Cena um: palestrei no Congresso do Saber do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de São Paulo. Tomei um susto. Os corredores do Centro de Convenções Imigrantes estavam tomados por milhares de educadores, 95% mulheres... No entanto, de 46 ministros da Educação, desde 1930, apenas uma mulher: Esther de Figueiredo Ferraz.
Cena dois: fui palestrar para grande escritório de advocacia de São Paulo. Quando as portas se abriram, a proporção era de dez mulheres para cada homem. Perguntei. “É que elas é que passam nos testes de seleção”.
Cena três: palestrei na Bahia para o Boticário. Eram 1,3 mil mulheres reagindo com energia às apresentações da nova linha de produtos. Fui tratar com o pessoal “da ténica” e encontrei uns 30 ogros responsáveis pela estrutura de imagem, som e luz. Dirigindo, uma mulher. Seu braço direito, outra mulher.
Cena quatro: estive com a Chevrolet realizando eventos pelo Brasil. Cuidando de tudo, Regina. Dava ordens, tratava da logística, recepção, brindes, equipamentos, da minha hospedagem. Nos bastidores, outra mulher, Natália. Impecáveis. Cena cinco: Angela Merkel acaba de vencer as eleições legislativas na Alemanha, terceiro mandato à frente da maior economia europeia.
São situações em que mulheres ocupam espaços, seja pela capacitação ou reunião de atributos que as fazem ideais para as posições. Nas quatro que me envolvi, tratei com homens apenas assuntos estratégicos. Quem colocou o circo em pé foram elas. Sem ironia...
Que diferença dos tempos em que comecei, final dos anos setenta. Foram chegando devagarinho, sérias, compenetradas, dispostas a sacrifícios, detalhistas, duras nas negociações. O mundo mudou com elas e por causa delas, e foi para melhor. Logo estarão ocupando o lugar dos homens também nas decisões estratégicas. É por isso que ainda tenho esperança. Mas por que será que elas continuam não dando passagem pra gente no trânsito?
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrantente, cartunista
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