Consumismo


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Existe, sim, o Brasil que deu certo. Nas três últimas décadas alcançamos grandes conquistas: o movimento Diretas-Já, em 1984, que sepultou a ditadura militar e restabeleceu a democracia, legando a Constituição de 1988; o movimento ‘caras pintadas’ que postularam o fora Collor; o Plano Real de 1994, que venceu a inflação e estabilizou a moeda. Também, tivemos referenciais econômicos, o programa de inclusão social e a luta contra a miséria, que se transformaram em política de Estado em 2002 (essa iniciativa, de acordo com o IDHM da ONU, contribuiu para o Brasil crescer, entre 1991 e 2010, 47,5%, em média, nos itens expectativa de vida, renda per capita e matriculados em escolas); além das jornadas de junho, que provaram que o brasileiro é capaz de se mobilizar contra injustiças.

As condições de vida do brasileiro melhoraram, mas o problema é que isso se deu muito mais da porta da casa para dentro (geladeira nova, fogão última marca, reforma da casa, carro e moto na garagem, celular último tipo, acesso à internet, consumo de mais alimentação). Da porta da casa para fora vivemos verdadeiro inferno: falta esgoto, o trânsito não anda mas mata, a violência é cruel, a corrupção se disseminou, o transporte público virou lata de sardinha, o hospital não tem médico, a educação deseduca e desprestigia professores, a urbanidade é selvagem. Disso veio mal-estar, fonte de incertezas. Incertezas produzem medo. Medo gera insegurança. Insegura gera ansiedade, que desencadeia ira, fonte de intensa indignação. É neste estágio que nos encontramos hoje, tudo agravado por sensação de impotência.

No meu livro Por que estamos indignados? (Saraiva) mostro que tudo isso fez eclodir os movimentos populares por um Brasil mais justo, menos desigual e ético. O consumismo se revelou insuficiente porque o manifestante quer qualidade de vida. Descobriu que esta é a vida que vale a pena.

Luiz Flávio Gomes
Jurista

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