se ver como mais um criminoso, até mais pernicioso do que os que encontram recolhidos nas cadeias.
Para o corrupto, criminosos presos constituiriam a latrina mais desprezível da cloaca da criminalidade. Daí, seu cinismo lhe permitir pisar naqueles que supostamente estariam mais embaixo, num tipo de escala da criminalidade. O cínico é, antes de tudo, um moralista. Reivindica, em seu inconsciente, status imunizador para seu crime. Se é que, na nossa cultura, veja sua própria corrupção como um crime!
Luiz Flávio Gomes
Jurista
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