Há 20 anos a professora Marlei Taveira Cintra vem se dedicando à formação de crianças com necessidades especiais nas escolas. Sem enxergar nada, ela garante ter na mente a visão do que lhe é essencial. “Se pudesse nascer de novo, escolheria nascer cega. De que me valeria a luz dos olhos se me faltasse a luz da mente? Se não pudesse doar para os meus alunos o meu conhecimento, minha experiência?”.
Por questões genéticas, Marlei e suas irmãs, Marlene e Marilda, nasceram cegas. O fato, no entanto, não se mostrou um obstáculo insuperável para que as meninas crescessem de forma independente e produtiva. Hoje, Marilda é telefonista aposentada, Marlene dirige a Adevirp (Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto) e Marlei é professora. Ela foi escolhida pelo Comércio para representar os professores no mês em que se comemora o dia deles, 15 de outubro. Afinal, Marlei, antes de superar as dificuldades de comandar uma sala de aula, superou as próprias limitações.
Ela conta que essas possibilidades só lhes foram abertas graças ao estudo e à coragem dos seus pais, que abandonaram a vida no campo para que as filhas frequentassem escola em Franca. A mãe estudou apenas até a segunda série e o pai interrompeu os estudos no quarto ano. “Viemos para a cidade sem muita perspectiva, mas o desejo dos meus pais de lutar para que minhas irmãs e eu tivéssemos um futuro diferente, fez com que eles se arriscassem. Meu pai estava acostumado a viver na zona rural, carpir, colher e ficamos durante uma época aqui em Franca meio perdidos, com meu pai sem emprego. Mas logo ele aprendeu um ofício. Trabalhou por muitos anos na matizaria do Amazonas”.
A sede por conhecimento só cresceu e, não satisfeita em concluir o ensino médio, Marlei decidiu alçar vôos maiores; não apenas graduou-se em pedagogia no Centro Universitário Claretiano de Batatais, como pós graduou-se mais de uma vez em áreas como educação especial para deficientes visuais, intelectuais, autismo, com síndrome de Asperger, metodologia do ensino, entre outras. Atualmente, ela leciona para crianças com deficiência visual na Escola “José Mário Faleiros”, além de ministrar cursos de formação para professores de salas regulares. “Desde criança, eu sempre acreditei que nunca é tarde para ser feliz.”
O que a motivou a escolher o magistério?
O que me levou a ser professora foi o desejo que sinto, em meu coração, de ajudar as crianças que não enxergam a serem felizes. De ajudá-las a aprender a ler, a se desenvolverem e alçarem vôos mais altos que os meus. Quero ver essas crianças se tornando profissionais, se formando, dando seus próprios passos sem dependerem praticamente de ninguém. Quero que elas tenham seu salário próprio, sua independência. Foi esse desejo que me levou a abraçar essa profissão, essa missão.
Como foi o início de sua vida escolar?
Bom, minha família e eu morávamos na zona rural na época da minha infância. Um certo dia, a dona Edna, uma professora, foi visitar os meus pais porque uma tia, que a conhecia, contou que minhas irmãs e eu existíamos. Através dessa professora, descobri que crianças como eu também poderiam frequentar a escola e até mesmo aprender a ler. Meus pais, mesmo tendo pouca escolaridade, tinham consciência de que o estudo nos abriria portas; de que o estudo nos tornaria pessoas equilibradas, maduras, que pudessem não só ocupar um espaço na sociedade mas fazer jus a ele. Meus pais então vieram para a cidade com o objetivo de que nós pudéssemos estudar. Eu tinha 9 anos quando passei a frequentar a escola.
Fora a boa vontade dos professores, havia uma estrutura pedagógica para atender as necessidades suas e de suas irmãs naquela época?
A inclusão das pessoas cegas nas salas de aula existe em Franca desde 1966. Quando cheguei, fui encaminhada para aprender o braile, mas também frequentava as aulas da sala regular. Toda a lição que fazia, a professora Edna transcrevia em tinta para que a professora titular pudesse ter acesso à minha atividade.
E houve alguma dificuldade neste processo?
Naquela época muita gente achava que as crianças cegas tinham limitações intelectuais, o que não é verdade. As crianças cegas são inteligentes, têm o cognitivo preservado. Uma vez que são trabalhados os outros sentidos, elas podem suprir a ausência da visão e levar uma vida comum. Hoje as coisas estão mais fáceis. Se você matricula uma criança com necessidade especial, logo ela já vai para uma sala de recursos, tem amparo psicólogo, a Prefeitura dá transporte, assessoria... Naquela época não era assim. Tínhamos que abrir nossos caminhos.
Então você acredita que a educação no município está apta a lidar com as crianças deficientes?
Trabalho com crianças da educação infantil ao quinto ano da rede pública e percebo que ainda há muito o que se fazer. Mas a preocupação do município, hoje, é oferecer para essas crianças uma educação que atenda as necessidades individuais delas. Realizamos formações periodicamente e elas são de profunda importância, pois nos reciclam e possibilitam entender como trabalhar com cada deficiência. Até porque, pode aparecer em nossas salas de aula crianças com mais de uma necessidade especial. Os professores que convivem com essa diversidade em sala de aula, recebem o respaldo de professores de educação especial, como eu. Nos reunimos com frequência e conversamos sobre as dificuldades das crianças, procuramos caminhos e encontramos suporte para trabalhar essas dificuldades. É claro que esta tem de ser uma formação contínua e pode ainda ser aprofundada, mas estamos no caminho.
E por que é tão importante que um aluno com necessidade especial frequente as aulas ao lado das crianças ditas normais?
Porque o aprender junto é muito importante. As crianças com necessidades especiais, estando junto com outras crianças, ganham muito na socialização. Mas é um crescimento para ambas as partes, por exemplo: uma criança com paralisia cerebral que vê as crianças ditas normais se comportando de forma comum, brincando, sorrindo, conversando, se sente estimulada a agir da mesma forma. Nessa imitação do outro, elas se desenvolvem muito. Já as crianças ditas normais, aprendem a receber com naturalidade as com necessidades especiais. Sem tabu, sem resistência. Isso proporciona uma abertura social muito grande. Quando elas vão a ambientes como parque, shopping, os olhares passam a ser diferente. Acredito que essa convivência passa a direcionar o olhar da sociedade das dificuldades para as potencialidades das pessoas com necessidades especiais.
Você, como professora, já esteve à frente de uma sala regular?
Dei aulas em faculdade, em cursos de pós-graduação. De vez em quando me convidam para dar aulas em módulos de deficiência visual em alguns cursos, como psicologia, pedagogia, enfim. Todos os anos também faço um trabalho especial sobre inclusão com as crianças de salas regulares do Pestalozzi.
Não é atual a luta da classe docente por melhores condições de trabalho, mas, atualmente, as manifestações que ‘pipocaram’ no Rio de Janeiro ganharam respaldo em outros Estados, como São Paulo. Na sua opinião, com que medidas efetivas o governo pode promover essa valorização?
As salas ainda são muito numerosas, o que torna difícil o atendimento atento as dificuldades particulares dos alunos. Sem contar que sentir-se valorizado é um fator que permite ao professor trabalhar com maior afinco, disposição. Nós, professores, temos prazer em fazer o que fazemos, e não há dinheiro que pague ver um aluno desenvolvendo suas potencialidades, mas o professor precisa ser melhor remunerado. Uma menor carga de trabalho também permitiria ao professor ter mais tempo na preparação de aulas. Isso é realmente importante.
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