Atingir o estágio de segurança energética é um desafio a que se propõe o governo estadual para os próximos anos. A meta é não depender tanto do fornecimento das hidrelétricas e térmicas. Isso só será possível por meio do incremento de fontes alternativas na matriz energética, ao mesmo tempo em que, por tabela, fontes limpas e renováveis baixam a emissão de gases do efeito estufa. Do cenário de riscos e escassez atual, em que falta água nos reservatórios para tocar as usinas, o secretário da pasta, José Aníbal, enxerga um horizonte otimista para a economia de todas as regiões do Interior Paulista especialmente devido à bioenergia produzida a partir do bagaço e palha de cana-de-açúcar. “Há uma efervescência no Estado em matéria de geração de energia equivalente ao que houve nos anos 60 e 70 com as hidrelétricas”, diz ele.
Em entrevista à Rede APJ (Associação Paulista de Jornais), da qual o Comércio faz parte, Aníbal acusa falta de planejamento estratégico no País no setor energético, critica a gestão da Petrobras, defende a fixação de preço real à gasolina para tornar o etanol mais competitivo, e afirma que a competitividade da indústria depende da disponibilidade de energia e não necessariamente do seu custo. Segue a íntegra da entrevista:
Qual a prioridade no setor energético paulista?
A segurança energética de São Paulo. A Grande São Paulo gera 66% do ICMS do Estado. O Estado gera 45% do IPI e do IR do Brasil, os dois maiores impostos do governo federal. Imagine se interromper o fornecimento de energia. Eu cheguei na secretaria em janeiro de 2011 e em fevereiro teve o apagão, impacto enorme em 630 mil unidades consumidoras. Depois aconteceram outras interrupções de energia, um desastre.
Como é possível se chegar à segurança energética?
Tendo alternativas para situações como a que estamos vivendo hoje, de escassez de água. Estamos lidando com reservatórios que não estão se recompondo adequadamente. Isso faz com que se use a capacidade de geração reserva nas térmicas. Neste momento, o governo está mandando todas as térmicas gerarem, estão gerando o equivalente a uma Itaipu. Uma energia cara, o preço vai lá para cima, é de três a quatro vezes acima do preço médio e está gerando por mais tempo que seria razoável. Queremos que o conceito se amplie. Além das térmicas, também as renováveis. A segurança energética seria estimular, fortemente mesmo, as fontes alternativas e renováveis de energia. O Brasil não pode ficar mais a mercê. Cerca de 80% de nossa energia no país é hídrica. No Nordeste, a geração está bem limitada porque os reservatórios estão no limite. Todas as térmicas estão funcionando e o Sudeste está mandando energia para o Nordeste, mas também o Sudeste e o Centro-Oeste não estão com essa bola toda em matéria de água.
São Paulo depende de energia externa?
Metade da energia que São Paulo consome é gerada aqui e a outra metade vem de fora, é uma rede nacional, hidrelétricas integradas. O operador sabe onde está sendo gerado e consumido por isso vai fazendo solicitação de despacho técnico, manda as térmicas funcionarem para garantir a segurança energética. Mas as térmicas são caras e poluentes.
E a pretendida competitividade da indústria, depende das fontes renováveis?
Sem a energia térmica a esse preço de 3 a 4 vezes maior, e isso vai para a conta de um modo ou de outro, poderíamos estar gerando energias renováveis cujo preço é um terço. O governo precisa de uma política ousada, estimular a co-geração de energia com bagaço e palha de cana, resíduo sólido urbano e eólica. Não pode se acomodar. Há uma expectativa de que nós vamos ter daqui por diante um regime integral de chuvas no Brasil. Pelo contrário. Essa é uma visão pouco ativa, onde o planejamento energético é escasso.
A indústria então está no gargalo?
Não, mas o preço da energia é alto, embora isso tudo seja muito relativo. A energia da Alemanha é muito mais cara do que no Brasil e é competitiva. O governo reduziu o preço da energia para a indústria, melhorou a competitividade? Nenhum sinal. Não houve impactos que se possa aferir. Tancredo Neves já dizia: a energia mais cara é aquela que você não tem.
E a política nacional no que interfere no panorama da energia paulista?
Interfere que o governo não faz o planejamento adequado. Faz por impulso. Não tem planejamento estratégico. Não tem isso aqui (mostrando catálogos da Secretaria), um plano para 2020 e que foi feito com a participação de especialistas. Os investidores querem investir no Brasil, sabem do nosso potencial, mas têm muitas preocupações em relação à regulação e questão jurídica.
E o Plano Paulista de Energia, qual é o foco?
São Paulo tem a Política Estadual de Mudanças Climáticas aprovada na Assembleia em 2009 que determina que em 2020 o estado vai emitir menos 20% de gases de efeito estufa do que em 2005. Fará isso limpando a matriz energética, que já é renovável hoje em torno de 56%, e passará a ser de 69%. No mundo, esse índice é de 12,5% e no Brasil, 45%. Qual é o nosso propósito? Primeiro, estimular fortemente a geração de energia com fontes renováveis. O que não é renovável é fóssil: petróleo, gás, carvão mineral.
E qual é o caminho para a energia renovável?
A principal fonte renovável hoje no Estado são os produtos da cana: 33,5% de toda energia de São Paulo. Em 2020, queremos chegar a 46% da cana na matriz energética e o petróleo que hoje é de 36% cai para 20%. Espero aumentar outros renováveis, como o solar, eólica, resíduo sólido urbano, mas a cana é o ponto forte. Estamos fazendo o biogás (gás da vinhaça).
O impacto dessa renovação será sentido em todas as regiões?
Prevemos que a co-geração de energia com o bagaço e palha de cana vá de 5 mil Mega Watt hoje para 13 mil Mega Watt em 2020, uma Itaipu. Investimentos de R$ 30 bilhões. Sim, (o programa) vai ser feito no estado inteiro. Vai gerar empregos e uma demanda forte sobre o setor que fornece equipamentos, que se concentra em São Paulo. Todas as regiões, com exceção do Vale do Paraíba e do Vale do Ribeira, têm usinas de açúcar e de álcool.
E qual o cenário que se vislumbra para o Interior como um todo?
A expectativa é de um novo momento da geração de energia em São Paulo. Vamos ter muitos investimentos em energia eólica, fotovoltaica, co-geração com bagaço e palha de cana, etanol de segunda geração, retirada do biogás da vinhaça, biodiesel, açúcar para a produção e algas que vão gerar óleos. Sobre isso, tem planta na região de Rio Preto, com tecnologia americana.
E o pré-sal, qual é a expectativa no contexto da energia em São Paulo?
Esperamos muito do ponto de vista da renda. São Paulo não quer que o pré-sal seja uma maldição do petróleo, com um riqueza extraordinária e que não gere impacto positivo na população. Ao contrário, precisa melhorar a renda. O governador está fazendo uma série de investimentos em Santos e Guarujá, inclusive em planos habitacionais, porque há um aumento da população e por isso têm os royalties, sobretudo nos municípios confrontantes. Tem que ter mais saúde, educação, habitação, saneamento, logística. A tendência é que a partir de 2016 a atividade do pré-sal na Bacia de Santos no Estado de São Paulo se acelere e São Paulo passe a ter uma produção expressiva de petróleo em 2020, talvez da ordem de 600 mil a 800 mil barris/dia. SP já é hoje responsável por 45% da receita da Petrobras no Brasil. Temos um terço da frota, os modais funcionando, maior estado consumidor de gás.
Qual a perspectiva do etanol?
A expectativa é que se multiplique a produção. Segundo o professor Cerqueira Leite em artigo, o país pode produzir 120 bilhões de litros; hoje produz de 16 a 17 bilhões e quer chegar a 20 a 23 bilhões. É um problema de investimento. Que a Petrobras, e o governo brasileiro seu acionista majoritário, permitam que se pratique o preço de mercado da gasolina e não faça a alucinação do subsídio que custa R$ 1 bilhão à Petrobras e atrapalha o setor de açúcar e álcool.
O setor sucroenergético está preparado para expansão se necessária?
Sim, amadureceu muito. Hoje há empreendedores investidores. A Petrobras inclusive participa junto com uma cooperativa da França. Somadas, têm 7% da produção de álcool e açúcar de São Paulo. A produção vai expandir. É só o governo mudar a política em relação à gasolina. Hoje importa por 10 e vende por 8. Teria que vender por pelo menos o preço que pagou, ou 10,2. Com isso, daria mais competitividade ao etanol. O governo está usando a Petrobras para tentar segurar a inflação. Claro, isso sacrifica a empresa.
O sr. é um crítico em relação à Petrobras?
O governo tem errado muito com relação à Petrobras. Não adianta dizer que é oposição, isso é conversa fiada. Todas as petroleiras do mundo tiveram uma valorização nos últimos seis a sete anos de 70% a 80%. A Petrobras teve uma desvalorização equivalente de 70% a 80%. Chegou a valer US$ 300 bilhões ou mais; hoje vale de US$ 90 bilhões a US$ 100 bilhões.
Se subir o preço da gasolina, o etanol dá conta da demanda?
Talvez não dê, mas rapidamente, se for uma política transparente e confiável, o setor vai reagir. Em 2011 e 2012, o setor começou a fazer mais açúcar do que etanol. Então, podem produzir mais etanol e rapidamente crescer. As culturas de cana-de-açúcar são anuais. Amplia a área plantada, aumenta a produtividade que é um processo contínuo. A quantidade que se tira de açúcar e álcool por hectare cresce a cada ano.
Qual a prioridade no setor energético paulista?
A segurança energética de São Paulo. A Grande São Paulo gera 66% do ICMS do Estado. O Estado gera 45% do IPI e do IR do Brasil, os dois maiores impostos do governo federal. Imagine se interromper o fornecimento de energia. Eu cheguei na secretaria em janeiro de 2011 e em fevereiro teve o apagão, impacto enorme em 630 mil unidades consumidoras. Depois aconteceram outras interrupções de energia, um desastre.
Tendo alternativas para situações como a que estamos vivendo hoje, de escassez de água. Estamos lidando com reservatórios que não estão se recompondo adequadamente. Isso faz com que se use a capacidade de geração reserva nas térmicas. Neste momento, o governo está mandando todas as térmicas gerarem, estão gerando o equivalente a uma Itaipu. Uma energia cara, o preço vai lá para cima, é de três a quatro vezes acima do preço médio e está gerando por mais tempo que seria razoável. Queremos que o conceito se amplie. Além das térmicas, também as renováveis. A segurança energética seria estimular, fortemente mesmo, as fontes alternativas e renováveis de energia. O Brasil não pode ficar mais a mercê. Cerca de 80% de nossa energia no país é hídrica. No Nordeste, a geração está bem limitada porque os reservatórios estão no limite. Todas as térmicas estão funcionando e o Sudeste está mandando energia para o Nordeste, mas também o Sudeste e o Centro-Oeste não estão com essa bola toda em matéria de água.
Metade da energia que São Paulo consome é gerada aqui e a outra metade vem de fora, é uma rede nacional, hidrelétricas integradas. O operador sabe onde está sendo gerado e consumido por isso vai fazendo solicitação de despacho técnico, manda as térmicas funcionarem para garantir a segurança energética. Mas as térmicas são caras e poluentes.
Sem a energia térmica a esse preço de 3 a 4 vezes maior, e isso vai para a conta de um modo ou de outro, poderíamos estar gerando energias renováveis cujo preço é um terço. O governo precisa de uma política ousada, estimular a co-geração de energia com bagaço e palha de cana, resíduo sólido urbano e eólica. Não pode se acomodar. Há uma expectativa de que nós vamos ter daqui por diante um regime integral de chuvas no Brasil. Pelo contrário. Essa é uma visão pouco ativa, onde o planejamento energético é escasso.
Não, mas o preço da energia é alto, embora isso tudo seja muito relativo. A energia da Alemanha é muito mais cara do que no Brasil e é competitiva. O governo reduziu o preço da energia para a indústria, melhorou a competitividade? Nenhum sinal. Não houve impactos que se possa aferir. Tancredo Neves já dizia: a energia mais cara é aquela que você não tem.
Interfere que o governo não faz o planejamento adequado. Faz por impulso. Não tem planejamento estratégico. Não tem isso aqui (mostrando catálogos da Secretaria), um plano para 2020 e que foi feito com a participação de especialistas. Os investidores querem investir no Brasil, sabem do nosso potencial, mas têm muitas preocupações em relação à regulação e questão jurídica.
São Paulo tem a Política Estadual de Mudanças Climáticas aprovada na Assembleia em 2009 que determina que em 2020 o estado vai emitir menos 20% de gases de efeito estufa do que em 2005. Fará isso limpando a matriz energética, que já é renovável hoje em torno de 56%, e passará a ser de 69%. No mundo, esse índice é de 12,5% e no Brasil, 45%. Qual é o nosso propósito? Primeiro, estimular fortemente a geração de energia com fontes renováveis. O que não é renovável é fóssil: petróleo, gás, carvão mineral.
A principal fonte renovável hoje no Estado são os produtos da cana: 33,5% de toda energia de São Paulo. Em 2020, queremos chegar a 46% da cana na matriz energética e o petróleo que hoje é de 36% cai para 20%. Espero aumentar outros renováveis, como o solar, eólica, resíduo sólido urbano, mas a cana é o ponto forte. Estamos fazendo o biogás (gás da vinhaça).
Prevemos que a co-geração de energia com o bagaço e palha de cana vá de 5 mil Mega Watt hoje para 13 mil Mega Watt em 2020, uma Itaipu. Investimentos de R$ 30 bilhões. Sim, (o programa) vai ser feito no estado inteiro. Vai gerar empregos e uma demanda forte sobre o setor que fornece equipamentos, que se concentra em São Paulo. Todas as regiões, com exceção do Vale do Paraíba e do Vale do Ribeira, têm usinas de açúcar e de álcool.
A expectativa é de um novo momento da geração de energia em São Paulo. Vamos ter muitos investimentos em energia eólica, fotovoltaica, co-geração com bagaço e palha de cana, etanol de segunda geração, retirada do biogás da vinhaça, biodiesel, açúcar para a produção e algas que vão gerar óleos. Sobre isso, tem planta na região de Rio Preto, com tecnologia americana.
Esperamos muito do ponto de vista da renda. São Paulo não quer que o pré-sal seja uma maldição do petróleo, com um riqueza extraordinária e que não gere impacto positivo na população. Ao contrário, precisa melhorar a renda. O governador está fazendo uma série de investimentos em Santos e Guarujá, inclusive em planos habitacionais, porque há um aumento da população e por isso têm os royalties, sobretudo nos municípios confrontantes. Tem que ter mais saúde, educação, habitação, saneamento, logística. A tendência é que a partir de 2016 a atividade do pré-sal na Bacia de Santos no Estado de São Paulo se acelere e São Paulo passe a ter uma produção expressiva de petróleo em 2020, talvez da ordem de 600 mil a 800 mil barris/dia. SP já é hoje responsável por 45% da receita da Petrobras no Brasil. Temos um terço da frota, os modais funcionando, maior estado consumidor de gás.
A expectativa é que se multiplique a produção. Segundo o professor Cerqueira Leite em artigo, o país pode produzir 120 bilhões de litros; hoje produz de 16 a 17 bilhões e quer chegar a 20 a 23 bilhões. É um problema de investimento. Que a Petrobras, e o governo brasileiro seu acionista majoritário, permitam que se pratique o preço de mercado da gasolina e não faça a alucinação do subsídio que custa R$ 1 bilhão à Petrobras e atrapalha o setor de açúcar e álcool.
Sim, amadureceu muito. Hoje há empreendedores investidores. A Petrobras inclusive participa junto com uma cooperativa da França. Somadas, têm 7% da produção de álcool e açúcar de São Paulo. A produção vai expandir. É só o governo mudar a política em relação à gasolina. Hoje importa por 10 e vende por 8. Teria que vender por pelo menos o preço que pagou, ou 10,2. Com isso, daria mais competitividade ao etanol. O governo está usando a Petrobras para tentar segurar a inflação. Claro, isso sacrifica a empresa.
O governo tem errado muito com relação à Petrobras. Não adianta dizer que é oposição, isso é conversa fiada. Todas as petroleiras do mundo tiveram uma valorização nos últimos seis a sete anos de 70% a 80%. A Petrobras teve uma desvalorização equivalente de 70% a 80%. Chegou a valer US$ 300 bilhões ou mais; hoje vale de US$ 90 bilhões a US$ 100 bilhões.
Talvez não dê, mas rapidamente, se for uma política transparente e confiável, o setor vai reagir. Em 2011 e 2012, o setor começou a fazer mais açúcar do que etanol. Então, podem produzir mais etanol e rapidamente crescer. As culturas de cana-de-açúcar são anuais. Amplia a área plantada, aumenta a produtividade que é um processo contínuo. A quantidade que se tira de açúcar e álcool por hectare cresce a cada ano.
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