Causa ou negócio?


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Em palestras, cito entrevista do jogador Oscar Schmidt com Marília Gabriela. Ela pergunta: “Dizem que gol é o orgasmo do futebol. Qual é o do basquete?” Sem hesitar, ele responde: “Jogar pela Seleção Brasileira! Gabi, não existe nada melhor que isso! Eu sou nacionalista, jogar pela Seleção... não tem prazer maior E sem ganhar nada! (...) Eu vinha da Itália para defender o Brasil, sem ganhar nada, sem seguro! (...) Jogar pela Seleção, pra mim, é o orgasmo do basquete.”

Há jogadores que não dariam entrevista assim. São profissionais que defendem um negócio como ninguém, mas que jamais fariam o que Oscar fez. Ele, não defendia um negócio, defendia uma causa. Quando vestia a camisa da Seleção, não era mais basquete, mas coisa mágica que fazia com que ele contaminasse o próprio time, que aceitasse sacrifícios impensáveis. Oscar entrou para o Hall Of Fame do basquete mundial como o maior cestinha da história.

É impossível compreender Oscar apenas por estatísticas, pelas coisas que podemos medir. O que fez de Oscar, Oscar, não foram regras. Oscar é Oscar por causa de fogo interior, força inexplicável que o guiou na direção de propósito, que orientou suas escolhas. Só chegou aonde chegou por defender uma causa, não um negócio.

Escrevo essas linhas no calor do julgamento do mensalão, após o ministro Celso de Mello votar a favor dos embargos infringentes que vão empurrar o processo para 2014 ou 2015 e garantir a mensaleiros penas cumpridas (se cumpridas) fora da cadeia, tremenda frustração para quem esperava que a justiça fosse feita. Mas, a justiça foi feita! O ministro votou baseado na lei, sua argumentação foi correta, assim como estaria se desse um voto contrário. O tema comporta várias interpretações, por isso precisamos de juízes, de craques como Celso de Mello. O problema é que precisávamos de juiz que defendesse uma causa, mas topamos com um que defende um negócio. O Brasil perdeu.

Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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