Há três meses, a sapateira Ana Paula Câncio, 27, do Aeroporto, espera por uma resposta. Ela quer saber onde e como está seu filho Jonathan Matheus, que nasceu na Santa Casa há nove anos. A dúvida que a atormenta surgiu em julho, quando um exame de DNA comprovou que o bebê que ela enterrou em 2004 pensando ser seu filho, na verdade, nasceu de outra mulher.
Jonathan nasceu em 11 de outubro de 2004. Prematuro aos sete meses, foi levado para a UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) Pediátrica, onde ficou internado. “Eu ia vê-lo todos os dias. Os médicos diziam que ele estava se desenvolvendo bem.”
Oito dias depois do nascimento, poucos minutos após deixar a UTI, Ana recebeu uma ligação informando que seu filho havia morrido. “Não entendi nada. Tinha acabado de deixá-lo. O médico disse que ele receberia alta.”
Ela voltou para a Santa Casa. O corpo de Jonathan foi levado ao Instituto Médico Legal para exames. “Entrei em choque, não consegui vê-lo. Quem fez a identificação foi minha mãe.”
A avó levou um susto quando viu o bebê morto e percebeu que aquele não era seu neto. “O bebê era muito magrinho, tinha sinais de ter sido entubado, tinha bem mais cabelo que o meu filho e o umbigo dele também não havia cicatrizado”, contou Ana. A avó procurou os responsáveis para informar que o bebê não era o seu neto, mas foi ignorada. “Disseram que ela estava em choque e não queria ver a realidade.”
Sem velório, o bebê foi enterrado no Cemitério Santo Agostinho. Ana entrou em depressão profunda. Só voltou ao normal ao receber a notícia de que estava grávida. “Mas minha mãe nunca esqueceu. Ela anotou todas as diferenças que encontrou e vivia me atormentando para que pedisse o exame de DNA. Eu achava que era loucura da parte dela, porque histórias assim só acontecem em novelas.”
Exames
Seis anos se passaram até que um telefonema do cemitério informando que os restos mortais do bebê seriam retirados do túmulo fez com que Ana procurasse um advogado para solicitar o exame. “Minha mãe disse que se não fizesse nada, não teria outra chance e viveria com esta dúvida. Sempre achei que meu filho estava morto. Procurei um advogado para ela ficar em paz.”
O corpo do bebê foi exumado em 2010. A autorização judicial para a realização do exame só veio três anos depois, em fevereiro deste ano. Os ossos ficaram guardados no IML. Com a autorização, foram levados para exame de DNA na Unesp em Araraquara. O resultado veio em julho.
Ana não acreditou quando seu advogado Matheus Silvestre Veríssimo a informou que o bebê que ela havia enterrado há nove anos não era seu filho. “Não conseguia entender o que ele estava dizendo. Não podia ser verdade. Como assim? Como aquele bebê não era o Jonathan?”
Mais calma, Ana não conseguiu comemorar o resultado. “Até hoje é uma mistura de emoções. Hoje sei que meu filho não é aquele bebê morto, mas ao mesmo tempo não sei onde ele está nem como tem sido tratado. Não o conheço.”
Suspeitas
Para Ana, o mais provável é que seu filho tenha sido trocado na maternidade. “Eu me lembro de que quando fui visitá-lo, no dia em que fui informada da morte, existia um menino com as características do que morreu ao lado do meu filho. Pode ser que tenham trocado os dois.”
Ana procurou a Santa Casa para. “Como minha mãe não parava de falar neste assunto, fomos lá no hospital. Uma comissão de advogados nos recebeu. Disseram que estávamos com problemas psicológicos e nos encaminharam para a Unifran.”
Ao receber o resultado do exame, Ana procurou novamente o hospital para tentar encontrar seu filho, mas sem sucesso. “Descobri que naquele dia havia outros sete bebês internados. Quero saber se algum deles não é o meu filho. Eu tenho o direito de, pelo menos, conhecê-lo.”
O processo movido por Ana contra a Santa Casa corre em segredo de Justiça, por isso, a reportagem não teve acesso ao seu conteúdo. Segundo o advogado de Ana, não há prazo para que o juiz dê uma sentença. “Ao saber do resultado, a Santa Casa pediu uma contraprova. O caso ainda está em aberto”, disse Veríssimo.
Na Santa Casa, a orientação é para não comentar o assunto. Por nota, a assessoria de imprensa do hospital disse que “a instituição esclarece que está adotando as providências necessárias para apuração dos fatos e que até o momento não há nenhum resultado definitivo ou qualquer decisão judicial.”
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.