A professora Mariana Coelho Rosa, 58 anos, é hoje uma das responsáveis pelo renascimento do Comdecon (Conselho Municipal de Desenvolvimento da Consciência Negra). Negra, ela afirma que sofreu preconceito velado que ainda persiste na sociedade brasileira. Desde muito cedo, vem lutando para mudar essa realidade e tem o sonho, como Martin Luther King, de viver numa nação onde as pessoas não serão julgadas pela cor de sua pele e sim pelo conteúdo de seu caráter.
O engajamento de Mariana, que já foi secretária municipal de Educação no governo Gilmar Dominici (PT), começou em uma viagem que ela fez para São Paulo. “Fui visitar uma tia e conheci um pessoal que tinha um grupo de valorização da cultura negra e me encantei.”
Anos depois, em parceria com Carlos Assunção e Irene Sales, fundou em Franca um dos primeiros grupos organizados para difusão da cultura afro - o Monufi (Movimento Negro Unificado de Franca). O grupo sobreviveu por quase uma década, mas em meados dos anos 90 acabou perdendo força e foi extinto.
Hoje à frente do Comdecon, a professora tenta ensinar as pessoas a respeitarem as diferenças e a valorizarem a cultura negra. Para ela, o feriado da Consciência Negra, comemorado nesta semana, no dia 20 de novembro, é uma grande conquista.
Dia 20 é feriado da Consciência Negra, em Franca e outras cidades do Brasil. Na sua opinião, há avanços ao comemorar esta data?
A criação deste feriado foi bastante importante para a comunidade negra. O 20 de novembro é uma data que significa muito para nós porque marca a morte de Zumbi dos Palmares, uma pessoa que dedicou toda a sua vida à luta pela liberdade e à inserção do negro na sociedade, isso ainda na época escravagista. Mesmo após a pseudolibertação dos escravos, essa luta continua no sentido de realmente colocar a comunidade negra em um patamar de igualdade de direitos e de oportunidades.
Mas a criação desse feriado trouxe avanços nesta luta?
Sem dúvida. Ele marca a nossa luta. Luta que começou com nossos antepassados e continua até hoje. Luta de quem não se conforma com a condição em que as pessoas da raça negra ficaram depois da Lei Áurea.
A senhora falou sobre a igualdade como algo a ser alcançado. Na opinião da senhora, ainda existe muito preconceito racial em Franca?
Ainda existe sim. E é da mesma forma que acontece em todo o Brasil. É um preconceito velado, não explícito. Mas que se manifesta nas situações cotidianas das pessoas. Está presente na dificuldade da pessoa negra de se inserir no mercado de trabalho. É um preconceito que a gente vê acontecer nas nossas escolas, no dia a dia das relações escolares. Que existe dentro das fábricas, nos bancos, no comércio.
E como é lidar e combater este tipo de preconceito?
Se fosse um preconceito explícito, seria mais fácil combater, porque a luta também seria mais franca e direta. O que acontece quando o preconceito é velado é que há a impressão de que ele não existe e, por isso, não merece atenção. Fala-se muito que no Brasil temos uma convivência racial harmoniosa, mas, na verdade, não é bem assim. No dia a dia, a gente percebe que nas relações humanas esse preconceito velado ainda se manifesta.
A senhora já foi vítima de preconceito?
Ah, sim. Mas agora isso acontece menos porque talvez agora minha reação é mais direta. Hoje consigo perceber muitas situações da minha adolescência que eram preconceituosas e eu não percebia. Às vezes, nem eram intencionais ou conscientes, mas ocorriam. Uma que ficou marcada na minha memória foi ainda no primário. Era uma boa aluna, organizada e me lembro da professora sempre que a nossa sala recebia visita me usar como exemplo. Mas ela dizia “olha o caderno desta menina. Ela é pretinha, mas é caprichosa”. Até entendo que a professora talvez agisse assim pensando estar me elogiando, mas a forma como fazia isso era um tipo de preconceito. Deixou marcas. Esse tipo de preconceito causa um sofrimento muito grande, uma angústia. Em alguns casos, pode haver até outras consequências, como retração da pessoa diante da vida. Outras vezes pode causar revolta explícita que se transforma em agressão.
E qual o caminho para vencer o preconceito?
Penso que passa necessariamente pela educação. Muitos exemplos de preconceito acontecem dentro dos muros das escolas e não podemos fingir que não estão acontecendo. O preconceito precisa ser tratado e discutido desde sempre, principalmente pelas escolas, dentro das salas de aulas. É importante ensinar as crianças a respeitar a diferença. Temos que enfrentar o preconceito, discutir as situações com os alunos. Agora para a sociedade como um todo, acho que é importante que haja informação. Priorizo a educação nas escolas porque é muito mais difícil mudar a mentalidade de um adulto do que transformar o pensamento de uma criança.
A política de cotas raciais nas universidades públicas do Brasil foi instituída há cerca de 13 anos. O que a senhora pensa a respeito?
As cotas raciais fazem parte das políticas afirmativas do governo brasileiro para vencer a desigualdade enorme que existe na área educacional de acesso em relação aos negros e outras etnias. Agora elas não podem ter o caráter permanente. É uma política válida por um tempo determinado até que se estabeleça essa igualdade de oportunidades de acesso à faculdade. Sou absolutamente favorável a essa política de cotas. E pelo que tenho vivenciado o sucesso de alunos cotistas em universidades tem sido muito grande. Mas precisamos avançar porque grande parte dos alunos negros veio de escolas públicas e a gente sabe de todos os problemas que a rede pública de ensino enfrenta. Também, em sua maioria, são oriundos das classes menos abastadas, então, o que está acontecendo agora é que os alunos cotistas têm enfrentado enormes dificuldades para se manter na universidade. Eles não conseguem comprar os livros ou custear o transporte e a alimentação. Temos que pensar em resolver isso.
Na medida em que esta política de cotas separa os afrodescendentes das demais etnias, ela também não é discriminatória, não reforça o preconceito? Não seria melhor uma política mais abrangente que atendesse não os interesses dos negros, mas das classes menos favorecidas?
Perseguir a melhoria da qualidade da educação no setor público, que é onde estuda a maioria da população, é fundamental. A política de cotas não pode servir de desculpa para o governo abandonar os investimentos em educação. Não acho que a instituição das cotas seja uma espécie de discriminação. Mesmo porque para ingressar nas faculdades, ainda que por meio das cotas, os estudantes precisam ser aprovados nos vestibulares, que são o parâmetro para todos. Além disso, quando se pensa em igualdade é porque estamos tratando de pessoas em condições desiguais. Para estabelecer essa equidade, é preciso que se ofereça mais a quem tem menos, que aquele em desvantagem receba mais até que ele atinja o patamar do outro.
Mas no Brasil a desigualdade não está restrita a questão da etnia. Existem muitos estudantes pobres e em condição desigual que merecem a mesma proteção que os negros.
Concordo. Mas não se pode esquecer que os negros têm um processo histórico diferenciado. Se a gente for observar como as coisas acontecem, mesmo entre os mais pobres há um tratamento diferenciado entre o que é pobre e o que, além de pobre, é negro. As políticas de cotas se justificam por conta disso. O Brasil tem uma dívida histórica com a população negra que precisa ser resgatada. É muito difícil você discutir a questão das cotas sem levar em consideração todo o passado da população negra brasileira. No Brasil, a instituição de cotas não é um privilégio, é uma necessidade para que se estabeleça a igualdade.
A senhora defende que a política de cotas tenha um prazo de validade. Até quando a senhora acha que as leis de cotas devem vigorar?
É difícil responder isso porque essa é uma política que ainda está se iniciando. É uma política que ainda precisa de aprimoramento, que tem muitos aspectos que precisam ser melhorados. Então, não é uma coisa que vá acontecer da noite para o dia.
Na semana passada, o Dieese divulgou um levantamento que mostrou uma diferença salarial entre brancos e negros com curso superior que chega aos 40%, ou seja, os brancos, em média, ganham 40% a mais que os negros para exercer as mesmas funções. Como a senhora vê esta constatação?
Essa pesquisa reforça ainda mais a necessidade do estabelecimento das cotas porque explicita a diferença entre o tratamento dado aos brancos e aos negros. Mostra porque a população negra em alguns aspectos precisa ser tratada de forma diferenciada.
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