‘Acho que o trabalho não mata ninguém. O que mata é a falta dele’


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Diretor de rede com 32 farmácias limpou chão de graça quando chegou a Franca. Ébio Pedroza mantém no escritório foto da casa de pau a pique em que nasceu, para sempre se lembrar de suas origens
Diretor de rede com 32 farmácias limpou chão de graça quando chegou a Franca. Ébio Pedroza mantém no escritório foto da casa de pau a pique em que nasceu, para sempre se lembrar de suas origens

Ébio Sebastião Pedroza nasceu há 55 anos em uma casa de pau a pique no Desemboque, em Sacramento (MG). Era 20 de janeiro, Dia de São Sebastião e Dia do Farmacêutico. A data comemorativa marcaria sua trajetória profissional anos mais tarde.

A infância na roça foi dura, com dificuldades financeiras e muitos apertos. Ainda criança, aos sete anos, Ébio acordava de madrugada e andava longe para ajudar o pai e o irmão a tirar leite. A família mudou-se pouco tempo depois para Rifaina em busca de uma vida melhor. Pedregulho foi a próxima parada. Em 1973, Ébio e três irmãos vieram para Franca e alugaram uma casa.

Dois dias depois, ele começou a trabalhar como entregador de remédios e faxineiro em uma farmácia. Ficou quase quatro meses sem ver a cor do dinheiro. O menino não desanimou. Cinco anos depois, já havia comprado a própria farmácia.

Quando estava há dez anos em Franca, comprou a farmácia São Luiz, na rua com o nome do santo do dia do seu aniversário - São Sebastião, na Vila Nova, onde havia trabalhado limpando o chão sem nada ganhar.

Trinta e cinco anos depois, Ébio Pedroza é o diretor-presidente da rede DrogaFarma, empresa com 32 unidades em Franca e dez cidades da região. Na quinta-feira passada, em reconhecimento à trajetória de sucesso, a Câmara Municipal de Franca realizou sessão solene em homenagem ao empresário. Conheça a história do menino que era faxineiro e que hoje emprega 400 pessoas.

Como a farmácia passou a fazer parte de sua vida?
Costumo dizer que minha vida é um destino. Cheguei em Franca com meus irmãos em um fim de semana. Na segunda-feira, saí à procura de emprego e fui à farmácia de uma família conhecida. A patroa falou: ‘estou precisando e te arrumo serviço. Só que o teste é de 90 dias e, durante este período, não pagamos salário. Depois, vamos ver se você passará no teste ou não’. Aceitei. Passaram- se os 90 dias e nada. Trabalhei 110, 112 dias e ninguém falava comigo. Neste período, outras três farmácias me procuraram. Agradeci o primeiro patrão pela oportunidade e, mesmo ele prometendo me pagar desde os primeiros dias, decidi sair e fui trabalhar em outra farmácia da mesma família. Não tinha um valor fixo. Eu fazia o meu salário. Ralei muito, sofri muito. Entrei para limpar chão, banheiro e fazer entregas de bicicleta. Era faxineiro mesmo. Trabalhava das oito às dez da noite. Trabalhei um ano e um mês sem ter uma única folga, nem aos sábados e domingos. Nem por doença faltei. Eles me davam comida no serviço para não ir em casa e ter uma hora de almoço. Eles judiaram muito de mim. Só que aprendi demais. Dois anos depois, pediram para eu voltar para a primeira farmácia como gerente. Aceitei o desafio, comecei a ganhar dinheiro e me tornei conhecido. Na época, o farmacêutico era como se fosse um médico, era curandeiro mesmo. Em busca de novos desafios, decidi ir para uma terceira farmácia, mesmo recebendo 50% menos.

Como surgiu a oportunidade de comprar a primeira farmácia?
Na época, fazia supletivo no Alto Padrão e o professor de química, Nélson Faria de Freitas, uma pessoa a quem devo muito, tinha uma farmácia, mas não queria mais continuar com ela. Ele insistiu para que eu a comprasse e me deu prazo de 36 meses. Vendi um Fusquinha, tive a ajuda do meu sogro, Vicente Posteraro, e decidimos comprar. Paguei em um ano e oito meses. Unimos toda a família e fomos trabalhar juntos, unindo nosso esforços com humildade, caráter e personalidade.

O senhor começou a trabalhar aos 14 anos sem salários. Como avalia o Estatuto da Criança e Adolescente que dificulta o acesso ao trabalho, fazendo com que muitos menores fiquem nas ruas?
Na verdade, comecei a trabalhar com sete anos. Eu, meu pai e meu irmão levantávamos às três horas da madrugada, andávamos 12 quilômetros a pé, debaixo de chuva e de relâmpagos de dar medo. Colocava um saco plástico nas costas e caminhava rezando de tanto medo. A gente trabalhava até as oito horas e, depois, voltava, tomava banho e ia para a escola.

O que vocês faziam na roça?
A gente alugava um pedaço de terra e tirava leite. Ajudava a tratar das vacas. Carregava carroça com capim e vivia com os braços cortados. Depois, a gente embarcava o leite no caminhão e pegava ‘garupa’ para voltar. Por volta das quatro e meia, cinco da tarde, a gente já estava dormindo para levantar cedo no outro dia. Acho o Estatuto da Criança a maior perdição que os governantes fizeram. Se todo mundo estivesse trabalhando com esta idade ao lado de seus pais, o mundo não estaria onde está hoje, com tanta perdição, droga e criminalidade. Acho que o trabalho não mata ninguém. O que mata é falta de trabalho. Hoje, quando a pessoa chega para trabalhar, primeiro quer saber quanto vai ganhar.

Como surgiu a DrogaFarma?
Quando compramos nossa terceira farmácia, o pai da minha patroa na época quis me vender a farmácia e o prédio. Disse que não tinha condições, mas ele insistiu. Ele me propôs que desse 50% do valor para dali a um ano e o resto para dois anos. Aceitei a proposta. Foi quando começou o nosso crescimento. Pouco tempo depois, criamos a marca própria DrogaFarma. Com a família unida e todos comprometidos, tudo foi acontecendo.

O senhor tem planos de expansão? Durante a solenidade em que foi homenageado na Câmara, quinta-feira, foi cogitada a possibilidade da DrogaFarma entrar no mercado de Ribeirão Preto?
Somos uma empresa de família, temos funcionários que estão com a gente desde o início, há 35 anos. O que temos de pensamento? Toda vez que o mercado dá uma descompensada, montamos uma loja. Não é comum mandarmos funcionários embora. Quando está com excesso de funcionário em uma loja, abrimos outro ponto. O mercado está aberto e temos de aproveitar as oportunidades e trabalhar. Deus vai nos ajudar e vamos continuar crescendo. Já tive oportunidade de entrar em Ribeirão, mas acho que precisamos estar mais fortalecidos. É uma possibilidade que não descarto, tanto lá, quanto em outro lugar.

A DrogaFarma já recebeu proposta de compra ou incorporação de grandes grupos?
Tivemos algumas propostas tentadoras, sim. Fizemos algumas reuniões sozinhos, pensei bastante e, só depois, levei o caso para a família. Pensei o seguinte: vender para um estranho para quê? Somos felizes e gostamos do que fazemos. Isto está acima de qualquer coisa. A sociedade deu isto para nós. Que resposta daríamos para o povo de Franca? Não achei justo e falei não.

Qual é o segredo para um empresário alcançar sucesso em um país com alta carga tributária e excesso de burocracia?
Não diria que sou um empresário, sou um colaborador da nossa empresa, como qualquer outro que trabalha com a gente. Se dependesse só de ser empresário, não estaria onde estamos. Eu, meus irmãos e filhos trabalhamos no balcão. A carga tributária é tão cara, tão difícil no Brasil que, se você não enxugar todo tipo de despesa, você não sobrevive. O empresário no Brasil é um artista verdadeiro.

O senhor conseguiu o feito de nunca ter respondido a uma ação trabalhista. Como foi possível?
Graças a Deus, fomos muito felizes nestes 35 anos. Escolhemos muito bem nossos colaboradores. Na nossa empresa, eles não têm patrão, têm um grande amigo. Isto nos dá muita tranquilidade e segurança. Procuramos ser psicólogo, médico, padre. Eles convivem com os nossos problemas e nós com os deles.

O DNA caseiro da empresa é um diferencial?
A família é a base de tudo. Em qualquer empresa, é preciso ter respeito com os colaborados e com a equipe que a administra. Temos o princípio de humildade, transparência e honestidade e de muito trabalho. O sucesso não vem por acaso. Somos de origem pobre, mas trabalhamos dia, noite, sábado e domingo.

O senhor é popular e respeitado em setores diversos. Não pensa em ingressar na carreira política?
Neste momento, não. O que eu penso é em fazer o bem para o próximo. Para isto, você não pode ser político. Quando você passar a ser político, você não é dono de você. Não quero perder a minha característica de ser humilde, honesto e transparente. A partir do momento que for político, vou contra meus princípios. O futuro a Deus pertence, mas não é o meu desejo, nem o da minha família. Quero continuar com minhas entidades assistenciais e sempre levar uma vida melhor para quem precisa. Estou feliz deste jeito.

O senhor se considera um homem realizado?
Sair do lugar que saí e chegar onde cheguei, com saúde, com a família e amigos que tenho, só posso me considerar como muitíssimo realizado. Hoje, graças a Deus, portas sempre se abrem para a gente em Franca e no Brasil. Até mesmo fora somos bem recebidos. Agradeço a Deus por tudo e só peço força, sabedoria e honestidade. Gostaria de agradecer a Deus por tudo o que ele nos proporcionou, à sociedade francana e da região que nos recebeu de braços abertos. Também não posso deixar de agradecer aos vereadores pela homenagem feita durante a semana. Eles não imaginam a felicidade que me proporcionaram e a toda a família. Estou muito feliz. É uma realização muito grande.

Na parede de seu escritório há um quadro com a foto da casa em que o senhor nasceu. O que significa esta imagem?
Representa uma vida. A gente nunca pode perder a nossa origem em qualquer posição social, profissional ou financeira que se encontrar. Em algum momento você pode ficar alterado, querer se autovalorizar ou ficar arrogante. A foto da casa é para não esquecer as origens e lembrar sempre que não temos o direito de pisar em ninguém.

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