Um museu invisível


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Das quase 3 mil peças do acervo do Museu do Calçado, apenas 121 estão expostas, no espaço onde está instalado na Unifran
Das quase 3 mil peças do acervo do Museu do Calçado, apenas 121 estão expostas, no espaço onde está instalado na Unifran

Em uma pequena sala nas dependências da Unifran (Universidade de Franca), o Museu do Calçado “Miguel Sábio de Mello” encontra-se quase esquecido. Sua média de visitação, de 150 pessoas por ano, é ínfima, principalmente se comparada à média do Museu Histórico “José Chiachiri”, que atrai cerca de 700 pessoas em um único mês. A quantidade de peças expostas no Museu do Calçado também está abaixo da existente. Mesmo possuindo um acervo de cerca de 3 mil calçados, apenas 121 ficam à mostra. “Temos uma sala exclusiva para armazenar as peças que não estão expostas”, disse o chanceler da universidade, Clóvis Ludovice, sobre os artigos que não cabem no museu.

Nas últimas semanas, o Comércio esteve por duas vezes no memorial e, embora não tenha tido problema algum para realizar as visitas, constatou que o mesmo encontra-se sempre fechado, tendo o visitante que procurar na reitoria o funcionário responsável por monitorar sua passagem pelo local. Segundo Ludovice, a visitação é feita através de agendamento, por telefone, quando os interessados são escolas ou entidades. O público em geral pode ir à universidade de segunda à sexta-feira, das 8 às 11 horas e das 12 às 17 horas.

Dentro do ambiente, nota-se que as peças estão em bom estado, limpas e em expositores adequados. Ou seja, o Museu é muito bem cuidado pela Unifran. Mas todo esse cuidado e, principalmente, a riqueza histórica contida nas peças, são subaproveitados.

O único detalhe que deixa a desejar são as plaquetas de informação de cada peça, que contém poucos dados. Segundo o historiador e artista plástico Beto Monteiro, a situação nem sempre foi essa. “Quando o museu surgiu em 2001, por iniciativa da Regina de Mello, que quis homenagear o pai (Miguel Sábio de Mello), eu e outros profissionais ficamos responsáveis por pesquisar e contar a história de cada sapato.” Ainda de acordo com Beto, as descrições relacionavam as peças ao momento histórico e cultural que propiciaram seu surgimento. “Por exemplo, a plataforma surgiu com a ida do Homem à Lua. O astronauta precisava de um sapato de solado grosso para poder pisar no solo lunar. As peças tinham uma historiografia.”

Perguntado sobre esses documentos, Ludovice afirmou que estes nunca chegaram ao domínio da universidade. “Nós recebemos apenas o histórico básico das peças, com época e local em que foram criadas, nome dos doadores, informações básicas.”

Relevância
Entre as quase 3 mil peças do museu encontram-se muitas de outros países e doadas por celebridades, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o cantor Gilberto Gil, a apresentadora Adriane Galisteu e do papa João Paulo II (veja quadro).

Segundo o historiador e artista plástico Beto Monteiro, que participou do processo de elaboração do Museu do Calçado, muitos documentos de profundo valor histórico estão sob a guarda do memorial. “O governador Geraldo Alckmin doou, na inauguração, um inventário do primeiro sapateiro brasileiro. É um documento da década de 1630. É uma cópia, mas consta uma dedicatória de Alckmin.”

Ainda de acordo com Beto, correspondências de ex-presidentes, como Juscelino Kubitschek, também são patrimônios do museu. “Havia outros documentos, originais, como o telegrama do Adhemar de Barros (ex-governador) criando uma estrutura de marketing para lançar Franca como a maior produtora calçadista do país.”

O Comércio entrou em contato com a assessoria de marketing da Samello, mantenedora do Instituto Cultural Miguel Sábio de Mello, que detém os direitos reais sobre o museu, para saber onde estão esses documentos, mas a gerente do setor, Gilvana Soares, afirma não ter muitas informações sobre o espaço. “Sobre os documentos, quem saberia lhe informar melhor é a dona Regina (fundadora do museu), mas ela não tem como lhe atender neste momento. Procurei saber sobre estes documentos que você menciona, e obtive como resposta que estes não existiam.”

Além do subaproveitamento do espaço, a historiografia das peças, algo imprescindível para despertar interesse e curiosidade nos visitantes e oferecer conhecimento, simplesmente não existe. É válido salientar que incentivo a visitas escolares tiraria o museu da invisibilidade e proporcionaria aos estudantes um contato com a história do calçado.


Cronologia

• Outubro/2001 Por iniciativa da empresária Regina de Mello, da fábrica de sapatos Samello, o Museu do Calçado “Miguel Sábio de Mello” é inaugurado em Franca. A sede fica na rua Monsenhor Rosa, número 1.843, no Centro. O objetivo de Regina era homenagear seu pai, que dá nome ao museu.

• Maio/2007 Sob a responsabilidade da Unifran (Universidade de Franca), que o assume sob contrato de comodato com o Instituto Cultural Wilson Sábio de Mello, o museu se instala na rua Monsenhor Rosa, 1.611.

• Agosto/2011 A Unifran transfere o Museu para as dependências do campus, localizado na avenida Doutor Armando Salles Oliveira, 201, no Parque Universiário.

• Maio/2022 É o período previsto para o término do contrato entre a Unifran e o Instituto. Pelo acordo, a universidade ficará responsável pelo museu durante 15 anos, contados a partir de 2007.

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