Confusões e discussões deixam Alexandre ilhado na Prefeitura


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Prefeito Alexandre Ferreira, prestes a completar nove meses de mandato, protagoniza atritos com empresários, vereadores e servidores
Prefeito Alexandre Ferreira, prestes a completar nove meses de mandato, protagoniza atritos com empresários, vereadores e servidores

Os acontecimentos da última semana são emblemáticos do clima atual do governo Alexandre Ferreira (PSDB). Perto de completar nove meses de mandato, o chefe do Executivo francano nunca esteve tão isolado. Seu temperamento difícil, a falta de amadurecimento político e de traquejo no trato com polêmicas são alguns dos motivos apontados para explicar seu isolamento. Até os mais próximos não escondem mais o descontentamento com a forma com que Alexandre vem conduzindo a administração municipal. A discussão com o presidente da Acif (Associação do Comércio e da Indústria de Franca), José Alexandre, envolvendo o veto do prefeito ao projeto aprovado pela Câmara Municipal para aumentar as exigências feitas às feiras itinerantes mostra o tratamento que Alexandre tem dispensado aos seus antigos apoiadores. José Alexandre foi um dos articuladores do apoio da maçonaria à campanha de Ferreira.

Fiel a seu estilo “faço e arrebento”, o prefeito não dedicou nem meio segundo de seu tempo para entender o posicionamento do presidente da Acif. Ao contrário, partiu para o ataque. Ao ser questionado durante o programa Hora da Verdade, na rádio Difusora, sobre a razão de não atender o empresário para discutir o assunto, provocou e reagiu com aspereza: “Pergunta para ele (José Alexandre, da Acif) o que ele estava fazendo na tarde do dia 15 de setembro, mais precisamente às 15 horas.”

Conhecido por sua diplomacia, José Alexandre não aguentou e ligou para a rádio para responder. “Estava dormindo”. A resposta desconcertou o prefeito e não traduzia nenhuma vagabundagem por parte do líder empresarial. “15 de setembro foi um domingo e costumo tirar um cochilo sempre depois do almoço em família”, explicou o empresário. Alexandre Ferreira se calou. Mais tarde, em uma nota enviada à imprensa, deu mais um exemplo de como lida com seus próprios equívocos. Na nota, o prefeito não fez nenhum pedido de desculpas ou mea culpa. Apenas uma curta afirmação atribuindo o erro de data à sua assessoria. O episódio ainda não foi digerido nem pelos empresários nem pela maçonaria à qual ambos são ligados.

Com os vereadores, Alexandre conseguiu descontentar até suas lideranças Adérmis Marini (PSDB), líder do governo, e Valéria Marson (PSDB), líder do partido. Adérmis foi o principal articulador da luta para estimular a doação de medula. Durante mais de 20 dias, tentou marcar uma reunião com o prefeito para pedir seu apoio a uma caminhada que marcaria a abertura da Semana Ana Laura, no último domingo. Alexandre se recusou a recebê- lo. Em uma derradeira tentativa, Adérmis foi pessoalmente ao Gabinete na sexta-feira que antecedeu ao evento. De novo, não foi recebido. Ouviu de assessores que Alexandre não participaria da caminhada e não poderia dar qualquer tipo de apoio à iniciativa. De fato, o prefeito não compareceu, mas não deixou de enviar um caminhão de som com propagandas de seu governo. O veículo acabou expulso do evento.

Agora Adérmis promete retribuir a “gentileza” do prefeito. Na sessão da Câmara desta terça-feira, em que os vetos do prefeito serão votados pelos vereadores, Franca terá uma cena inusitada no meio político. Aquele a quem caberia o papel de defensor de Alexandre e do seu posicionamento será o maior articulador em contrário. Para os companheiros do Legislativo, Adérmis já informou que irá trabalhar contra Alexandre.

Com Valéria Marson, adversária de Alexandre na disputa das prévias do PSDB, o estopim foi o veto do prefeito ao projeto de autoria da vereadora que permitia aos ambulantes da cidade manter as barracas montadas nas praças em finais de semana e feriados. “Fui pega de surpresa. Só fiz o projeto porque ele não fez. Vou lutar contra esse veto”, disse.

Servidores
Além dos políticos e empresários, o prefeito também perdeu a simpatia que os servidores da educação, em especial as professoras, nutriam por ele. Tudo começou com a onda de protestos que tomou conta do País em maio. O próprio Alexandre, nas redes sociais e em declarações à imprensa, estimulou a movimentação. Chegou a discutir com assessores se deveria participar das manifestações. Foi desaconselhado. Seus secretários seguiram o exemplo e também apoiaram os protestos nas ruas. Um deles foi a jovem secretária municipal de Educação, Fabiana Sampaio. Num email enviado à toda rede, ela liberou os professores para participarem de uma passeata. Cerca de 300 compareceram à manifestação. Dias depois receberam a amarga informação de que teriam o dia de trabalho e os benefícios referentes à assiduidade descontados. A ordem partiu do prefeito Alexandre Ferreira. Ele desautorizou a dispensa feita por Fabiana e determinou que o desconto fosse feito. A chiadeira foi geral. Desde então, Fabiana evita opinar publicamente sobre qualquer assunto.

Até mesmo na pasta que chefiou durante anos, Alexandre ganhou desafetos. No início de setembro, determinou que a Secretaria de Saúde colocasse em operação o controle de ponto eletrônico, forçando profissionais, principalmente no corpo de enfermagem, a cumprir a jornada completa de 40 horas semanais e não 30. A medida parece lógica, já que os servidores cumpririam a jornada pela qual foram contratados. Apenas um “detalhe” foi ignorado pelo prefeito: há 23 anos vigora nos quadros da Prefeitura um acordo feito entre as sucessivas administrações (Ary Pedro Balieiro, Maurício Sandoval, Gilmar Dominici e Sidnei Rocha) e os servidores para que pudessem trabalhar seis horas diárias. Não houve nenhum diálogo ou prazo para adaptação. A medida foi imposta goela abaixo. Mais uma vez, a administração Ferreira foi alvo de protestos.

Para tentar amenizar o clima de distanciamento com a população e melhorar sua imagem desgastada, na semana passada, o prefeito anunciou a criação de um programa em que os secretários municipais serão obrigados a atender a população nos bairros. Com seu secretariado formado quase que exclusivamente por servidores técnicos, a medida desagradou e tem sido alvo de críticas. O motivo: o medo de serem desautorizados e cobrados por informações que, mais tarde, podem ser rechaçadas pelo prefeito. Ninguém quer fazer papel de ridículo.

O mentor esquecido
Para os mais próximos, boa parte das confusões protagonizadas por Alexandre poderiam ter sido evitadas se seu mentor político, o ex-prefeito Sidnei Rocha, ainda fizesse parte do seu grupo de conselheiros. Ambos se distanciaram logo após a posse de Alexandre. Os reais motivos só os dois conhecem.

O fato é que Alexandre só foi eleito por ter sido escolhido por Sidnei como seu sucessor. O ex- prefeito não apenas deu seu aval à candidatura de Ferreira como participou ativamente da campanha eleitoral, protagonizando quase todos os programas do horário eleitoral do PSDB. Só não foi aos debates no lugar de Alexandre porque a legislação eleitoral não permite.

Pouco mais de um mês depois de empossado, com os escândalos das obras do viaduto e dos contratos com a Empresa São José, Alexandre passou a se referir a Sidnei Rocha como “o prefeito anterior”. Sidnei rebateu e, em suas declarações públicas, se referia a Alexandre como “o outro prefeito”. O que se sabe é que os dois nunca estiveram tão distantes. Ainda que publicamente se esforcem para demonstrar alguma afinidade, nos bastidores políticos a ruptura é clara.

Em sua maioria, as desavenças e discussões de Alexandre parecem derivar de sua total falta de traquejo e sensibilidade. “Ele não ouve ninguém. Faz tudo do seu jeito e nunca admite que errou”, disse um assessor de alto escalão.

Outro companheiro que ganhou intimidade durante a campanha eleitoral diz que falta ao prefeito experiência política. “Ele quer ser um Sidnei Rocha sem os anos de política e a inteligência do ex-prefeito.”

Os mais próximos apontam a falta de humildade como característica que pouco contribui para um clima mais sereno do chefe do Executivo. “Ele nunca ouve nossas críticas e sugestões”, reclamou um vereador do grupo aliado.

Difícil para todos é saber qual será o futuro da administração Alexandre Ferreira. Até onde se pode perceber nem mesmo o prefeito parece saber. Mas uma frase tem sido repetida a exaustão. “Ninguém governa sozinho.”

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