Não imaginava encontrar sob a forma de princípio político o ato de a mãe dar, diretamente do seu corpo, o alimento ao filho: amamentá-lo. Cuidar do peito durante a gestação, cuidar para que ele permaneça hidratado, ter a paciência necessária, driblar os empecilhos da vida moderna para ainda assim alimentar o próprio filho são atos que ainda hoje diferenciam uma mulher da outra. Do prazer ao detestar, dar o peito ao filho deve sobrepor-se à obrigação de fazer o bem a quem se quer tão bem, o próprio filho.
Mas vamos ao ato político, republicano, que chamou minha atenção. Um dos princípios dos revolucionários líderes da sangrenta Revolução Francesa tinha mais a ver com as suas companheiras do que com eles próprios. As cartas deixadas por Elisabeth Le Bas (mulher de Philippe Le Bas, homem forte de Robespierre) nos conta que, antes de ser pedida em casamento, recebeu um questionário onde constava o seguinte: Elizabeth, você gosta de roupas e prazeres frívolos? Quando se tornar esposa e mãe, amamentará seus filhos?
Hoje pareceria bastante estranho, senão meio sem noção, se um pretendente fizesse esse tipo de pergunta. Mas naqueles tempos, assegurar a amamentação do filho significava negar a vida doméstica e o comportamento no velho regime francês que adotava as amas de leite como padrão, quando não o abandono dos filhos às portas dos orfanatos. Cuidar, amamentar o filho significava renunciar à vida hedonista da corte.
No Brasil, a ama de leite, negra escrava, alimentou diversos sinhozinhos e sinhazinhas, o que inevitavelmente gerava um laço afetivo e uma aproximação entre escravos e senhores. Mais tarde, apareceu a amamentadora de aluguel, geralmente mães cujos filhos tinham morrido e, com os peitos a ignorarem o fato, tinham no leite um bem mercantil, até bem pago.
Até que, em 1876, aparece a farinha Láctea Nestlé. Vejam só a publicidade veiculada para a venda dessa farinha: “A escassez de amas sadias e boas, o seu preço elevado têm tornado a introdução da farinha láctea Nestlé um verdadeiro benefício para o Brasil”.
Por óbvio não recai mais sobre as mães o peso da guilhotina, nem os altos preços das amas de leite boas e sadias. O ato em si ganhou status, cresceu em importância porque se descobriu os inúmeros benefícios físicos e emocionais que engendram a seus protagonistas: mães, filhos e comida.
DICA DA SEMANA
Bolo
Amo bolo e vivo a procurar novas receitas. Essa é do livro de Nigel Slater. Vamos lá:
250g beterraba, 200g chocolate amargo 70% de cacau, 4 colheres (sopa) café expresso ainda quente, 200g manteiga sem sal, 135g farinha de trigo, 1 colher (chá) fermento químico em pó, 3 col. (sopa) cacau em pó, 5 ovos caipiras, 190 gr açúcar cristal orgânico.
Cozinhe as beterrabas, descasque e amasse. Derreta o chocolate em banho maria, coloque o café. Derreta a manteiga, misture e reserve. Numa tigela peneire a farinha, o chocolate, o fermento e reserve. Junte as gemas dos ovos ao chocolate derretido e morno. Adicione o purê de beterraba. Deixe as claras em ponto de picos, adicione o açúcar, continue batendo a ponto de merengue, junte ao chocolate de forma rápida o bastante para não perder o volume das claras. Faça o mesmo com os ingredientes secos. Forma de 20cm. Forno 160 graus.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.