Em meio à polêmica de biografias e o choque de ver alguns s ídolos defendendo posições de censura, vale reler textos que publiquei em 2009, no meu livro Nóis...Qui Invertemo As Coisa. Almocei num restaurante, onde passava show Kaia na gandaia, de Gilberto Gil, homenagem ao reggae de Bob Marley. Gil canta e encanta, dança e ilumina. Mas, tinha gente com cara feia. ‘Odeio o Gil.’ Era ministro aliado ao PT, e, o que fizesse devia ser execrado. Não interessa sua história. Estava contaminado por uma ‘ideologia’.
Separação ‘ideológica’ em grupos, tribos, castas, raças, indica qualidade da inspiração, da obra, da arte das pessoas? Quando fala de saudade o comunista fala melhor que o capitalista? O amor do católico é melhor que o do muçulmano? A arquitetura de Oscar Niemayer é ruim por ele ser comunista? Músico negro toca pior que branco? O verso ‘Ai, como essa moça é distraída / Sabe lá se está vestida / Ou se dorme em transparente’, de Chico Buarque, ficou ruim depois que ele disse que adora Cuba e que votou em Lula? Para mim, não.
Lembro-me de Wilson Simonal, destruído quando foi injustamente apontado como ‘dedo duro’ pelas patrulhas que lutavam contra o governo militar. Tomei uma decisão: quando o assunto é arte, só tenho reservas quanto a uma ‘ideologia’: o consumismo. Absorvida pelo comércio, deixa de ser arte. Morre.
As pessoas odeiam o artista, transformado em objeto político. O coração pede pra amar, mas a consciência manda odiar. ‘Ah, artistas são personalidades públicas. Têm responsabilidades como formadores de opinião!’. Também acho. Mas aí o papo é sobre política, não é mais sobre arte. Arte é para ser apreciada com os olhos da alma. Poesia vem do coração, da alma, de lugares onde a política não se mete.
Vacinei-me. Aprendi a apreciar o que quero e não o que alguém quer. Rótulos, quem dá sou eu. Na música, só ouço o que gosto. Na hora de lidar com a arte, minha ideologia é meu coração.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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