Adolescentes que ninguém quer: 20 esperam por família na adoção


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“Ninguém quer adotar um adolescente.” A afirmação foi feita por Sérgio Francisco de Lima, coordenador do abrigo Recanto do Aconchego - onde vivem crianças e adolescentes retirados de suas famílias pela Justiça. A frase retrata a realidade comprovada pelos números: 63 pretendentes habilitados pela Justiça de Franca aguardam para adotar um filho, mas não querem nenhum dos 20 adolescentes que esperam ser adotados.

Segundo a psicóloga do Setor de Serviço Social e Psicologia do Fórum, Flávia Peres Fernandes, a opção por não adotar adolescentes pode estar associada aos possíveis problemas de adaptação e interação dos mesmos no âmbito familiar. “As fantasias dos pais adotivos quanto à adoção tardia, como a dificuldade de construção de vínculo paterno-filial, impedem a concretização da adoção de crianças maiores de 8 anos, bem como a de adolescentes.”

Atualmente em Franca, 56 crianças foram retiradas da família. Os pais biológicos tiveram suspenso ou destituído o poder sobre o filho por motivos que variam de maus-tratos a abuso sexual. Pessoas cadastradas no Programa Famílias Acolhedora cuidam de 8 crianças. No abrigo Recanto Esperança vivem 18 crianças (6 meninas e 12 meninos). Já no Recanto Aconchego estão 10 crianças e 20 adolescentes.

O coordenador do abrigo Recanto do Aconchego diz que quase a totalidade dos adolescentes que chegam ao abrigo permanece lá até os 18 anos. Ele afirma se tratar de um “problema cultural”, uma vez que casais buscam adotar recém-nascidos ou crianças de pouca idade porque julgam ser mais fácil de educar. “Nós, culturalmente, temos esse preconceito, que as crianças e adolescentes teriam gene ou índole formada e seria muito difícil de mudar”, disse Lima.

‘Mães sociais’
Sem serem escolhidos para adoção, 20 adolescentes moram no Recanto Aconchego em Franca. A grande maioria tem a companhia dos irmãos e todos têm uma “mãe social”.

Divididos em grupos de quatro, os adolescentes vivem em casas com três quartos, sala, cozinha e dois banheiros, todas no mesmo complexo. Cada casa tem uma TV e um computador com acesso à internet. Os adolescentes recebem os cuidados e o carinho da “mãe social”, que trabalha e mora na mesma casa que eles.

A ex-pespontadora Iraci Leal Fonseca desempenha essa função há quatro anos. Mãe de três filhas, já adultas, afirma que a experiência familiar lhe proporcionou mais segurança e agilidade no desempenho das tarefas e convívio com os garotos. “Temos as dificuldades, as horas de atrito, mas é como se fosse na minha casa, cuidado dos meus próprios filhos.”

Maioridade
Os adolescentes permanecem no abrigo até completarem 18 anos. Depois são “devolvidos” para algum parente ou ficam sem ter para onde ir. Segundo a assistente social do Setor de Serviço Social e Psicologia do Fórum, Maria Cecília Nogueira Audi, cabe à entidade de abrigo prepará-los para “uma vida autônoma e autossuficiente”. “Pelo fato de, muitas vezes, não contarem com anteparo familiar, dependem da estrutura sócio-material e de apoio dos órgãos de assistência social do município”, destacou. Ainda de acordo com Maria Cecília, não cabe à Justiça oferecer esses recursos, mas acioná-los e cobrar o cumprimento do Poder Executivo.

A Prefeitura de Franca, por meio de sua assessoria de imprensa, disse que existem estudos para que casas de apoio sejam implantadas para abrigar esses jovens.

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