Resignação. Refletindo sobre, lembrei-me de Mário Benedetti, escritor uruguaio. Uma de suas novelas, A Trégua, é um tratado contra a mediocridade. Eis trecho: “Ele me perguntou se (...) tudo estava melhor ou pior do que cinco anos atrás, quando foi embora. ‘Pior’, porque, corrupção sempre existiu, o acordo também, negociatas, idem. O que está pior, então? Depois de espremer o cérebro, conclui de que o que está pior é a resignação. Os rebeldes passaram a semi-rebeldes, os semi-rebeldes a resignados. (...) . Antes só quem queria conseguir algo ilícito é que subornava. Agora quem quer conseguir algo lícito também suborna. E isso significa relaxo total”.
Quando ele disse que “o que está pior é a resignação”, havia a esquerda e a direita, a guerra fria, Fidel acabara de derrubar o regime em Cuba. Escreveu em anos de ebulição política e social. Se achava as pessoas resignadas naquela época, o que acharia hoje, quando tudo é balcão de troca? Quando se tornou profética a frase do romancista britânico Somerset Maugham: “A coisa mais útil sobre um princípio é que ele pode ser sacrificado pela conveniência”? O bicho continua pegando no texto de Benedetti: “Mas a resignação não é toda a verdade. No princípio foi a resignação; depois, abandono do escrúpulo; mais tarde, co-participação. Foi um ex-resignado quem pronunciou a famosa frase: ‘Se os de cima levam o deles, eu também levo o meu’. Naturalmente, o ex-resignado tem uma desculpa: é a forma dos outros não tirarem vantagem dele. (...) Continua mantendo ódio vingativo contra os pioneiros que o obrigaram a seguir o caminho. Talvez seja o mais ladrão, porque sabe perfeitamente que ninguém morre de honestidade...”.
Quem escolhe ser resignado está no caminho dde assumir o que disse o visionário Marx, o Groucho, como que complementando a frase de Somerset Maugham: “Estes são meus princípios. Se você não gostar, tenho outros”.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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