Sobrevivência


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Pessoas, seres comuns, se transformam subitamente em heróis ou heroínas, mobilizando recursos que não supunham ter, ao lidar com situações catastróficas, que ameaçam a sobrevivência. Fenômeno conhecido: algumas pessoas descobrem um manancial de força, fé, coragem, esperança, na luta pela sobrevivência, em condições inóspitas, em situações sequer imagináveis, à beira da morte, no limite da loucura.

O filme, do livro homônimo “As aventuras de Pi”, traz a história de um indiano que sobrevive a um naufrágio, em que morrem os pais e o irmão. O pai de Piscine Patel (Pi, o personagem principal), dono de um zoológico na Índia, resolvera vender tudo e mudar para o Canadá. A família viajava em um navio japonês, com alguns animais remanescentes para serem vendidos, e naufraga: Pi é colocado em um bote salva-vidas com uma zebra. Pouco tempo depois surge uma hiena, escondida debaixo da lona do bote, e um orangotango fêmea integra a “arca de Pi”, ao surgir flutuando sobre um cacho de bananas. Quando o feroz tigre de bengala, chamado Richard Parker, orgulho do zoológico do pai, agrega o grupo, começa a odisséia de Pi, por 227 dias, a tentar sobreviver em bizarra e perigosíssima companhia.

O tigre se torna vital para Pi, por forçá-lo a permanecer vigilante, atento, interessado em todos os detalhes e movimentos, os dele e os do tigre. Pi atribui ao tigre a sua condição de manter a esperança e a fé na sobrevivência.

A narração é feita por Pi, adulto (portanto, sabemos que é sobrevivente), para um escritor à cata de uma boa história. O escritor também é um narrador, no livro. Pi fornece duas versões de sua aventura, e deixa ao escritor (e a nós) a escolha da história: uma seria ficcional e, outra, a verdadeira.

Vivemos situações que sentimos, e reagimos a elas, como se fossem hecatombes, a morte de seres amados; uma falência; o desemprego; a miséria; mesmo o término de uma paixão amorosa; traição de amigos. O sentimento de descrença, desânimo, desesperança, o terror do desamparo, pode nos fazer sucumbir, e até desistir de lutar pela vida. Se tomarmos “As Aventuras de Pi” como uma metáfora na luta pela sobrevivência, e da necessidade de lutarmos com as “feras” que nos habitam, aquelas que podem nos devorar - de dentro - da alma (destruindo nossa capacidade de sentir e pensar), temos muito para refletir. O filme nos brinda com uma fotografia deslumbrante e o livro com reflexões profundas e cativantes sobre o sentido do viver.

Temos que conhecer nossas bestas feras - as psíquicas, canibalísticas, sádicas, predatórias - observá-las, reconhecer seus hábitos e seus ardis, sua conservadora trilha de ataque e defesa. As feras que trazemos em nosso interior, domadas, podem ser fonte de sentidos novos, a serviço da Vida e não da destruição. Uma energia tão poderosa, animalesca, desconhecida, inconsciente, e até temida (como o tigre para Pi), não pode ser recusada ou negada, com o risco de sermos alijados de uma fonte de recursos necessários à sobrevivência. Discernir aspectos de nossa mente, selvagens, incontroláveis, usar de nossa fé e esperança, do nosso poder para domá-los, é esforço contínuo, perseverante, determinado. Pi reconhece o valor da companhia do tigre e chega a confessar que não sobreviveria, se estivesse sozinho em alto-mar. Pi cria uma disciplina, delimita territórios, rotinas, domínios, em que prevalece sobre o tigre.

Conhecer a besta fera, que nos habita, é como conhecer Deus. Medir a alma com o incomensurável nos torna maior. Não saberemos a extensão da nossa potência e limite, se não enfrentarmos o que nos domina e nos controla e paralisa, até, de medo.

As peripécias de Pi, no bote com o tigre, são ricas metáforas do poder da fé na Vida. Pi é o tigre?

Passado o período de lamento e de esperança de que alguém o resgataria (delírio), Pi se viu responsável pela sobrevivência: cuidar do tigre era cuidar de si; ocupar-se com a alimentação do tigre era parte da ocupação de se alimentar, corpo e alma; lutar pela sobrevivência do tigre leva Pi a sobreviver à desesperança, tédio, terror de estar perdido no tempo (227 dias!) e no espaço (mar infinito). Diz: “o pior erro de um náufrago é ter esperança de mais e agir de menos. O primeiro passo para sobreviver é prestar atenção ao que está por perto, à mão, às coisas imediatas. Ficar olhando para fora, sem fazer nada, é a mesma coisa que passar a vida inteira só sonhando.”

Podemos naufragar, inconscientemente, nos mares das paixões violentas, essas que figuro aqui como “bestas feras”. Podemos sucumbir aos delírios (onipotência, pensamento mágico) ou sairmos sobreviventes, atentos e fortalecidos, ao medir forças com os obstáculos.

Se “viver não é preciso”, no ambivalente sentido dado pelo poeta Fernando Pessoa, sobreviver é, deve ser, urge ser, preciso.


O DIRETOR

Ang-Lee é de Taiwan, primeiro asiático a receber um Oscar de Melhor Diretor, pelo filme “O Segredo de Brokeback Mountain”, 2005. “As Aventuras de Pi”, 2012, segundo Oscar - Melhor Diretor, o colocou entre os cinco maiores diretores vivos. “Razão e Sensibilidade”, que dirigiu em 1995, recebeu o Oscar de Melhor Filme, e o de Melhor Roteiro Adaptado.

O diretor retrata a história de “As Aventuras de Pi” de forma lírica, intimista. Inteiramente filmado em estúdio, o tigre foi recriado digitalmente; o tigre real aparece apenas nas cenas em que o tigre nada no mar.

Foram três os diretores cotados para “...Pi”, o indiano M. Night Shyamalan, o mexicano Alfonso Cuarón, e o francês Jean-Pierre Jeunet (O Fabuloso Destino de Amelie Poulin), que abandonou o barco em 2006, depois de muitos meses de pesquisa e até mesmo uma data para iniciar as filmagens. Os diretores recusaram devido às dificuldades de filmagem: água demais o tempo todo; o tigre e o indiano no mesmo bote; peixes voadores, e mais outros aspectos desafiadores. O resultado obtido por Ang-Lee é belíssimo, com o Oscar para Melhor Fotografia, Efeitos Visuais, e pela Trilha Sonora. Excelente escolha do adolescente que protagoniza Pi, Suraj Sharma, desconhecido para o público. Ang-Lee se tornou guru do ator-protagonista por desejo da mãe, em ritual. Suraj apenas acompanhava o irmão no teste, e a equipe se interessou justamente por ele, dentre 3.000 garotos que disputavam o papel.

Livro

Título: As Aventuras de Pi
Gênero: Aventura , Drama
Diretor: Ang Lee
Duração: 125 min
Quando: Hoje, 14h30
Onde: Centro Médico de Franca


Maria Luiza Salomão,
psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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