Amiga da minha filha, e filha da secretária que acompanhou décadas o Rei Roberto Carlos, ela nos oferece ingressos para o show francano. Como recusar?
Não sou aquele tipo de fã, de carteirinha. Mas tenho genuíno amor por algumas canções do Rei: Fera Ferida, Detalhes, Emoções. Três que concentram um universo. Eu me sentei junto a uma grande fã, eufórica porque iria estar com o seu ídolo, no camarim, e estava a ensaiar o que dizer a ele, momento aguardado por 45 anos. Energia forte, de apaixonada! Faz bem sentir esse tipo de emanação, de gente apaixonada, seja pelo que for. Essa a atmosfera, domingo noturno, no Pedrocão.
Que delícia sentir a ternura e o romantismo do baixinho, como ele se define, afinado com a emoção, a traduzir o íntimo e profundo. Ele diz cantar o que o faz igual a todas as pessoas, ou às pessoas iguais a ele. Vida enraizada - a banda o acompanha desde o começo da carreira, ele sempre aplaude e pede aplausos aos que o cercam ele diz ter os melhores instrumentistas do mundo, os melhores amigos do mundo. O cara sustenta o passado, os seus valores, suas cores (o sempre azul em roupas e luzes do show), e se mantém permanente, apaixonadamente jovem, sem idade...
A fã, ao meu lado, cantou, fez coreografias com os braços, acenou, e tanto fez que Roberto Carlos acenou de volta. Para ela. Tudo parece verdadeiro nos gestos do Rei. Fotografei o aceno.
A borboleta. Ele anunciou, vou cantar músicas sobre o sexo, sexo com amor. Uma borboleta de cor bege, contrastando com o azul marinho do terno, pousou (imaginem!) bem naquele lugar que se diz que é a cabeça do homem quando deseja uma mulher... (rsrs). As canções evocavam os sentidos, músicas que embalam os motéis, diz ele, rindo. Até pensei que a borboleta estava ali, de propósito (rsrs). Uma, duas canções...e as fãs da segunda fileira (eu na terceira) gritavam olhe a borboleta, agitando seus corações e braços. Ele tomava os gritos e os agitos como pedidos para cantar alguma música específica, coisa assim... Até que, de costas para o palco, ele viu a borboleta e a fez voar. Rimos todos, aplaudimos, ele riu, cantou a próxima canção rindo... a vida pousando na arte. Fotografei a cumplicidade erótica do momento.
Momento final esperado: o Rei oferece rosas. Pedi uma e veio uma rosa branca, mas ela ficou entre quatro mãos... eu a soltei. Pedi de novo. Rosa vermelha. Ele me pergunta, duvidoso vai pegar? Peguei. Suspiros e olhares me seguiram... alguém se aproxima e me pede uma pétala da rosa. Fotografei o milagre da multiplicação amorosa.
Um círculo gentil. Um gesto amigo de Andrea Geier e a pétala da rosa real para a desconhecida. Detalhes constroem histórias.
Maria Luiza Salomão,
psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
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