Conselhos inoportunos


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Ao publicar um livro com “conselhos” para a vitória na política, o deputado federal Dr. Ubiali deixa bastante claro o juízo que os políticos brasileiros fazem dos eleitores. Embora as sugestões não tenham sido de muita valia para ele próprio — ganhou apenas uma das cinco eleições que disputou; e foi na penúltima que conseguiu a suplência para a Câmara dos Deputados —, já ao utilizar o dinheiro do fundo partidário para publicar a obra o parlamentar expõe a face mais perversa deste sistema político brasileiro, onde o contribuinte acaba financiando praticamente todas as mordomias e benefícios que os eleitos, principalmente em nível federal, desfrutam, diferentemente dos trabalhadores comuns.

No livro Marketing político - administrando o gabinete, escrito em parceria com o marqueteiro político Sérgio Trombeli e distribuído gratuitamente, o deputado francano dá dicas e receitas para políticos em início de mandato. Mas as suas assertivas não caíram bem. Não coloca em primeiro lugar interesses de seus eleitores e muito menos destaca ações em prol da comunidade que o elegeu. Dá dicas sobre financiamento de campanha, preenchimento de cargos de confiança e até traz discursos prontos para qualquer ocasião, o que soa mais ingênuo que pedagógico. Trata-se de uma peça que ainda deverá dar muita dor de cabeça ao Dr. Ubiali, principalmente por causa da forma estranhamente natural como expõe as práticas da maioria dos políticos do Brasil. O deputado francano, em seu livro, compara o eleitor a um cliente. O produto a ser adquirido seria o “próprio político”. O voto representaria a “decisão de compra” e o mandato, o “atendimento pós-venda”. Aliás, não seria de se estranhar, pois é mesmo, e infelizmente, prática comum nestes últimos tempos, onde se elege um produto criado por marqueteiros e não se busca conhecer planos de governo e de atuação parlamentar.

O livro e seu autor acabam por via indireta deixando claro que a República brasileira ainda tem muito a amadurecer e crescer, tornando comum a prática da responsabilidade na gestão de verbas públicas. A legalidade anda de braços dados com a moralidade: uma não deveria existir sem a outra. Muitas vezes, atos legais tornam-se imorais e solapam toda a confiança do cidadão na classe política. Ubiali faria muito mais por Franca caso expusesse em livro, pago com dinheiro de seu bolso e não do erário público, a sua experiência parlamentar e os desafios que encontrou para resolver problemas inerentes à população que o elegeu.

Ele poderia até aconselhar seus correligionários, mas em ambiente fechado, sem expor a visão que a maioria dos políticos brasileiros tem sobre quem permite que eles permaneçam legislando em Brasília. O que não é de bom senso é colocar num livro as práticas que começam a ser fortemente repudiadas pelos cidadãos brasileiros. Ficar calado diante do episódio é concordar com todas as colocações do livro. O político precisa, a partir de agora, voltar-se mais para as suas bases e buscar formas de transformar a vida de quem o elegeu, com leis destinadas a facilitar a vida da população. Do contrário, as urnas cobrarão o preço.

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