Comércio ilegal: anabolizante, a droga da beleza que pode matar


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Na busca pelo corpo tanto perfeito quanto artificial, atletas e “amadores fitness” arriscam a vida com a ingestão e aplicação de substâncias perigosas: os anabolizantes. O resultado, geralmente, aparece rápido, assim como as consequências. No início deste mês a modelo e ex-BBB Maria Melilo foi notícia quando anunciou a retirada de 70% do fígado, tomado por tumores. Ela admitiu que foi usuária de anabolizantes durante anos e que, segundo os médicos, eles podem ter colaborado muito para o aparecimento da doença. Em abril deste ano o cantor baiano Netinho também sofreu uma doença grave e descobriu tumores benignos no fígado em decorrência do uso dessas substâncias.

Alheios a esses riscos, homens e mulheres de todas as idades optam pelos remédios e compram os produtos de forma ilegal. O Comércio visitou nos últimos dias academias de ginástica de Franca e lojas de “suplementos”. Dos locais onde a reportagem esteve, nenhuma academia admitiu vender os produtos, mas a funcionária de uma delas contou onde é possível comprar anabolizantes. A instrutora do local chegou a dizer que ali “quase todo mundo fazia uso de anabolizantes”. Em uma das principais avenidas de um bairro popular de Franca, o Leporace, numa loja aparentemente de suplementos alimentares, a reportagem encontrou quatro dos principais e mais perigosos anabolizantes do mercado: deca, durateston, stanozolol e oxandrolona. Também sem saber que se tratava de uma matéria, o vendedor disse que, para sua segurança, não tinha os produtos com ele, mas se comprometeu a trazê-los se a cliente esperasse alguns minutos. Tudo é vendido sem receita, sem restrição a preços que podem chegar a R$ 200 por ciclo.

No meio “esportivo” os marombeiros sabem exatamente onde e quem vende o que em Franca. Local para aplicação dos medicamentos também não é difícil de se encontrar na cidade. Em uma farmácia localizada na região central, onde a reportagem esteve, o movimento de “atletas” era grande. Em 40 minutos, pelo menos, cinco chegaram ao local, entraram na sala de medicação e saíram minutos depois.

Na lojinha do Leporace o movimento também chama a atenção. Enquanto o Comércio permaneceu no local, por 20 minutos, pelo menos mais três clientes entraram.

Na condição de anonimato, um segurança falou sobre a experiência desastrosa com os anabolizantes. Aos 36 anos, ele perdeu a conta de quantos “ciclos” de deca e stanozolol, ambos para ganho de massa muscular, já fez. Ele pesava 60 quilos quando começou a malhar e quem indicou os anabolizantes foi o próprio educador físico da academia que ele frequentava, no Aeroporto, bairro em que mora até hoje.

Segundo ele, na época, há quatro anos, ele teria dito que sem remédios jamais ganharia músculos. “Eu era muito magro e sofria por isso as mesmas piadas maldosas que um gordinho sofre, mas pelo motivo contrário. Quando ele me ofereceu, não pensei duas vezes”, disse.

A academia, que não existe mais, trazia os medicamentos aos alunos que se interessavam. Segundo ele, a droga vinha do Paraguai e custou para ele R$ 1,2 mil. Ele aplicava sozinho, com agulha e seringa, a substância chamada stanozolol, derivada do hormônio masculino testosterona e que é usada em animais de grande porte para desenvolvimento muscular. Quando queria ainda mais resultado, alternava essa droga com outra, conhecida como deca. O peso dele subiu de 60 quilos para 85 em dois meses com as aplicações semanais. “Hoje sei que era uma coisa de gente desequilibrada, mas para mim estava normal”, disse.

Efeitos e riscos
O segurança disse que os problemas começaram a surgir junto com os músculos. Tudo muito rápido. A pressão arterial dele aumentou e chegou a picos de 20x18. O colesterol ruim disparou e o rosto foi tomado por espinhas. A quantidade de pêlos pelo corpo também aumentou. Cada ciclo durava três meses e as aplicações eram semanais. Mesmo com tudo isso ele só parou com a medicação no ano passado, três anos depois de dar início, quando descobriu nódulos no fígado. Na época fez biópsia e o resultado foram pequenos tumores benignos. Hoje ele não malha mais, parou com o stanozolol e emagreceu. Pesa 65 quilos e faz controle dos nódulos, toma remédios para a pressão e para baixar o colesterol, que nunca mais voltou ao normal. “Hoje me arrependo, poderia ter tido um ataque do coração com a pressão tão alta ou ter desenvolvido um câncer.”

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