'Era minha única filha, minha companheira, tudo pra mim'


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A pensionista Nilva Garcia de Campos se emociona ao falar da morte da filha Sara Cristina, de apenas 13 anos, que foi atropelada na avenida Brasil, no Jardim Paulistano, na semana passada
A pensionista Nilva Garcia de Campos se emociona ao falar da morte da filha Sara Cristina, de apenas 13 anos, que foi atropelada na avenida Brasil, no Jardim Paulistano, na semana passada

A morte da estudante Sara Cristina Garcia Souza, 13, atropelada por um motorista supostamente embriagado no começo da noite de domingo, 22, comoveu os francanos na última semana. A população se demonstrou solidária à dor da família e indignada com a legislação brasileira - ele foi solto 48 horas depois do acidente. Enlutados, a mãe de Sara e outros familiares da adolescente concederam entrevista exclusiva ao Comércio, na quinta-feira. Eles disseram que decidiram falar com a imprensa para alertar as pessoas sobre a tragédia que a combinação álcool e volante pode gerar na vida de uma família. A mãe da vítima, a pensionista Nilva Garcia de Campos, 55, que quase foi atropelada também, afirma que o motorista Márcio Adriano Pacheco, 31, estava bêbado.

Os familiares receberam a reportagem na casa da tia da garota, no bairro Nova Franca. Desde o último domingo, Nilva convive com dois sentimentos ambíguos: o fato de ter renascido ao sobreviver ao acidente e o luto com a morte da filha Sara. Nilva descreve detalhes sobre o acidente, o estado de embriaguez do condutor, o desespero ao saber da morte da filha e o “vazio” depois do sepultamento. Mãe e filha conversavam com uma vizinha ao lado na avenida Brasil. A adolescente percebeu a aproximação do Hyundai i30 conduzido por Márcio Pacheco e, em um ato de coragem e reflexo, empurrou a mãe para a calçada. O retrovisor do carro se prendeu à mochila da menina, arrastando-a por cerca de dez metros do local do impacto. “Era para o carro ter pegado em mim e não nela. Estávamos de braços dados, mas ela se soltou. Escutei um barulho muito grande e depois vi minha filha rolando atrás do carro. Corri e gritei para ele: ‘Cara, você matou a minha filha’. Ele desceu com as mãos na cabeça, trançando as pernas e perguntou o que havia feito. Estava bêbado... Ela morreu nos meus braços.” Márcio não quis dar entrevista sobre o caso, mas seu irmão aceitou falar (leia ao lado).

Sara foi socorrida pelos Bombeiros até a Santa Casa, mas morreu pouco tempo depois, com traumatismo craniano. “Os médicos me disseram que ela já estava com morte cerebral e que só o coração estava batendo, mas bem fraquinho. Era minha única filha mulher, minha companheira, era tudo para mim. Ela dizia que quando crescesse seria jornalista e veterinária”, disse Nilva, que é mãe de outros três filhos e morava sozinha com a garota no Jardim Paulistano.

A comerciante Cleusa Campos, 53, tia de Sara, foi quem manteve mais contato com a família de Pacheco. “Eles também estão tristes com tudo que aconteceu, inclusive ajudaram a pagar as despesas do funeral. A mãe do Márcio (motorista) me ligou perguntando se poderia ir até o velório e dar um abraço na Nilva. Disse que podia vir sem medo. Não somos pessoas que queremos resolver nada com as próprias mãos, somente através da Justiça, mas essa está falhando muito com a gente”, desabafou a comerciante. “A Sara foi um anjo aqui na terra, salvando a mãe dela do acidente. Hoje ela é o nosso anjo lá no céu. Espero que ela seja o anjo que proteja o Márcio (motorista) para que agora ele dirija com responsabilidade e não tire mais vidas”.

Batalha Jurídica
Márcio foi acusado de homicídio doloso (quando há intenção de matar) e preso, mas foi solto em 48 horas. À Justiça, Márcio Cunha, advogado de defesa, apresentou, entre outros argumentos para que fosse solto o fato de Pacheco ter residência fixa e ocupação conhecida, a falta de laudo que comprovasse a embriaguez e o fato do flagrante não ter nenhum critério que justificasse o dolo, ou seja, a intenção de matar.

O advogado Fernando Jaiter Duzzi, assistente de acusação, disse que todas as alegações são pertinentes, exceto a falta de laudo. Ele disse que após conseguir a condenação, pretende entrar com um pedido de indenização contra o motorista.

Durante o flagrante realizado no Plantão Policial, a delegada Cristina Bueno de Oliveira solicitou a presença de um médico legista para coleta de amostra de sangue do condutor para comprovar a quantidade de álcool em seu organismo. O laudo deverá ser anexado ao processo nos próximos dias.

A acusação acredita que o relato de testemunhas que estiveram no local dos fatos e que confirmaram em boletim de ocorrência que o motorista estava embriagado sejam suficientes para configurar o crime de trânsito. Depõe contra o motorista a operadora de caixa Elaine Gimenes, 27. Ela estava com Pacheco minutos antes do acidente e no depoimento que inicialmente prestou a policiais militares afirmou que após deixarem um rancho em Rifaina, dirigiu o carro do amigo porque ele havia bebido.

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